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Zeal & Ardor: «Se te conformares às expectativas dos outros, é só pipocas»

Manuel Gagneux sobre o novo álbum de Zeal and Ardor, os enigmas, a atitude desafiante e o satanismo moderno.

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Foto: Georg Gatsas

«Quis só fazer música novamente sem que tenha de significar algo obviamente.»

Em 2013, Manuel Gagneux pediu a utilizadores do 4chan que lhe sugerissem géneros díspares que pudesse unir. Uma das respostas foi a de misturar black metal com cantigas dos tempos da escravatura. Com a intenção de fazer apenas um disco, o projecto ganhou pernas, primeiro com o debutante “Devil Is Fine” (2016) e seguidamente com “Stranger Fruit” (2018).

Hoje em dia, Zeal & Ardor é já uma força do metal vanguardista (da folk americana ao black metal, passando pelo industrial, nu-metal e indie-rock) e angaria respeito pela faceta artística destemida que levou o projecto a festivais como Montreux Jazz, Download e Lowlands. Para 2022 espera-se que subam aos palcos do Hellfest e do Graspop, assim como uma digressão pelos EUA com Opeth e Mastodon e pela Europa com Meshuggah.

«É de doidos», diz Manuel a rir-se através da editora MVKA. «Tento não pensar sobre coisas como abrir para estas grandes bandas e tocar em grandes festivais. Costumo pensar que foi a ingenuidade que nos trouxe aqui, porque isto começou como uma brincadeira, um bocado tolice, do tipo ‘vamos experimentar’. E acho que isso é uma grande parte do encanto disto tudo. Não foi um esforço planeado e calculado. Apenas temos de nos divertir com a estranheza disto tudo.»

Chegados a 2022, Zeal & Ardor apresentam o álbum homónimo, com 14 faixas, à medida que Manuel tenta compreender a besta que criou. «É muito experimental», diz sobre o disco. «Nunca quisemos pôr-nos num canto. No passado, sempre deixámos pequenas janelas abertas para podermos fazer cenas com sintetizadores ou fazer isto e aquilo. Pareceu divertido, mas com pouco foco. Por outro lado, este disco é mais direito – é onde queremos estar sonicamente.»

O processo de composição durou apenas três meses, com Manuel a trabalhar sozinho na sua cave, a captar ideias espontâneas. Muitas das músicas surgiram de linhas vocais, à volta das quais construiu o resto da música, incluindo riffs ou adornos com teremim.

«Quanto mais cismo numa música, mais se dilui», confessa. «Escrevi umas músicas que revisitei e trabalhei ao longo de anos. Sem excepção, ficaram ainda piores! Portanto, percebi: ‘vamos bombá-las e é isso.’»

Tematicamente, o álbum prossegue a história alternativa de quando os escravos negros se viraram para o satanismo para se rebelarem, mas Manuel, enquanto artista, optou por incluir mistérios enigmáticos à volta do conceito.

«Quis só fazer música novamente sem que tenha de significar algo obviamente», revela. «As pessoas criam as suas próprias narrativas em relação à música, mas se disseres ‘não, na verdade é isto e isto’, a modos que lixas tudo para toda a gente. Portanto, é vago como sempre. Significa algo para mim e tenho mensagens que lá coloquei para mim mesmo, mas hesito em dizer ‘é exactamente isto que tem de ser interpretado’.»

«Somos uma banda que tem o seu próprio nicho, para o bem e para o mal.»

Para além dos elementos satânicos na música, na parte gráfica também isso se torna claro com a capa a exibir as mãos do Baphomet. Embora Manuel não se diga praticamente, o espírito de Satan aparece alto e em bom som neste disco.

«O satanismo moderno é sobre auto-satisfação, apreciação do ego e fazer com que as coisas te aconteçam», repara Manuel. «Somos uma banda que tem o seu próprio nicho, para o bem e para o mal, mas estamos a fazer exactamente o que queremos sem regras. Acho que isso é análogo ao satanismo.»

E se satanismo representa oposição, então Zeal & Ardor incorpora isso mesmo na resistência ao monótono e ao habitual, propondo que se desafie as pessoas. «Se eu carregar um vídeo e só tiver uns poucos likes, acho que fiz alguma coisa de errado», conclui Manuel da mesma forma que começou, a rir. «Nunca é unânime. Mas é bom, porque, se fores divisivo, então acho que tens algo de valor. Se te conformares às expectativas dos outros, é só pipocas, é aborrecido.»

“Zeal & Ardor” tem data de lançamento a 11 de Fevereiro de 2022 pela MVKA.

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