Os Válvera nas suas próprias palavras e impressões. Válvera: «Procuramos sempre o novo, evoluir o nosso próprio som»
Foto: Leonardo Benaci

Numa trajectória marcada pelo aprimoramento constante, pelo profissionalismo e pelo eterno esculpir da personalidade musical, que se se mostra mais madura, sólida e ciente das ambições a cada novo lançamento, os thrashers paulistas Válvera coroaram a sua evolução com o lançamento do elogiadíssimo e multifacetado “Cycle of Disaster”, o terceiro disco de estúdio e primeiro pela editora americana Brutal Records. Sobre a expansão sonora, conquistas, conceitos, novidades que estão para vir, sobre a ruptura dos padrões metálicos, assim como o actual panorama político brasileiro, passamos a palavra aos fundadores Glauber Barreto (voz/guitarra) e Rodrigo Torres (guitarra). Os Válvera nas suas próprias palavras e impressões.

«Sabíamos o que queríamos – estávamos muito empolgados e empenhados.»

Sobre o álbum “Cycle of Disaster”

Comecemos pelo resumo da vossa trajectória até ao momento actual. Quais as dificuldades e reveses que os Válvera enfrentaram e como os contornaram?
Fundámos Válvera em 2010, no interior de São Paulo, mas lançámos o nosso primeiro álbum “Cidade em Caos” em 2015, quando já morávamos na capital. Fizemos alguns concerto no Brasil, porém a recepção não foi tão boa por cantarmos em português. Em 2017 resolvemos mudar, lançámos o nosso segundo álbum “Back to Hell” com todas as letras em inglês e com um som mais pesado. Com esse trabalho, tocámos em grandes festivais do país e também conseguimos a nossa primeira digressão europeia, que foi onde os Válvera começaram a aparecer ao mundo. Em 2020 foi lançado mundialmente o nosso terceiro trabalho, “Cycle of Disaster”, que figurou entre os dez melhores álbuns de quase todas as listas da imprensa brasileira. Infelizmente, estamos a viver uma pandemia e é impossível dar concertos. Acreditamos que este seja o momento mais difícil da nossa história, pois preocupamo-nos com a saúde e com a carreira. Todos os dias precisamos de nos reinventar e encontrar formas de sobreviver, mesmo sem poder exercer a nossa profissão.

Dez anos de carreira implicam muitas mudanças, algumas boas e outras nem tanto. Os Válvera passaram por mudanças na formação, mas, ao que tudo indica, sem sofrer danos na face musical. Aliás, seguem uma tradição própria, a de manter-se em contínuo aprimoramento. Como é manter o equilíbrio da banda perante as mudanças e como é não deixar que interfiram na qualidade?
Somos uma banda que vive na estrada. Demos mais de 200 concertos na digressão do “Back to Hell”, então, para quem não está focado e com vontade de seguir essa carreira, é um fardo pesado. A coluna dorsal da banda nestes anos sempre foi nós os dois – Glauber Barreto e Rodrigo Torres –, então, mesmo com as mudanças de membros, conseguimos manter o foco. Tentamos sempre evoluir de um trabalho para outro e acreditamos que a formação actual é a melhor que já tivemos, portanto coisas ainda melhores devem acontecer no próximo álbum.

A cada novo álbum ouvimos a banda num novo estágio de evolução. Sendo os Válvera marcados pela inquietação perante a sua própria arte, sempre a lapidar e a melhorar a sonoridade, percebem os limites dessa busca por personalidade? Fariam como Metallica, por exemplo, nos discos “Load/Reload” e “St. Anger”, caso sentissem o desejo de explorar ainda mais e sair da zona de conforto?
Procuramos sempre o novo, evoluir o nosso próprio som. Se voltássemos ao passado e se em 2015 alguém nos mostrasse o “Cycle of Disaster”, iríamos ficar assustados. A evolução leva tempo, não dá para acelerar essas coisas. Acreditamos que para uma banda se manter viva, é sempre preciso quebrar limites e não ficar estagnada. Iremos sempre fazer o que acreditamos ser verdadeiro no momento.

Ainda sobre o tema anterior, não seguem uma fórmula, tão pouco um molde sonoro já surrado pelo tempo e pela repetição. Chocar os mais velhos e quebrar os dogmas do thrash metal é a missão dos Válvera? Dão aos fãs o que eles esperam ou dão o que eles precisam, no caso, a noção de que evoluir é necessário?
Não existe fórmula para se fazer arte e vemos que o jovem não quer ouvir a música que o avô ouvia. Então, não é uma questão de chocar os mais velhos, mas de fazer sentido para esta nova geração. É importante para o artista ser actual. Na maioria das vezes, as pessoas não sabem o que querem, portanto é nosso dever tentar entender o momento. E mais, amamos a essência do rock e do metal, que é a de quebrar regras, não de as seguir.

Back to Hell”, o segundo trabalho lançado em 2017, manteve a dupla de produtores Marcello Pompeu e Heros Trench (ambos da lenda do thrash metal que é Korzus). Eles já tinham trabalhado com a banda dois anos antes na estreia “Cidade em Caos”. Esse disco é marcado pela troca de idiomas, em que os temas passam a ser em inglês, e também por render à banda a oportunidade de fazer a sua primeira digressão internacional, com 14 concertos na Europa. Como foi essa experiência? Quais foram as mudanças no pós? O que foi como aprendido?
Trabalhar com o Pompeu e com o Heros foi incrível – são lendas no metal brasileiro! Tivemos a oportunidade de vê-los no Rock in Rio em 2011 e aprendemos muito com eles. A troca de idioma aconteceu por dois motivos. O primeiro é que o nosso maior objectivo é sermos uma banda mundial, e cantar em inglês facilita muito. O segundo porque sofremos muito preconceito por cantar em português no nosso país, por isso não é uma conta muito difícil de se fazer para chegar a esse resultado. A maior aprendizagem que tiramos é que devemos sempre reinventar, ter a mente aberta.

