Damos por nós completamente absorvidos por uma serena espiritualidade capaz de nos transpor para o coração de uma floresta, algures longe... Zgard “Place to Power”

Editora: Schwarzdorn Production
Data de lançamento: 21.05.2021
Género: black/folk metal
Nota: 4/5

Damos por nós completamente absorvidos por uma serena espiritualidade capaz de nos transpor para o coração de uma floresta, algures longe da imaginação do Homem, onde não existe nada senão nós mesmos e a atmosfera a que nos deixamos render.

Com os 10 anos de carreira já celebrados em 2020, o guerreiro eslavo, de seu nome Yaromsil, mentor e motor de Zgard, volta uma vez mais a erguer o seu machado de guerra, sob a forma de música, com o novíssimo longa-duração “Place of Power”, que, curiosamente e segundo a press-release, já se encontrava finalizado desde 2019.

Sendo o sétimo disco de uma carreira da qual se pode orgulhar sem qualquer tipo de arrogância ou prepotência e que se faz acompanhar, e bem, do discernimento e coerência musical – sem medo de explorar as sonoridades mais possíveis dentro do género, porém sem se meter em aventuras desnecessárias –, “Place of Power” dá forma à maturidade que o projecto foi acumulando com o tempo, tratando-se assim de um álbum bem feito, com sentido e com os pés firmes e assentes no chão.

Sempre com o imaginário dos antigos povos da Europa do Leste à cabeça, bem como a natureza da cadeia montanhosa dos Cárpatos a servir de inspiração, o multi-instrumentista ofereço-nos, como seria de esperar, um black metal de veia pagã/folk. Contudo, não é algo que nos faça propriamente dançar enquanto fazemos uns malabarismos com a caneca de cerveja ou hidromel na mão, mas antes faz-nos apreciar o que está a ser tocado. Há algo de alquímico que nos atrai e consegue cativar, um pouco pelo efeito proporcionado pelos teclados. Há black metal, inquestionavelmente, porém sem todo aquele aparato das trevoso – talvez os temas mais condizentes com esse aspecto sejam “The Fiendmother” e o homónimo.

A dita veia folclórica fica novamente a cargo do uso de instrumentos tradicionais, caso da sopilka (uma espécie de flauta em madeira típica da Ucrânia), e, posto isto, tal facto pode não nos surpreender; todavia, perante a audição de faixas como as primeiras “Trap of Cold”, “Old Ruins” e, quase a chegar ao fim, “Last Harvest”, não nos é possível negar a forma insigne com que Yaromsil consegue misturar os dois lados da sua arte: o peso e a distorção do metal com a marca sonora das suas raízes.

“Place to Power” é uma prova de que o black metal pode perfeitamente ser pagão e folk, com ambos os pratos da balança alinhados.

O álbum encerra com chave de ouro em “Thraw”, em que damos por nós completamente absorvidos por uma serena espiritualidade capaz de nos transpor para o coração de uma floresta, algures longe da imaginação do Homem, onde não existe nada senão nós mesmos e a atmosfera a que nos deixamos render.