Entrevista com Vexed. Vexed: «Não há melhor vingança do que felicidade e sucesso»
Foto: cortesia Napalm Records

Nova aposta da música extrema vinda do Reino Unido, os Vexed quebram as barreiras do convencional ao combinarem hardcore, deathcore, prog e alguma electrónica. O álbum “Culling Culture” é a materialização dos intentos da banda. A vocalista Megan Targett fala sobre o disco, as alterações na vida pessoal que a levou a apagar certas pessoas do seu quotidiano e crenças religiosas.

«O progresso da sociedade não é linear e às vezes parece que damos dois passos em frente apenas para recuarmos dez de um dia para o outro.»

Megan Targett

Culling Culture” é um título muito mais pesado e assustador do que se lhe chamassem algo como “Cancel Culture” ou seus sinónimos. Quem é que nos está a abater?
O nome “Culling Culture” é inspirado no fenómeno da cultura do cancelamento, mas a um nível muito mais pessoal. “Culling Culture” enquanto título do álbum foi uma maneira de resumir o que cada música representava, pois cada faixa foi escrita sobre um indivíduo específico com o qual eu não queria mais associar-me. Cheguei a um ponto da minha vida em que estava a ser usada e aproveitada por tantas pessoas que já não aguentava mais e removi essa gente toda da minha vida. Sempre fui muito empática e, por isso, no passado, vi-me a ir mais além para ajudar qualquer pessoa, mesmo quem não merecia, magoando-me no processo. As pessoas aproveitavam-se de mim com muita facilidade e demorei muito para perceber o meu próprio valor e que estavam apenas a usar-me. É muito fácil cair na armadilha da mentalidade de ter de ajudar toda a gente, e isso pode causar sérios danos quando essas pessoas realmente não querem saber de ti. É importante frisar que ninguém tem o direito de te tratar mal, seja quem for, e se isso não trouxer nada mais do que negatividade e toxicidade, elimina-os. Metaforicamente, claro!

Lidando com pessoas falsas, ódio, traição e raiva, a nota de imprensa diz que o álbum também reflecte uma sociedade pós-moderna. Estamos a ir na direcção oposta do que deveríamos?
Não acho que estamos a ir na direcção oposta, mas definitivamente também não estamos a ir na direcção perfeita. O progresso da sociedade não é linear e às vezes parece que damos dois passos em frente apenas para recuarmos dez de um dia para o outro. Acredito que há bondade neste mundo e que as gerações mais jovens são uma voz poderosa que se está a esforçar para mover as coisas na direcção certa. Gostaria de pensar que os Vexed também fazem parte dessa multidão. Infelizmente, haverá sempre pessoas com opiniões extremas e odiosas, mas tudo o que podemos fazer é continuar a lutar pelo que é certo, que é igualdade e direitos para todos. Só espero que isso tenha impacto nas mentes dessas pessoas negativas e que, possivelmente, até mude as suas opiniões.

Por outras palavras: estão a pregar a nossa morte ou estão a alertar-nos sobre isso com a intenção de nos livrarmos da negatividade?
Não estamos de maneira alguma a pregar a nossa morte, mas, em vez disso, a incentivar as pessoas a usar a dor como uma forma de inspirar positividade. Ódio, traição e raiva são alguns dos sentimentos mais fortes que uma pessoa pode ter e isso pode fazer com que os humanos ajam das maneiras mais estúpidas. Em vez de se agir por impulso quando estamos a sentir essas coisas, estamos a dizer para se reservar um momento para sentir e aceitar, e depois que se use isso para combustível em direcção à grandeza. A dor pode destruir ou motivar, e acredito que não há melhor vingança do que felicidade e sucesso.

À primeira, Vexed é metal extremo baseado nas raízes do deathcore, mas depois há um toque de prog e tecnicismo, sem esquecermos os espasmos electrónicos que dão ao álbum uma onda completamente insana…
Achamos que é difícil encontrar um rótulo para nós. Todos ouvimos uma grande variedade de música que nos inspira. Se ouvissem a nossa playlist em digressão, vai desde bandas como Emmure, Periphery e Kublai Khan a Ashnikko, NWA e Cardi B. Não nos queríamos limitar a criar apenas um tipo de metal e, portanto, não definir quaisquer limites de escrita deu-nos uma verdadeira sensação de liberdade. Sou grande fã de rap e grime, e por isso quis tentar a minha própria interpretação desses estilos e ritmos com os meus berros, bem como levar as minhas vozes limpas o mais longe que conseguisse. Estamos ansiosos por nos esforçarmos ainda mais para o segundo álbum e ver o que daí sai.

