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Tool “Fear Inoculum”

Treze anos depois, os Tool estão de volta aos discos com o muito aguardado “Fear Inoculum”. Por ser um álbum exigente e expansivo, a Metal Hammer Portugal oferece a experiência que é “Fear Inoculum” vivida pelo editor Joel Costa e pelo colaborador Luís Alves.

Fotografia: Travis Shinn

Treze anos depois, os Tool estão de volta aos discos com o muito aguardado “Fear Inoculum”. Por ser um álbum exigente e expansivo, a Metal Hammer Portugal oferece a experiência que é “Fear Inoculum” vivida pelo editor Joel Costa e pelo colaborador Luís Alves.

Review de Luís Alves

«Podemos afirmar que “Fear Inoculum” se distingue por ser, na sua grande maioria, atmosférico, etéreo e expansivo.»

As duas músicas que os Tool revelaram ao vivo nos últimos anos, “Descending” e “Invincible”, deram-nos uma previsão do que viria a ser futuramente revelado, ainda que não fosse no seu todo. Não era possível ainda ter uma noção de como seriam lacrados a produção, os arranjos e os efeitos envolventes, o tom das guitarras de Adam Jones, da bateria de Danny Carey e também as nuances vocais de Maynard James Keenan, mas era já certo que duas músicas de 10 minutos num disco cujo alinhamento contaria com apenas 7 músicas, levantavam já a suspeita de que não iríamos ouvir uma sonoridade radicalmente diferente, ainda que bastante complexas, texturadas e inseridas nos cânones daquilo a que a banda nos habituou. Ainda assim, ao ouvir este material ao vivo era frequente uma sensação…aquela sensação de “acho que já ouvi isto antes”.

E eis que passado treze longos anos chega finalmente “Fear Inoculum”, o quinto álbum dos Tool, e o que há agora a dizer, comparando a totalidade do disco com as amostras que pudemos ouvir ao vivo previamente? Uma espécie de confirmação da linha de pensamento inicial: Jones, Keenan, Carey e Chancellor não saíram, nem tentaram sair muito de dentro dos limites da sua própria identidade que forjaram de forma tão criativa e exímia nos últimos vinte anos, se bem que se tivermos de comparar “Fear Inoculum” e categorizá-lo individualmente face à restante discografia da banda, podemos afirmar que se distingue por ser, na sua grande maioria, atmosférico, etéreo e expansivo.

Os pontos altos deste disco são curiosamente músicas que os Tool não levaram consigo para a estrada, como que guardando o melhor para o fim de um ciclo de treze anos, aparentemente interminável. “Fear Inoculum” e “Pneuma” mostram a banda a embarcar em viagens sonoras permeadas por momentos de quietude, pontualmente rasgados pela guitarra perfurante e cirúrgica de Adam Jones, com Danny Carey a assumir a função do motor da banda em constante rotação e Justin Chancellor a manter um pulso forte e estável com o seu baixo hipnotizante. As já mencionadas “Descending” e “Invincible” poderiam ter figurado nos dois anteriores discos da banda, enquanto que “Culling Voices” mostra o quarteto num crescendo gradual entre luz e sombra com um Maynard a cantar num tom muito reservado e contido. “Chocolate Chip Trip”, a única música que não totaliza mais de 10 minutos de duração acaba por ser meramente um pretexto para Danny Carey exibir o talento que o colocou no panteão de um dos melhores bateristas do rock progressivo dos últimos anos, mas pouco mais do que isso…

No entanto, há que referir que se os Tool tivessem decidido fazer todo um disco na mesma veia de “7empest”, a faixa final, teria sido uma história muito diferente. É sem dúvida o melhor momento do álbum, repleto de riffs cortantes e cirúrgicos, com um solo simultaneamente fluído e intricado de Adam Jones no meio de 15 minutos que nos servem uma quantidade abismal de mudanças de compasso, representando um dos melhores exemplos do que os Tool conseguem fazer quando estão a jogar no seu melhor.

