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Tool “Lateralus”: pensamento lateral, Fibonacci e chamadas trianguladas

E ainda dizem que os Tool não têm sentido de humor…

«Ouvi que o fãs dizem que nos vendemos quando os últimos álbuns tiveram sucesso. Tenho de concordar com eles. Somos um produto. Mas também somos verdadeiros para com o que acreditamos», disse o vocalista dos Tool, Maynard James Keenan, em 2001 por altura do lançamento de “Lateralus”. No início do milénio, os Tool já eram, de facto, mais do que uma banda – eram uma marca envolvida em mistério, escuridão e sofisticação. Ninguém soava como Tool.

Com um sentido de humor tantas vezes incendiário que se pode notar nas declarações anteriores, os Tool não obtêm o devido crédito quanto a isso, havendo uma aura de seriedade que é, em certa medida, criada pelos próprios fãs. Por exemplo, no período precedente a Maio de 2001, quando “Lateralus” chegou às lojas, a banda utilizou a sua imaginação para promover um álbum falso – e a imprensa mordeu o isco. A ABC News noticiou que «os Tool, nos estágios finais do seu novo álbum, revelaram um título para o tão esperado LP: “Systema Encéphale”. De acordo com o site da banda, o sucessor de “Ænima”, de 1996”, incluirá “Malfeasance”, “ UVR”, ”Numbereft”, “Encephatalis”, “Mummery”, “Coeliacus”, “Pain Canal”, “Lactation”, “Smyrma” e “Riverchrist”». A jogada estava lançada e os fãs ajudaram à festa quando, na plataforma Napster, partilharam e fizeram circular vários títulos e músicas que não eram de Tool, como “Prove It”, que era afinal “Prove to You” de Chevelle.

Como se veio a verificar, o tão aguardado álbum de Tool não se chamava “Systema Encéphale”, mas “Lateralus”, um título que se refere tanto ao músculo da coxa, vastus lateralis, como ao conceito de pensamento lateral. «[Lateralis] em si é, na verdade, um músculo e, embora o título tenha algo a ver com o músculo, é mais sobre o pensamento lateral e como a única maneira de realmente se evoluir como artista – ou como humano, acho eu – é começar a tentar pensar fora das linhas e forçar os limites. Do tipo, levar-te onde nunca estiveste e colocares-te num lugar diferente – todos esses clichés», disse Keenan.

Mais profundamente, “Lateralus” tem muito de matemática, com as letras de Keenan para o tema-título a serem baseadas na Sequência de Fibonacci – cada número seguinte corresponde à soma dos dois anteriores (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, …).

Durante o processo de composição, o baixista Justin Chancellor levou uma linha que, após algumas manobras, evoluiu para compassos de 9, 8 e 7. «O Danny [Carey, bateria] viu que havia uma ligação com Fibonacci, então começou a tentar trabalhar em alguns elementos à volta disso», contou o guitarrista Adam Jones à Kerrang!. «Depois, o Maynard apareceu e começámos a falar-lhe da sequência. Isso vem da tentativa de nos relacionarmos com as coisas da vida ou da natureza que todos temos em comum… É algo que as pessoas estudam desde o início dos tempos. Portanto, queríamos aplicar isso à nossa música – é por isso que nos aprofundámos mais na ideia por detrás da ciência, da metafísica e do mito da comunicação.» Numa espécie de haiku, eis o resultado: «Black (1) then (1) white are (2) all I see (3) in my infancy / (5) Red and yellow then came to be (8) reaching out to me (5) / Let me see (3).»

Com uma obra que é, realmente, uma caixinha de surpresas, “Lateralus” fecha com “Faaip de Oiad”. Vamos por partes. Primeiro, o título traduz-se de enoquiano para a nossa língua como “a voz de deus”. Segundo, enoquiano é a língua dos anjos documentada por John Dee e Edward Kelley, ocultistas ingleses do Séc. XVI. Terceiro, a música é composta por quase três minutos de noise, bateria desconcertante e bravata fervorosa que é sacada de uma chamada telefónica para o programa de rádio “Coast to Coast” de Art Bell. Nessa chamada, o homem diz ser um antigo funcionário da famosa Área 51 e entra em pânico ao reclamar que a sua ligação está a ser triangulada. De acordo com a lenda, o satélite que fornecia a linha perdeu a sua funcionalidade durante a emissão do programa, mas, mais tarde, alguém que disse ser aquela pessoa fora de si revelou que tinha fabricado a história. «Nunca saberemos», disse Danny Carey.

“Lateralus” alcançou o nº 1 da US Billboard 200 e o tema “Schism” bateu Black Sabbath, Slayer, Slipknot e System of a Down na edição dos Grammy Awards de 2002. No acto de agradecimento, Carey disse: «Obrigado aos meus pais por me aturarem, e quero agradecer a Satanás.» Chancellor acrescentou: «Quero agradecer ao meu pai por comer a minha mãe.» E ainda dizem que os Tool não têm sentido de humor…

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