Cycle of Disaster” é um trabalho marcante devido a diversos tópicos: pela capa e produção, pela energia e entrosamento que a banda trasmite nos seus temas que, como sempre, não seguem uma linearidade e nem se padronizam num único estilo. A banda já possuía um esboço ou ideia de como o disco deveria soar? Como foi a sua confecção?
Tivemos a ideia do álbum “Cycle of Disaster” durante a digressão europeia, enquanto conversávamos com um amigo de uma rádio de Munique, a FCK FM. A ideia de um ciclo de desastres, em que todas as letras fizessem parte do contexto. Sabíamos que precisávamos de modernizar o som, mas não somos uma banda que compõe o álbum com todas as músicas iguais – para nós isso seria chato, então não ter uma linearidade é algo de que gostamos. Esse foi o álbum mais fácil de trabalhar. Sabíamos o que queríamos – estávamos muito empolgados e empenhados. Normalmente, em Válvera, as músicas são criadas a partir das guitarras e assim que chegámos da digressão europeia entrámos em estúdio para fazer uma pré-produção. Logo de seguida, procurámos o Dual Noise Estúdio para gravar o novo trabalho.

Ao longo de 40 minutos divididos em nove composições, o ouvinte vê-se dentro de um caldeirão sonoro. Há diversas referências ao metal mais ortodoxo e ao thrash metal da Bay Area. Como doseam as influências de modo a que fiquem reconhecíveis, mas não ao ponto de ofuscarem a vossa própria identidade?
A ideia é não copiar, mas inspirar no estilo e fazer algo nosso. O ADN do que gostamos e ouvimos vai estar sempre ali, mas tem de soar do nosso jeito.

O trabalho foi lançado pela editora americana Brutal Records, tem recebido óptimas críticas por parte da imprensa especializada e está a obter excelente aceitação por parte dos fãs, aceitação essa que lhe rendeu um oitavo lugar na lista de melhores do ano da Roadie Crew. Esperavam esse reconhecimento? O que é que os Válvera têm reservado para este ano?
Esperávamos esse reconhecimento, não só pelas notas e óptimas análises que recebemos mas porque sabíamos que tínhamos um trabalho sólido. Vindo de uma crescente nos últimos anos, na busca por esse alto nível, e o álbum é a prova disso. Os Válvera figuram entre as melhores bandas da nossa safra. Para este ano temos uma versão alucinada de “Stayin’ Alive” dos Bee Gees, que fará parte de uma colectânea europeia de versões de clássicos da pop e do rock dos anos 80. Vamos lançar o clip da música “The Damn Colony”, que é uma super-produção feita pelo realizador Plínio Scambora. Faremos algumas lives até os concertos voltarem e no segundo semestre entramos em estúdio para produção do quarto álbum.

O próximo vídeo a ser lançado será para a faixa “The Damn Colony”, cujo tema central é um dos episódios mais tristes e vergonhosos da história brasileira – a barbárie que aconteceu no manicómio Colônia em Barbacena, Minas Gerais. Estima-se o genocídio de 60.000 pessoas entre 1903 e 1980. Qual a razão da escolha desta faixa para sair em vídeo e por que abordar um tema tão delicado?
Como artistas, temos a obrigação de falar, de ser a voz do povo, de trazer perguntas, para que coisas assim nunca mais aconteçam. Escolhemos essa música exactamente por ser um tema delicado e muito pouco divulgado no nosso país. O hospital era destinado à contenção dos indesejáveis, cerca de 70% dos internados não tinham qualquer diagnóstico de doença mental. Eram enviadas “pessoas não agradáveis e incómodas” para alguém com mais poder, como opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, entre outros grupos marginalizados na sociedade. O massacre que ocorreu no hospital Colônia de Barbacena supera, e muito, as mortes registadas na ditadura militar brasileira. O psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro na luta antimanicomial na Itália, quando visitou o Colônia em 1979, disse: “Estive hoje num campo de concentração nazi. Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como esta.” E tirando a parte histórica, esta é para nós uma das melhores músicas do álbum.

Ultimamente, a modos que se tornou um hábito julgar o carácter de bandas e fãs tendo como base a sua postura política – o indivíduo vê-se obrigado a escolher um lado e a evidenciar tal escolha, quase sempre nas redes sociais, onde o terreno é propício para que as bandeiras do extremismo sejam hasteadas. Como encaram essa nova perspectiva ou mesmo uma ditadura de opiniões? Uma banda precisa realmente de ter e de expor as suas posições, existe a necessidade de tomar partidos?
Deixamos bem clara a nossa posição na letra de “All Systems Fall”. Pode entrar político e sair político, não importa, o sistema é corrupto. Sinceramente, um lado ou outro vai fazer o mesmo des-serviço. Se uma banda deseja ser militante como os Rage Against The Machine, é importante tomar partido, mas não é o caso de Válvera. Aqui temos como objectivo abrir a mente das pessoas e mostrar que a fé cega, a falta de questionamento – seja na política, religião ou qualquer outra área – leva-nos ao erro. Vivemos a época da ditadura de opiniões e do cancelamento – toda a gente tem direito de opinião, mas há tanto ódio e preconceito que o mundo está intolerante.