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Turtle Skull “Monoliths”

Os Turtle Skull seguem uma orientação muito própria no que diz respeito a fazer música, e há um alto nível de bom gosto, de segurança e de confiança no que entregam.

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Editora: Art As Catharsis / Kozmik Artifactz
Data de lançamento: 28.08.2020
Género: psych rock
Nota: 4.5/5

Os Turtle Skull seguem uma orientação muito própria no que diz respeito a fazer música, e há um alto nível de bom gosto, de segurança e de confiança no que entregam.

Este álbum surge enquanto um ponto de fuga, um lugar de instrospeção, emersão e conexão espiritual. Inspirado pelo país natal da banda, o berço das espécies de fauna e flora mais psicadélicas do nosso planeta, “Monoliths” pretende celebrar e tonificar uma relação sincera e simbiótica com a natureza, através de uma odisseia caleidoscópica de doom psicadélico.

Fazendo aqui uma pequena nota de apresentação sobre a banda: os membros de Turtle Skull parecem todos ter humble-happy-hippie escrito na testa e descrevem o próprio som com o termo flower doom, termo esse que de tão adequado nos obriga a perceber que realmente não há outra maneira de o descrever. “Monoliths” é o primeiro LP da banda, após o lançamento de um EP homónimo lançado há dois anos, em que o som do flower doom se fez cunhar e apresentar no meio de uma gravação mais crua, que trouxe calor, intimidade e postura a um corpo de som feito de riffs centrais muito fortes. Esta forma de gravar mais natural é mantida neste disco, aumentando ainda mais a densidade energética deste álbum.

A viagem começa com “Leaves”, uma faixa com um convite, indutora de uma espécie de estado de transe ou sonho lúcido, em que as vozes harmonizadas ondulam num canto hipnotizante, entre porções de extravagância apocalíptica. Tivemos a flora e “Rabbit” introduz a fauna: spicy e inquieta, é uma jam em bombeamento constante com doçura melodiosa adicionada a gosto. O esforço para atingir o hipnotismo colectivo continua com o canto das palavras «run rabbit, run», que repetem em loop até que se pareçam com um feitiço ou uma prece pagã. No influxo de uma bateria compacta, “Heartless Machine” apresenta-se como uma slow-burner, com uma melodia mais obscura que inclui efeitos robóticos na voz em honra do próprio título – os Turtle Skull não têm medo nenhum de experimentar. No final, desdobram-se numa ponte de doom em crescimento exponencial onde encontramos a falésia para o fim do mundo.

Há um equilíbrio saudável de diversidade em “Monoliths”, um esforço inteligente na consolidação de dinâmicas entre o psych e o doom, que permite que os dois géneros se unam de forma menos convencional. Voltando à base inspiradora deste disco, a estrutura das músicas e a sua progressão impõem um ciclo semelhante à dualidade comportamental da natureza, de tranquilidade e compostura elísia que levam a passagens de destruição cataléptica. Flower Doom.

Daqui para a frente encontramos mais desta mistura de som límpido, fuzzy e ágil, com uma bateria estalada e decidida e constante celestialidade nas vozes. Na faixa “Who Cares What”, as vozes harmonizadas aproximam-se e respiram sobre nós, enriquecidas por riffs juicy empurrados por um pedal wah-wah, que é aqui o agente activo de corrosão na música. Termina numa espécie de desmaio no nirvana, a permitir a entrada de “Halcyon”, que é uma experiência totalmente diferente, talvez o zénite da magnificência do reverb neste álbum. A secção rítmica e de cordas simplifica, aparece com um toque de shoegaze, um coro a cantar-nos à distância, samples de sons da natureza e talvez a textura de um pau-de-chuva. Esta música é um êxtase de serenidade, uma paisagem sonora subaquática que nos permite imaginar estarmos a flutuar numa massa de água gigantesca enquanto olhamos para cima, para a imagem distorcida do céu acima dela, onde encontramos e absorvemos paz. “Apple of Your Eye” pede emprestada a melodia de “Halcyon” para usar na introdução e dar-lhe distorção e uma vibe western. Devolve-se a atenção ao fuzz e aos riffs psych resilientes e pronuncia-se um refrão colorido, em aproximação ao indie. A trip termina com as visões de uma inflação cósmica a acontecer com “The Clock Strikes”, uma música de maior peso, preenchida por solos soltos e ácidos, mais inclinada para o heavy psych rock e a instigar uma total perda gravitacional.

É aqui que está o charme do engenho de Turtle Skull: eles sabem onde adicionar o quê, que aspectos devem fortalecer ou suavizar as músicas e quais os detalhes que o vão permitir. Não existe neles um receio em sair de parâmetros impostos pelos próprios géneros musicais que lhes servem de base, desde que cada música cresça como tiver de crescer. É assim que se mostram ser o surfactante certo para juntar o doom e o psych e observar esta junção num outro prisma. Este álbum consegue surpreender pela quantidade de espaço que ocupa e pela corpulência de origens delicadas, tornando o título “Monoliths” no mais adequado que este disco podia ter pedido. Os Turtle Skull seguem uma orientação muito própria no que diz respeito a fazer música, e há um alto nível de bom gosto, de segurança e de confiança no que entregam. “Monoliths” dá-nos um cheiro a uma banda em ebulição que nos parece prometer mais experiências como esta. Não só vale a pena ouvi-los como também vale a pena mantermo-nos perto deles.

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