Embora a produção esteja forte, acutilante e com um extraordinário nível de definição, um dos problemas de “Fear Inoculum” é que soa, em comparação directa com os discos prévios da banda, menos focado, sendo notória em alguns momentos a perda da capacidade de síntese que a banda já mostrou no passado noutras composições. Foi escrito um álbum inteiro de material nestes últimos treze anos que foi abandonado por não estar à altura dos padrões auto-impostos pelo quarteto, o que mostra que às vezes tempo demais passado num processo criativo pode suscitar incerteza sobre qual o melhor caminho a tomar e levar consequentemente a uma maior dispersão, que acaba por ser notória em alguns momentos. Além disto, Maynard James Keenan não aparece com a mesma força e presença que anteriormente, sendo que a sua voz é usada mais como outra cor que é adicionada à gama cromática que cada música apresenta, mas em pequenas quantidades e sem a força que a caracterizava no passado.

No fim do dia há quem possa argumentar que a espera de treze anos acabou por não valer a pena, pois um intervalo tão grande de tempo entre discos coloca inevitavelmente as expectativas em níveis estratosféricos. A julgar por esses padrões, poderão haver fãs com a sensação de que os Tool lhes ficaram a dever e não lhes pagaram, mas com certeza para outros permanecerá a impressão do que é provavelmente o mais importante: Temos outra vez Tool e tivemos direito, sem dúvida, a um bom disco. Esperemos é ouvir o seu sucessor o quanto antes, mas de preferência antes de 2032…

Nota: 4/5


Review de Joel Costa

«”Fear Inoculum” é um trabalho tão profundo e cheio de segredos, que uma crítica nesta fase, por muito ponderada que seja, pode revelar-se prematura.»

Não será exagero dizer que “Fear Inoculum” foi um dos discos mais aguardados de sempre entre a comunidade rock, com os treze anos de espera a fomentar incontáveis rumores e especulações em torno da banda liderada por Maynard James Keenan. Porém, a espera terminou e “10,000 Days” tem finalmente um sucessor. Composto por sete faixas com a versão digital a receber três interlúdios adicionais, os Tool sabiam que tinham perante si a difícil tarefa de criar algo novo que correspondesse às expectativas geradas durante este longo interregno, algo que combateram com o single e tema-título deste “Fear Inoculum”, com a guitarra a criar o ambiente necessário durante o que parecem ser dois minutos intermináveis até que a voz de Maynard se faz ouvir para nos dar aquela sonoridade inconfundível dos Tool. A fasquia, ambiciosa quanto baste, é estabelecida nos minutos que se seguem, com os Tool servirem-se da experiência acumulada de sucessos anteriores e a construir uma narrativa extensa mas em constante evolução, saltando de riff em riff e de ideia em ideia até ao próximo momento mágico. De facto, “Fear Inoculum” é um trabalho tão profundo e cheio de segredos, que uma crítica nesta fase, por muito ponderada que seja, pode revelar-se prematura.

Já “Pneuma”, por exemplo, é um tema com vida própria que segue a fórmula anterior, tendo sempre presente que evolução é a palavra-chave neste álbum. A tranquilidade estabelecida pelos acordes iniciais da guitarra de Adam Jones dão lugar a um acesso de fúria na fase final da composição, com Maynard James Keenan a atirar palavras soltas enquanto as cordas despejam riffs que nos levam a paisagens mais pesadas, transpondo as fronteiras do metal.

Se há coisa que este “Fear Inoculum” consegue mostrar é que o génio dos Tool continua presente, oferecendo a ascensão musical a que nos habituaram ao longo dos anos e a reacender uma chama que se julgava apagada e que arde agora alimentando-se das emoções, dos lamentos e da melancolia patentes neste registo.

Naquele que é o quinto disco da banda, há ainda espaço para a reflexão anexada a “Invincible” ou para o electro de “Chocolate Chip Trip”. O regresso às raízes é celebrado com “7empest”, apresentando-se como um dos melhores e mais pesados momentos deste trabalho e com Keenan a mostrar-se tão genuíno quanto possível com o tom amargo que adopta no registo vocal.

“Fear Inoculum” é daqueles discos que só está ao alcance dos Tool, com todos os membros a servirem-se da sua singularidade e a contribuir com algo único para um trabalho cuja espera valeu a pena. Não ficaríamos surpreendidos se tivéssemos que esperar outros treze anos por um novo álbum, pois ficou provado que por mais que os anos passem, o mundo continua a ter lugar para os Tool.

Nota: 4/5

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