Gostámos muito da simplicidade dos títulos e como podem ser contrastantes ou conflituosos entre si – por exemplo, “Epiphany” versus “Misery”, “Weaponise” versus “Purity”. Existem também os de confronto como “Hideous”, “Fake” e “Narcissist”, mas depois há um brilho de esperança com títulos como “Aurora” e “Lazarus”. O que é que no final estão a tentar ressuscitar depois de tamanha turbulência, tanto sónica como lírica?
Ter títulos de uma palavra para cada faixa foi algo que decidimos fazer desde o início. Queríamos escolher apenas uma palavra que representasse o indivíduo em cada música – e, por isso, é bastante pessoal. Cada pessoa nestas músicas foi removida das nossas vidas e não temos mais nada a ver com elas. Portanto, suponho que as faixas são a nossa maneira de aceitar a experiência e deixá-la ir embora. De qualquer maneira, para a maioria, será um longo processo.

Os vídeos de “Hideous” e “Misery” são excelentes. Falemos sobre o último. Pelo que dá para entender (tanto lírica como visualmente) existe um conflito interno, duas versões de ti a lutar por uma posição. Porém, porquê inserir a igreja no conceito? E Međugorje escrita no rosário que tens nas mãos – tem a ver com a peregrinação ao local?
Com as restrições no Reino Unido a serem realmente rígidas por causa da covid, estávamos com dificuldade em termos ideias sobre como poderíamos representar a mensagem da música em formato de vídeo. Fui criada como católica e, portanto, confessar-me é algo de que nunca gostei e que me causava ansiedade. Assim, isso pareceu encaixar-se no contexto da música sobre lutar-se contra demónios interiores e sofrer com ansiedade. Também há alguns versos na música que se referem à oração, portanto tudo parecia fazer sentido. Também era algo que poderíamos conseguir facilmente nas difíceis circunstâncias da quarentena. A minha fé não é algo de que eu gosto de falar publicamente, porque é, na minha opinião, um assunto pessoal. Vexed não é uma banda cristã, mas sou cristã, por isso levei o meu rosário comigo para a sessão de fotos. Foi um presente de um amigo que realmente foi a Međugorje há alguns anos – mas eu nunca lá fui.

Ouvindo o que cantas e a maneira como cantas, imaginamos imagens trémulas e desfocadas da tua cara – do tranquilo ao demoníaco, do pacífico ao violento, do carinho ao desejo de esmagar cabeças. Quão diferente do teu quotidiano pessoal podes ser ao cantar em Vexed?
Vexed dá-me a liberdade de que sempre precisei, mas não tinha força para lutar por isso. Carrego muito peso sobre os meus ombros com traumas e acontecimentos passados. Portanto, quando estou em casa, vejo-me muito a braços com essas coisas e às vezes sinto dificuldades. Mas Vexed é o meu escape e um lugar onde me sinto forte e segura. Quando estamos a compor ou a actuar, sinto que todas essas coisas negativas não me controlam e consigo lidar com elas com facilidade. Como no videoclipe de “Misery”, luto contra os meus demónios interiores e, portanto, ficar presa em casa durante mais de um ano sem fazer digressões tem sido muito difícil. Mal posso esperar por voltar ao palco e sentir-me forte novamente.

É um cliché, mas, com um disco tão forte em mãos, quais são as tuas expectativas para o resto de 2021?
As nossas esperanças para o resto de 2021 têm a ver com terminar a composição do nosso segundo álbum, mas principalmente podermos fazer uma digressão e ver os nossos fãs novamente. Eles têm sido as pessoas mais solidárias e maravilhosas ao longo de toda a campanha, e ser capaz de me conectar a eles num concerto seria a melhor sensação de sempre. Vai ser incrivelmente difícil controlar-me nesse primeiro concerto, e pensar nisso faz-me disparar o coração. Vamos fazer figas para que todos possamos viver isso muito em breve!

“Culling Culture” foi lançado a 21 de Maio de 2021 pela Napalm Records.