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Terra Brasilis: Paulo Baron, produtor musical da TopLink

Paulo Baron com Twisted Sister (Foto: cortesia Paulo Baron)

Este mês decidimos abordar sobre a área de produção de espectáculos, que está a ser gravemente afectada devido à pandemia do novo coronavírus (COVID-19) em todo o mundo, com bandas a cancelarem ou a reagendarem os concertos. Conversámos com Paulo Baron, produtor de concertos na América Latina, em especial no Brasil.

O proprietário da TopLink contou como começou o seu interesse por música e concertos, até criar a produtora. «Quando tinha sete anos já ouvia rádio e ouvi pela primeira vez o que depois soube que era Led Zeppelin e depois Elvis Presley. Por causa deles fiquei apaixonado por rock. Isto tirou-me sempre o sono, e comecei a comprar discos de vinil desde que era adolescente. Quando me mudei para Espanha – do México para Espanha –, já que os meus pais são antropólogos, eu não tinha amigos e o meu único hobby era assistir aos concertos das bandas que eu ouvia no México – bandas como Scorpions e Def Leppard, que foram as primeiras bandas que vi ao vivo. Naquela época, fiquei impressionado com os concertos, fiz uma promessa a mim próprio: um dia queria estar envolvido no show-business. Não sabia como, apenas tocava bateria, mas não me considerava um bom baterista. Então, quando me mudei para a Inglaterra para estudar Cinema, a minha ideia era entrar no meio do mundo dos videoclipes, entrar no mundo da música, e foi assim que aconteceu. Entre os 18 e 19 anos fiz o meu primeiro concerto – foi com Sepultura em Londres –, aí montei a minha própria empresa Top Link Music, o mesmo nome de todo este tempo. Criei o meu próprio logo, registei a marca, registei a empresa, e assim já se passaram mais de 30 anos até ao momento.»

Baron produziu diversos espectáculos em estádios, principalmente com Scorpions, e contou-nos sobre o maior concerto que já produziu no Brasil. «Tive os meus festivais Live N’ Louder, que acontecia simultaneamente entre México e Brasil. Foram feitos por uma vontade que tinha, e sempre gostei de colocar objectivos na minha vida. E um festival era um desses meus objetivos.Não me imaginava a fazer muitos festivais, mas queria experimentar e ver como era.» O Live N’ Louder Festival teve três edições no Brasil. Foi um evento grandioso e um dos maiores que o país já teve, e pode ser considerado um dos maiores desafios. «Fazer um festival é uma coisa de palavras maiores e muito mais quando se olha para trás. O primeiro festival que fiz foi em 2005, no estádio do Canindé. Mas poucas pessoas sabem que ao mesmo tempo estava a acontecer, na semana anterior, o mesmo festival na Cidade do México, no Palacio de los Deportes, e no Brasil teve a edição que passou por Porto Alegre. Nessa mesma semana, todas essas bandas estavam em digressão e todas elas eram organizadas pela minha empresa. Ou seja todos os músicos que vieram, não deram apenas um concerto, mas tiveram que fazer uma turnê pela América Latina. Isso foi muito desafiante, stressante e muito louco. Uma experiência que por um lado me custou uma fibromialgia, e por outro trouxe-me muito conhecimento e também uma expansão muito grande para a minha empresa e para o meu nome como produtor. Realmente foi uma epopeia fantástica.»

A depressão e o desanimo com o show-business inspirou Paulo Baron a escrever o livro “Rocking All My Dreams”, de modo a contar as suas histórias neste ramo. «Havia um amigo que gostava que eu contasse as minhas epopeias quando regressava das digressões, as minhas histórias em turnê, que é o que ocupa a maior parte do meu tempo, a viajar com os artistas. E num momento comentou-me que eu deveria escrever um livro a contar isto, e propus-lhe que o faria só se fosse com ele. Uma vez que é um dos meus melhores amigos, seria a pessoa certa para me ajudar com isto. E assim começou. Começámos a reunir para uma cerveja à tarde quando eu voltava ou nos momentos em que estava tranquilo em casa, e assim foi passando o tempo, e num período de dois anos fomos juntando todas as histórias que me lembrava, transformando-se neste livro. A minha ideia era que este livro pudesse inspirar algum jovem que estivesse a sentir-se perdido por não se encaixar no mundo, já que o mundo normalmente exige-te que sejas um profissional. E às vezes, ser jovem não é ir-se sempre atrás de uma profissão que trará felicidade, mas sim seguindo os sonhos, porque os seus sonhos tornam-se realidade. De facto, é por isso que o livro se chama “Rocking All My Dreams”, uma brincadeira entre rock e rockar, ir atrás [de algo]. Então, na verdade, a ideia é correr atrás dos sonhos e torná-los realidade. Sinto-me um homem que conseguiu fazer dos sonhos uma história, e uma história real.»

