Entrevista com Vreid. Vreid: a noroeste daqui
Foto: Nesbo Talle

«Acho que a paisagem norueguesa tem um efeito de aventura nos mais jovens.»

Jarle Kvåle

É curioso verificar que tanta e tanta coisa mudou no som dos Vreid desde os seminais “Kraft” ou “Pitch Black Brigade”, os dois primeiros discos dos noruegueses depois de enterrados os lendários Windir. De maneira oposta, também é curioso verificar que tanta coisa ainda resta desse tempo, como as estruturas de guitarra, a sensação black n’ roll a tempos e o black metal distinto, impregnado de sintetizadores inorgânicos (por vezes, a roçarem o industrial) e que criam um ambiente desconfortável como base de tudo. Tudo isto foi preservado até à actualidade desde o primeiro registo. Com “Wild North West”, os Vreid afirmam-se como uma das mais importantes vozes oriundas da Noruega, tal é a ambição e o talento demonstrado no novo disco. Como se isso não bastasse, a banda apresentou um filme que mistura animação e personagens e paisagens reais que se revezam e segmentou-o por faixas, dando origem ao conceito de “Wild North West”. Após visualizar o filme, a Metal Hammer Portugal percebeu imediatamente estar perante território virgem, bem como algo especial. Daí à conversa com Jarle Kvåle, baixista dos Vreid, foi uma questão de tempo.

«Quando começámos a trabalhar no novo disco, já tinha as letras prontas e algumas ideias a surgir, mas quando fizemos o livestream nas montanhas, no Verão, disse ao produtor que queria fazer mais algumas coisas. Então, falei com ele e expliquei o tipo de letras que tínhamos para cada música e que queríamos um vídeo para cada tema e que ele fizesse a ligação de todos. Sempre gostei de fazer coisas novas que me abrissem novas portas, que puxassem por mim. Nunca gostei de coisas fáceis. Sempre adorei vídeos, desde os tempos do Headbangers Ball nos anos 80, pois os vídeos traduziam-te o significado da música e davam-te uma melhor impressão do que a banda queria dizer com cada tema e para onde se dirigia com cada música. Parece-me que tudo isto foi uma grande aventura com as pessoas certas ao meu lado, pessoas que partilham a minha filosofia. Foi como gravar novamente a minha primeira demo – senti-me muito entusiasmado e sem saber qual seria o resultado final disto e como tudo acabaria. Claro que isto também é o resultado de anos de experiência a abrir novas portas, a contar histórias para que as pessoas percebam a nossa realidade – o filme faz não só isso como explica o sítio de onde vimos.»

Realmente, nada poderia estar mais próximo do modo de vida tradicional norueguês do que o início do filme, no qual vemos um jovem adulto lenhador que, depois do seu dia de trabalho, veste a sua farda de black metal e se aventura floresta dentro, sempre seguido por uma entidade sobrenatural, talvez a própria morte, e pára para admirar a beleza natural do seu país. Após, dirige-se a uma embarcação, empurra-a para dentro da água e começa a remar em direção ao fiorde. É um momento épico e quase que dá a entender que lenhador e a Noruega são agora um e apenas um. Tudo isto fala imenso sobre a Noruega e leva-nos a crer que o orgulho tradicionalista e a herança cultural assistem os Vreid, como, aliás, assistem quase qualquer outra banda de black metal deste lugar. «Acho que a paisagem norueguesa tem um efeito de aventura nos mais jovens – a determinada altura da tua vida de jovem, no fim da tua adolescência, perdes o medo e começas a querer explorar a paisagem enorme que te rodeia na Noruega, sentes essa ânsia de viajar e de ver o que o mundo te pode oferecer. Para mim, em vez de explorar, a minha ânsia foi a de criar algo musicalmente em vez de viajar ou servir o país. Quando partes, deixas as tuas tradições e cultura em casa e nunca sabes onde irás parar. Daí que ele leva uma mochila, transportando um pouco da sua casa com ele.»

«Quando partes, deixas as tuas tradições e cultura em casa e nunca sabes onde irás parar.»

Jarle Kvåle

Parte da cultura norueguesa mais recente envolve a invasão nazi durante a Segunda Guerra Mundial. “Wolves at Sea” explora essa temática e o facto de os noruegueses não serem particularmente agradáveis perante invasores há milénios, sejam eles padres que procuram converter, sejam eles soldados que procuram escravizar um país. Certamente que essa última invasão deixou marcas profundas nas gentes do país. «Bem, sempre fui fascinado por histórias de pessoas que lutam pelos seus países, seja contra nazis ou contra outros perigos. Imagino as dificuldades que as pessoas passaram durante essas lutas, quão brutal deve ter sido, e também na esperança dessas pessoas. O mesmo pode acontecer quando te afastas de casa – podes ter experiências traumáticas que te vão alterar a vida.» Certo, mas “Wild North West” parece mais um conto sobre como é a Noruega do que propriamente a história de alguém que se afasta da Noruega. Parece uma espécie de mapa musical para turistas de como é a verdadeira Noruega, uma espécie de celebração do país. «Para mim, é sobre contas as histórias dos meus antepassados e, claro, prestar-lhes homenagem e contar como foi a vida deles. Mas estas histórias existem em todo o mundo, apenas contamos as nossas – tem-las na Áustria, na Argentina… As nossas tratam sobre os nossos antepassados e as suas culturas. Não é que sejam especiais em relação às outras, mas as nossas falam daquilo que nos é mais próximo. Ou seja, eu não só vivo na Noruega como vivo a Noruega.»

Em termos musicais, os Vreid evoluíram como poucas bandas norueguesas sem perderem a sua agressividade, e parece-nos que estamos a viver um marco histórico no género – ou seja, que daqui a 30 anos estaremos a falar da música de 2021 como falamos actualmente da de há 30 anos. Será que os Vreid vêem o mesmo, que o black metal norueguês continuará a evoluir? «[pausa] Grande pergunta… [pausa] Acho que houve muitas bandas de black metal norueguês, que eu adoro, que emergiram e evoluíram tanto e que seguiram caminhos tão distintos: Enslaved, Ulver, Mayhem, Ihsahn… Tomaram caminhos muito distintos e acho que isso foi algo que as bandas da Noruega sempre quiseram seguir, o seu próprio caminho único. É uma coisa muito black metal – o black metal é um espírito livre, podes criar o que quiseres e acho que, sem dúvida, continuará a evoluir, o que acho espectacular. Claro que também há muitas bandas a praticar um som mais tradicional, mas o futuro do black metal está assegurado.»

Há algo em comum entre as bandas que progridem e as que preferem continuar com o som tradicional: ambas vivem de concertos e merchandise vendido, não de discos. Claro que, com um filme, é mais fácil promover um disco, principalmente numa época tão difícil como esta. Assim, surgiu a dúvida se o filme seria um registo que melhor permitisse aos Vreid promover o álbum no futuro próximo. «Espero que isto [a pandemia] acabe em breve e talvez o filme ajude. Mas queremos é tocar ao vivo, claro. Quando estás numa banda, o que tu queres é tocar ao vivo e, quando não estamos em digressão, a nossa cabeça começa naturalmente às voltas, a pensar: ‘Que mais poderemos oferecer?’ Queremos é tocar ao vivo. Fizemos um streaming no Verão, já chega – o que nos interessa é regressar à estrada. Na verdade, tocámos em Oslo durante a pandemia, pouco antes de voltar a fechar tudo. Dá para tocarmos actualmente em concertos pequenos, mas queremos é voltar a correr o mundo e regressar aos grandes palcos, claro. Espero ver-vos em Portugal e ao vivo o quanto antes!»