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Whitechapel: Quem és tu? Quem sou eu?

Wade e Bozeman contam tudo sobre a criação trabalhosa e o conceito complexo de “Kin”.

Foto: cortesia Metal Blade Records

«Queríamos mesmo que as músicas respirassem, tivessem uma vida e que soassem mais enormes do que qualquer coisa que tenhamos feito.»

Por esta altura do campeonato, os Whitechapel, formados em 2006 e com uma discografia já considerável, são alvo de respeito, e álbum após álbum foram mostrando uma evolução confiante na sua sonoridade que vai do deathcore ao rock alternativo.

Depois de terem lançado “The Valley” em 2019, um álbum que o guitarrista Alex Wade aponta como «quase perfeito», os norte-americanos regressam com “Kin” que, outra vez, leva a banda a novos territórios sem perderem a visão daquilo que os guiou até aqui.

«Sinto que com cada álbum aprendemos o que funciona melhor e tentamos utilizar isso na nossa composição», diz Wade através da Metal Blade Records. O vocalista Phil Bozeman acrescenta: «No início da composição houve alguma discussão sobre o álbum ser do tipo “The Valley” parte II. Não literalmente, mas em como as músicas soavam e fluíam. “Kin” é muito uma espécie de álbum narrativo como “The Valley” foi. Musicalmente, quisemos criar aquilo que sentimos no momento. Escrevemos música com pelo que sentimos e não pelo que é expectável vindo de nós. Liricamente, a ideia de continuar a história de “The Valley” foi sempre um objectivo.»

Como com tantas outras bandas, o início do processo de escrita de “Kin” tem origem na pandemia. Com digressões canceladas, o grupo decidiu focar energias e começar a trabalhar num novo longa-duração. Wade recorda: «Começámos as sessões de composição em Maio [de 2020] e compúnhamos durante uma semana, depois parávamos uns tempos para deixar que o material fosse digerido, reiniciávamos e ganhávamos novas ideias e perspectivas sobre as músicas, depois voltávamos durante mais uma semana e continuávamos o processo.»

Para este álbum, a banda tratou da tarefa como um emprego que começava às 12h e terminava às 19h. E se, por acaso, encalhassem numa música, mudavam a mira para outra, o que ajudou a refrescar ideias. Wade admite também que dar um sucessor a “The Valley” foi assustador, mas cedo todos os temores foram ultrapassados. «Não posso falar por toda a gente na banda, mas senti-me um pouco intimidado ao início, a pensar se conseguíamos invocar aquela magia novamente. Mas depois de ouvir algumas maquetes, senti-me mais confiante para recriar uma onda semelhante ao “The Valley”. Acho que a nossa composição é feita em camadas, e cada uma é criada e colocada nas músicas – [e] começam a ganhar uma vida e personalidade próprias. Assim, com cada camada, ficas mais confiante com as músicas e com o impacto que vão ter.»

O resultado é uma colecção de músicas que explora muito território sónico e emocional. Assim, pela primeira vez pode-se dizer que, na carreira dos Whitechapel, “Kin” é tanto um álbum rock como metal, algo com que Wade concorda. «Continua a ser muito um álbum metal – não creio que possas ouvir estas músicas na rádio –, mas há elementos que têm uma onda mais rock e ampla. Queríamos mesmo que estas músicas respirassem, tivessem uma vida e que soassem mais enormes do que qualquer coisa que tenhamos feito. Também explorámos mais a parte de cantar.»

«Continua a ser muito um álbum metal, mas há elementos que têm uma onda mais rock e ampla.»

Com Bozeman a examinar traumas de infância em “The Valley”, o sucessor “Kin” continua essa jornada. Ao de leve, o título diz respeito a parentes familiares, mas o conceito é mais profundo do que isso e inclina-se para a ideia de que a realidade alternativa do vocalista também pertence à família. Bozeman explica: «É uma representação ficcional de uma história não-ficcional. Venho de um ponto-de-vista ‘e se?’. Também estou a representá-lo de uma maneira que transmita um estado de espírito mais profundo e negro. É tudo sobre o que eu podia ser se tivesse decidido tomar a estrada negra. Para bem da narrativa, também há elementos sobrenaturais.»

Cada faixa é complexa à sua maneira e requer que se leia cada verso com especial atenção para que tudo seja melhor compreendido, mas Bozeman abre o livro e explica o conceito das três primeiras.

A inaugural “I Will Find You” recomeça o que o álbum “The Valley” terminou com a faixa “Doom Woods”, que vê Bozeman a entrar na sua vida após os acontecimentos descritos ao longo do disco. «No entanto, estou a ser seguido pela minha realidade alternativa e malvada. É a parte de mim que não consigo largar e faz tudo para encontrar o meu eu real e puxar-me de volta ao passado negro de onde quero sair.»

Depois há “Lost Boy”, em que o vocalista e o seu alternativo se encontram pela primeira vez. «Tenta convencer-me a ir para a sua realidade, que é uma falsa sensação de segurança. Ele sabe que estou numa situação vulnerável na minha vida e é o momento perfeito para me puxar. Contudo, resisto e o meu alternativo é mandado para onde veio.»

Isto leva-nos directamente a “A Bloodsoacked Symphony”, que descreve o ser alternativo de Bozeman a viver tragédias sem cessar. Eventualmente, a personagem suicida-se, apenas para se encontrar no mesmo mundo negro, depressivo e delirante. «Os meus pais estão comigo, mas num cérebro morto, num estado vegetativo. O delírio [da personagem alternativa] vê isso como uma maneira de estarmos juntos. Ao longo da faixa revive certas partes da nossa vida passada, mas com resultados diferentes.»

Quanto ao trabalho em estúdio, “Kin” foi predominantemente feito no estúdio caseiro do guitarrista Zach Householder com o produtor Mark Lewis a colaborar com Whitechapel pela quinta vez. «Criar discos com o Mark é fácil, e podemos fazer as coisas bastante rápido e de forma eficiente», assegura Wade. «O Mark tem um excelente ouvido para nos fornecer tons únicos e complementares de guitarra e bateria para as músicas que tentamos gravar.»

Depois das novas composições terem sido enviadas para David Castillo as misturar na Suécia em Fevereiro de 2021 e para Ted Jensen as masterizar nos EUA em Março, os Whitechapel tiveram finalmente nas mãos um álbum do qual se podem orgulhar. Wade conclui: «Vejo mais crescimento e potencial sem limites. Acho que encontrámos uma excelente fórmula no “The Valley” e usámo-la para criar mais um disco monumental na nossa carreira. Esperamos continuar a fazer crescer a nossa base de fãs com este novo álbum, e almejamos sempre ir numa direcção positiva. Estou entusiasmado com a pandemia a decrescer, para podermos voltar à vida das digressões e para podermos executar as músicas colossais que criámos, para serem ouvidas como devem ser: ao vivo e com alto som.»

“Kin” tem data de lançamento a 29 de Outubro de 2021 pela Metal Blade Records.

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