Assim como muitos fãs, gosto de conhecer os meus ídolos, tirar fotos e guardar recordações desses anos, mas ter uma produtora e ter acesso a grandes nomes do rock e metal também dá a hipótese de estar perto dos ídolos. «Neste mundo, os seres humanos podem mudar com o tempo – às vezes, por interesse, parecemos simpáticos e depois podemos mostrar as nossas caras. Há outros que são realmente estranhos, mas cada um tem os seus motivos, creio eu. Creio que, normalmente, relacionei-me com artistas do show-business que gostei bastante, a maioria era excelentes pessoas, e muitos deles tornaram-se grandes amigos. Amigos de conversar por WhatsApp e por telefone, de desejar um feliz Natal, aniversário, etc.. Pessoas em quem sei que posso contar. Mas sobre pessoas que me lembro que foram decepcionantes na minha vida, posso citar Wes Scantiln dos Puddle Of Mudd, uma pessoa realmente bastante desequilibrada e pouco profissional. Decepcionei-me com Michael Schenker por causa um pedido que o irmão dele, o Rudolf Schenker, me fez para que ajudasse de alguma maneira, e, quando tentei fazer isto, ele mostrou-se uma pessoa bastante desequilibrada – conto essa história no meu livro. E também o Dave Mustaine dos Megadeth – que bom ele já ser conhecido como uma pessoa volúvel e conflitiva; isto não é nenhuma novidade mas uma realidade. Estes são alguns dos casos de que me lembro, já que foram poucos os que me deram o desagrado de tal ter acontecido.»

Com muitas bandas de renome a anunciar o fim de carreira, como Kiss, Back Sabbath, Motörhead, Slayer, entre outras, Baron comenta sobre como vê o futuro dos grandes eventos e sobre as bandas actuais que podem vir a tornar-se grandes. «O rock feito entre os 70 e os 80 foi feito por descobridores, pessoas que abriram espaço para o que estava para vir. E, normalmente, essas pessoas, que descobriram o mundo, vão ser lembradas para sempre, já que eles foram os primeiros. Tive a grande sorte de trabalhar com a maioria desses grandes nomes de alguma maneira. Agora têm surgido algumas outras bandas que têm trazido público – posso falar de algumas como Volbeat, Five Finger Death Punch, Ghost, entre outras –, mas acredito que vai ser muito difícil ficar com a imagem do que eram os antigos, porque quando se fala de tipos como Ozzy Osbourne, Dee Snider, Kiss, Tommy Iomi, Ronnie James Dio, Lemmy, David Bowie, The Rolling Stones, The Beatles, Van Halen em geral, vês super-heróis. Por exemplo, eu não tinha interesse no Super Homem ou no Homem Aranha, para mim os meus super-heróis eram esses músicos, e essa vai ser uma imagem que vai ser muito difícil de alguém conseguir nestes momentos, muito difícil que isso volte a acontecer devido ao terem surgido num momento mágico de descobridores.»

