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The Black Dahlia Murder “Verminous”

Um álbum cheio de boas canções e muita pica, excelente, simples, envolvido por uma forte componente melódica, pela fantasia clássica de curtos solos, riffs precisos para o headbanging e uma dinâmica sustentada por mudanças de ritmo fluídas e alucinantes.

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Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 17.04.2020
Género: melodic death metal
Nota: 5/5

Um álbum cheio de boas canções e muita pica, excelente, simples, envolvido por uma forte componente melódica, pela fantasia clássica de curtos solos, riffs precisos para o headbanging e uma dinâmica sustentada por mudanças de ritmo fluídas e alucinantes.

Uma banda a fazer história. “Verminous” é um clássico instantâneo que vem assinalar os vinte anos dos The Black Dahlia Murder (TBDM) a cumprir no próximo ano. Quantas bandas aguentam a pedalada a mandar cá para fora álbuns de dois em dois anos, outras tantas digressões, sobreviver a umas quantas mudanças de formação e resistir estoicamente ao fim das últimas duas décadas com a pujança que aqui se vê? É de valor, num meio tão concorrido como vulnerável às modinhas, e agreste como este. É hora de honrar com um grande aplauso o chinfrim dos The Black Dahlia Murder com estardalhaço. Merecem-no. “Verminous”, a nova temporada da vida de Brian Eschbach & Trevor Strnad, já está em cena. É um álbum conceptual pela dedicatória ao sub-mundo do heavy metal e aos vermes que nele habitam, enquadrado pelo imaginário macabro do death metal numa variante melódica. É dedicado à tribo insubmissa da revolta, é para todos os que militam online, que vão aos concertos e festivais, que compram discos e merchandising , e continuam a cultivar o heavy metal que, apesar dos 50 anos de existência, continua a ser olhado como uma arte menor pelos poderes culturais instituídos no meio artístico musical. Ironicamente também se dirige a todos os que ainda olham escandalizados ou com desdém para a indumentária e acessórios da malta que reflecte um tipo de atitude e valores que não os representa. Os vermes não são todos iguais. “Verminous” é uma homenagem a todo o morto-vivo em combate, por parte destes operários-torneiros da indústria metalúrgica TBDM desde 2001. Vai haver sangue e alguns mortos à queima-roupa. Azar… Encontramo-nos na estrada para um combate até à morte lá mais à frente, depois da febre paralisante do 19. Ou isso ou ficamos todos em casa, de sofá, a ver o “Terrifier” com o Trevor numa Netflix-party. Sangue, Cerveja, Bongada e Pipocas! Morte aos vizinhos que agora não têm como escapar. Death Metal or Die!
Contextualizando, é importante referir a paixão da banda pelo universo dos filmes de terror. Trevor faz questão de referir os TBDM como uma banda cinemática e intencionalmente dramática.

“Verminous” impõe uma revisão atenta sobre a matéria dada, já que nesta efeméride dos TBDM há outro nobre pormenor a registar. Estamos a falar de uma certa verticalidade e lealdade que vão rareando cada vez mais. Por que carga de água é que estes, chamemos-lhes vermes, continuam fiéis à casa-mãe? Hum? Afinal, são vinte-anos-e-nove-álbuns na arca da Metal Blade sempre num low-profile. ‘Bora lá então saudar outro Brian, Mr. Slagel, o discreto e venerável editor que anda a romper com o establishment da indústria siderúrgica mundial desde 82, e que apadrinhou à nascença alguns dos nomes mais venerados na história do rock contemporâneo, como Metallica, Slayer ou Cannibal Corpse. É um gajo que deu casa a todos esses rebeldes sem abrigo na indústria, sobre o qual fica muito por dizer. Não é a toa que ele é o escolhido de King Diamond. E se o homem leva os TBDM ao colo há tantos anos, quem somos nós para o questionar?

“Verminous“ acaba por surgir ironicamente neste terrível contexto em que o mundo se encontra, onde a realidade ultrapassa a ficção. O álbum abre com o tema homónimo que se inicia com um gotejar e água a escorrer no subsolo inóspito e apagado das condutas subterrâneas, cavernas urbanas para vermes e ratos. São os impedidos, os párias, os nada que se alimentam dos restos dos outros debaixo do chão sujo da sociedade urbana. É o submundo selvagem e doentio dos excluídos. Estas são as tribos que “Verminous“ quer homenagear, os que vagueiam, quando a noite cai, num mundo à parte. Há um clima mórbido de suspense, até que as baquetas dão o mote para a speedaria da hora da matança, prego a fundo nos bombos, o vozeirão mastigado a cuspir-se todo num espumar de raiva e de revolta, e espaço para um solo do mais clássico heavy metal servido a abrir e de rajada. O segundo tema, “Godlessly“, arranca impiedosamente fruto do trabalho enraizado na escola death metal, numa porrada recheada de variações rítmicas marcadas pela mudança de humores de uma bateria desvairada na ausência da divindade. A voz de Trevor investe por territórios do black metal, enquanto os dois guitarristas demonstram que ao fim de quatro anos de trabalho em conjunto são unha e carne, apesar do exagerado destaque que é dado aos solos de Brandon Ellis. Os dois exploram com o máximo de eficácia todo o potencial decibélico da cordoaria de aço electrificada, sem estéreis demonstrações de virtuosismo. O que apelidam de registo neoclássico não é mais do que a habitual vénia aos cânones do heavy metal tradicional, mas Brandon Ellis dispensava esta opção na mistura com uma equalização que o eleva em demasia sobre os restantes instrumentos. É uma mania que se repete ao longo do álbum em diversos temas – não é inocente, mas era dispensável. De resto, tudo certo daqui até ao fim – são 35 minutos duma indomável brutalidade, numa meia hora sobre-aquecida para ouvir no estalo e sacudir o tronco colado à cabeça pelo pescoço num headbanging quebra-ossos. Há um sinistro interlúdio mesmo à saída, “A Womb In Dark Chrysalis“, o que dá direito a um minuto de descanso antes do fecho desta última emissão dos TBDM. O álbum encerra com “Dawn Of The Rats”, um tema carregado de epicidade para uma despedida em velocidade estroboscópica, acabando em grande este tributo à melhor escória que conspira no circuito underground da música extrema. É quando a bicharada recolhe a casa no final da madrugada que antecede o dia. Voltamos ao início de “Verminous”, de regresso às catacumbas nauseabundas e ao som dos canos de esgoto debaixo do chão, sob as sarjetas dos restos dos outros que aí depositam todo o tipo de dejectos – o lixo, a merda e o mijo.

O melhor do álbum está no miolo com a sequência iniciada no melhor tema, que é “Removal of The Oaken Stake”, a que se seguem “Child Of The Night” e “Sunless Empire”. Se bem que “The Leather Apron’s Scorn” e “The Wereworm’s Feast” não lhes ficam nada atrás. Em suma: temos um álbum cheio de boas canções e muita pica, excelente, simples, envolvido por uma forte componente melódica, pela fantasia clássica de curtos solos, riffs precisos para o headbanging e uma dinâmica sustentada por mudanças de ritmo fluídas e alucinantes. As vocalizações ásperas e demenciais complementam o resultado final com a dose de agressividade e brutalidade desejada. Um miminho!

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