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Tribulation: «É tudo embrulhado numa mortalha funerária»

Entrevista com Tribulation.

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Foto: Ester Segarra

«Estamos definitivamente a expressar o lado mais lúgubre da vida, mesmo que haja uma réstia de luz no álbum.»

Adam Zaars

Os Tribulation começam 2021 em grande com o álbum “Where the Gloom Becomes Sound”, mas terminaram 2020 com uma notícia que abalou os seus fãs: Jonathan Hultén (guitarrista, compositor e força motriz em palco com os seus movimentos à bailarina) estava de saída.

Numa entrevista concedida pelo guitarrista Adam Zaars à Metal Hammer Portugal começámos por falar logo sobre o elefante na sala para depois podermos seguir em frente. «Não ficámos surpreendidos, só não sabíamos de nada até há poucas semanas, mas não foi um choque», revela. «Quando escrevemos e gravámos o álbum, não sabíamos e o Jonathan não sabia. Acho que ele já andava a pensar nisto há muito tempo, tanto podia ter acontecido mais cedo como mais tarde. Por alguma razão, aconteceu agora.» Joseph Tholl foi entretanto recrutado e tem no currículo bandas como Enforcer e Vojd.

Quanto à novidade discográfica, que foi realmente o que nos conduziu à marcação desta conversa, ouvindo-se “Where the Gloom Becomes Sound” no seu todo e sem interrupções, o disco soa a uma longa marcha funerária, havendo todo um sentido de morte, uma condenação iminente e um lamento raivoso durante 10 faixas de metal enegrecido misturado com gothic e post-punk. «Acho que também há algo mais positivo ou mesmo mais afirmativo da vida», contrapõe Adam Zaars, «mas geralmente é tudo embrulhado numa mortalha funerária, o que acontece neste álbum. Especialmente por causa dos dois últimos álbuns que fizemos, que foram mais… [interrompe] Não diria depressivos, porque não acho que tenham a ver com depressão, mas agora estamos definitivamente a expressar o lado mais lúgubre da vida, mesmo que haja uma réstia de luz no álbum».

Quanto ao título, esse é mais do que uma bonita frase poética, precisamente porque tem a sua origem em Sopor Aeternus, um projecto altamente icónico no universo gótico. «É uma influência recorrente nos últimos oito a dez anos», diz. «Esta linha em particular já estava connosco e andávamos a pensar em usá-la. Representa a música e aquilo que sempre tentámos alcançar ao compor. Acontece que achámos que se adequava muito bem à música deste álbum.» Porém, por mais que Sopor Aeternus seja uma inspiração, tanto a nível conceptual como musical, há algo mais, algo que outras bandas, como Ghost, fizeram de alguma forma ressuscitar – falamos de Blue Öyster Cult. «Não é que se aponte para um riff e se diga que é influenciado por esta ou aquela banda, mas Blue Öyster Cult tem sido uma grande influência», sublinha.

Ao longo de um alinhamento composto por 10 faixas, encontramos títulos apelativos como “Dirge of a Dying Soul”, “Daughter of the Djinn” ou “Funeral Pyre”, mas há um que talvez consiga destacar-se mais do que outros… Logo na segunda posição damos de caras com “Hour of the Wolf”. Para os mais conhecedores de cinema, isto poderá levar-nos até ao lendário realizador sueco Ingmar Bergman, que, entre filmes revolucionários como “O Sétimo Selo” (“Det sjunde inseglet”) e “Morangos Silvestres” (“Smultronstället”), dirigiu “A Hora do Lobo” (“Vargtimmen”), o seu único filme de terror. Terá sido uma inspiração directa? Sendo um tema composto por Jonathan Hultén, Adam responde: «Pode ser até certo ponto, mas acho que tem mais a ver com a verdadeira hora do lobo, que deverá ser às três da manhã, quando parece que os fantasmas te assombram [risos], sem saberes se são mesmo fantasmas ou ansiedade. Mas já nos inspirámos em filmes de Ingmar Bergman.»

«Estou muito fechado na minha bolha, em casa, por isso não estou muito a par do que se passa no metal em geral.»

Adam Zaars

Como algumas outras bandas que começaram no death ou black metal e prosseguiram caminho até ao dark/gothic rock ou post-punk (caso dos Secrets of the Moon), os Tribulation foram-se tornando um nome muito particular e marcante precisamente devido a essa evolução com discos a obterem cada vez mais louvores. Será que Adam vê os Tribulation como pioneiros ou será uma atitude arrogante dizê-lo de si próprio? «Sim, acho que seria muito arrogante», responde enquanto dá uma gargalhada. «No outro dia fizeram-me uma pergunta acerca do “The Children of the Night” [2015], sobre ser um marco no metal que estava a começar uma nova vaga de bandas, mas eu nem sabia disso. [risos] É-me muito difícil dizer algo assim. Estou muito fechado na minha bolha, em casa, por isso não estou muito a par do que se passa no metal em geral. Acho que já vimos isto antes e é um fenómeno interessante. Estou a pensar em Paradise Lost ou Tiamat, e a modos que fizeram a mesma coisa. Perguntam-nos muitas vezes se nos inspirámos nessas bandas, só que não. Mas ouço Tiamat muitas vezes.»

As origens de Tribulation levam-nos a questionar Adam sobre uma peripécia mais pessoal. Se fizermos uma pesquisa sobre entrevistas que deu nos últimos anos, o death metal vem invariavelmente à baila e, geralmente, o sueco dá a mesma resposta: não gosta de death metal, só de Morbid Angel. «Gosto de mais bandas de death metal para além de Morbid Angel», afirma-nos bem-disposto. «É por causa de como começámos», pois “The Horror” (2009) era, na essência, um álbum muitíssimo baseado em death metal, «e parece que é o ponto de referência que as pessoas fazem. Eu compreendo, está tudo bem, é a subcultura em que crescemos, mas raramente penso em death metal quando componho para Tribulation. Algumas bandas de death metal são uma inspiração, mas penso que não somos uma banda de death metal e penso que concordarão comigo».

Com 2020 para trás, que nos roubou um dos melhores Verões das nossas vidas em termos de festivais devido à pandemia, Adam conclui a conversa ao manter-se cauteloso quanto a 2021. «Estou a tentar não ser muito esperançoso, porque, o quer que aconteça, temos de esperar para ver. Esta pandemia tem sido obviamente horrível e tem sido um grande golpe para o metal e para a cena musical em geral. Não podemos fazer nada, e se queres fazer algo, então tens de encontrar novas maneiras. Muitas bandas estão a fazer isso – colaboram com outras pessoas, fazem muito streaming e assim por diante. Se não conseguirmos ir para a estrada, então temos de começar a fazer streaming também. Não temos planos, mas esperamos conseguir fazer a digressão em Setembro e Outubro com Bølzer e Molassess.»

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