Devido à crise causada pelo novo coronavírus, o sector está gravemente afectado, o show-business esta a passar por uma situação muito forte, são milhões de pessoas que estão envolvidas directa ou indirectamente. «O baque, neste momento, aparentemente pode ser momentâneo, mas na realidade as sequelas disso vão durar possivelmente anos, já que o entretenimento se torna uma das últimas opção da cadeia alimentar, e isto é um grave problema para nós que vivemos do show-business. Por exemplo, há 30 anos que só trabalho nisto, e há todas as outras pessoas da indústria, como os roadies, técnicos de som, iluminação, todo a gente que está por atrás para manter uma banda ou uma agência, bookings, managers, produtores, etc.. É uma indústria muito grande, que toda ela vai ser prejudicada, e depois de já termos ultrapassado esta situação, muitas pessoas vão ficar pobres, o próprio fã possivelmente não terá dinheiro para ir aos concertos. Por isso, digo que isto pode acabar por levar bastante tempo até uma recuperação, possivelmente anos, infelizmente.» A TopLink tem diversos concertos marcados no Brasil, e os que aconteceriam nestes meses foram adiados. Baron falou-nos da alternativa encontrada para se manter no mercado durante a crise do novo coronavírus. «Bom, este coronavírus tem-me afectado bastante, porque eu tinha muitas turnês na América Latina, que tenho de mudar as datas. Posso te falar de Creedence, UFO, Sons Of Apollo, The 69 Eyes, que são turnês que eu tinha entre os meses de Março, Abril e Maio, que precisarão de passar para o próximo semestre ou até para o próximo ano. Os depósitos para as bandas já estavam feitos, publicidade já feita e as salas contratadas, passagens de avião compradas. Bom, agora a situação passa por esperar um momento para ver o que vai acontecer no futuro. Agora, pessoalmente, devido a ter lançado o meu livro, estou a fazer várias entrevistas e ao mesmo tempo participo em vários vídeos no canal do jornalista e crítico mais importante do Brasil, o Regis Tadeu, No canal há um programa chamado “Por Dentro com Paulo Baron”. Nos últimos tempos, tenho entrevistado artistas amigos, já que estou com mais tempo para fazer isto desde casa. Isso também mantém a minha empresa activa, mantém-me ocupado, além de estar logicamente produzindo conteúdo para os próximos concertos das bandas que estão para vir. Mantinha-me bastante longe das redes sociais, e agora mesmo estou mais próximo do nosso Instagram. Isso também me faz saber mais sobre como vão as coisas e saber como as pessoas pensam.»

Foto: cortesia de Paulo Baron

Durante a quarentena, muitas bandas, websites e empresas criaram alternativas para se manterem activas. Baron partilha algumas alternativas que chamaram a sua atenção. «Eu mesmo sou uma pessoa que dá assessoria a muitas pessoas em entrevistas que dou ou no próprio canal do Regis, dando ideias sobre o que as bandas precisam de fazer para se manter. Acredito que muitas bandas vão começar a fazer músicas melhores, pois estão a ter mais tempo para compor, mais tempo para se interiorizarem consigo mesmas. Creio que será um momento criativo muito importante para as bandas. Também tenho percebido que alguns artistas estão a dedicar-se a ter um contacto mais real com os seus fãs, o que acho bem porreiro. Mostram-se a tocar sem maquilhagem ou simplesmente com a guitarra – acho isso espectacular.»

Para finalizar, Paulo Baron deixou um recado para produtores mais pequenos, que estão a começar, e a todo do sector da música que será afectada com esta crise. «Bom, o que posso dizer é que o show-business é uma situação muito séria. Por incrível que pareça, por mais que com o meu livro tente incentivar as pessoas a animarem-se, para que tenhamos mais produtores, já que os sonhos acontecem, ao mesmo tempo isso mostra que se não estás preparado para um problema como este, podes acabar a afundares-te e a afundar outras pessoas. O show-business é uma coisa muito séria, e quando és um produtor ou um promotor, mexes com o dinheiro do povo e se não tens muito dinheiro por trás que possa te proteger, vais acabar por fazer coisas erradas que espero que algumas pessoas não estejam a fazer, como por exemplo estar-se a ficar com dinheiro do fã que comprou o bilhete. Chamo a atenção para que todos sejamos mais responsáveis com o show-business. Infelizmente acontece que pessoas oportunistas por aí acham que podem fazer um concerto porque vão pôr bilhetes à venda, mas não têm um respaldo financeiro, e quando vêem que isso não era da maneira que imaginavam, acabam por ficar com o dinheiro das pessoas e isto prejudica muito a própria indústria. Então, a minha primeira sugestão para os fãs passa por verem sempre se a empresa que está a promover o concerto é idónea, se é uma empresa reconhecida e se tem um bom currículo. Segundo, para os promotores que estão a começar, dou a sugestão de que não dêem um passo maior do que a perna, é preciso medir o poder de fogo que se tem, o poder de preservação do seu próprio dinheiro – ou seja, se investem mil, tem que se ter outros mil para o caso de alguma coisa errar. Isto é o segredo, creio eu, de se conseguir viver por muitos anos o show-business. Levo mais de 30 anos neste negócio, passei por várias situações na minha vida e fui amadurecendo cada vez mais, mas sempre pensei que as pessoas têm de ir passo a passo para depois não terem maiores prejuízos. Espero que esta pandemia nos faça ser melhores seres humanos, que possamos respeitar mais o próximo e que tenhamos mais empatia para com o próximo.»

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