No rescaldo de um horrendo 2020, conversámos com os Sullen sobre o mais recente álbum “Nodus Tollens – Act 1: Oblivion”,... Sullen: «Contamos uma história de perda e o longo caminho para a cura»
Foto: André Moreira

No rescaldo de um horrendo 2020, conversámos com os Sullen sobre o mais recente álbum “Nodus Tollens – Act 1: Oblivion”, a ser lançado para as lojas e diversas plataformas no dia 5 de Março de 2021. Este mais recente trabalho é um álbum cheio de texturas e complexo, explorando as diversas vidas do metal progressivo, desde o mais obscuro ao mais intenso.

«Contar uma história é sempre fascinante e é algo que adoramos explorar.»

David Pais

Com este novo ano, vem à mente uma pergunta inevitável: como sentiram o efeito da pandemia no desenvolvimento deste álbum e na vossa carreira, sobretudo em termos de concertos?
David Pais: Bem… Esta pandemia veio em muito má hora e afectou praticamente todo o universo da arte performativa. No nosso caso em concreto, impediu-nos de trazer o nosso trabalho ao vivo e, por outro lado, dificultou os nossos ensaios pelas restrições de deslocação que foram impostas ao longo do tempo. No que toca ao desenvolvimento do álbum em si, o processo não foi muito afectado, visto todos trabalharmos nos nossos próprios estúdios, o que nos possibilitou a articulação de todo o trabalho de uma forma célere e bastante serena.

Podem aprofundar o conceito deste vosso segundo álbum, sobretudo devido à inspiração no neologismo de John Koenig em 2014?
David Pais: Este “Nodus Tollens – Act 1: Oblivion” tem uma enorme inspiração no conceito de John Koenig. Quando o Marcelo e eu começámos a discutir os possíveis temas que gostaríamos de retratar com a música que já estava pronta, surgiu-me a ideia de podermos criar um elo de ligação entre eles numa espécie de narrativa que pudesse personificar esse mesmo neologismo, em que um indivíduo chegou a um ponto em que perdeu a total noção e controlo da sua vida, perdendo-se de qualquer plano ou estrutura que criou até esse momento. Decidimos então usar esse conceito e aplicá-lo de uma forma que permita que qualquer ouvinte se identifique, dando perguntas e respostas a várias questões que julgamos serem pertinentes dentro do espectro existencial e, neste caso, da história que queremos transmitir.

Este novo longa-duração é um óbvio disco conceptual. Claro que tais definições são sempre relativas, bastando haver interpretações diferentes face à abordagem utilizada. Esta componente humana no conceito do álbum é algo que vos apaixona, sobretudo pelo momento que vivemos?
David Pais: Sem dúvida. Creio que é um aspecto que todos temos em comum dentro da banda. Pessoalmente, amo histórias. Tanto ouvi-las e imaginá-las como contá-las. Neste caso, foi uma triste coincidência termos este conceito de um ser que perdeu o seu rumo, visto que de repente muitos dos que conhecemos – e talvez até nós, mesmo que por momentos – se tenham perdido neste período tão incerto que gera um isolamento por vezes perigoso para a saúde mental. Felizmente, quando a pandemia se abateu à escala global já tínhamos todo o conceito do álbum delineado, mas mesmo assim foi um paralelismo infeliz. Não obstante, contar uma história – seja ela com um teor mais activo ao seguirmos uma narrativa específica em que envolvemos personagens e cenários de vários calibres diferentes ou uma um pouco mais intrigante e filosófica – é sempre fascinante e é algo que adoramos explorar, não só porque nos permite viajar um pouco mais no que toca ao que queremos dizer e como o dizemos, mas também porque nos ajuda a expressar várias ideias e linhas de pensamento que temos em relação a vários assuntos. Neste caso em particular, contamos uma história dividida em dois actos, em que há a perda e o reconhecimento dessa perda, e o longo caminho para a resolução e cura.

«Neste momento temos uma equipa muito comprometida, com objetivos bem definidos e em que a nossa sonoridade, tal como tudo na vida, evoluiu com o tempo.»

André Ribeiro

Tiveram um percurso realmente interessante e ao mesmo tempo curioso. Após o fim de actividades em Oblique Rain, a fundação destes Sullen e o lançamento em 2015 de “Post Human”, quase uma década passou. Apesar de manterem a vertente dramática e sombria do álbum de estreia, este 2021 poderá ser o início de uns novos Sullen, mais evolutivos e sónicos, com um metal progressivo muito robusto, marca óbvia deste “Nodus Tollens”?
André Ribeiro: De facto, o tempo passa a voar e às vezes a era Oblique Rain parece ter sido há uns quatro anos. Mas a realidade é que todo o processo de dissolução de OR e consequente formação de Sullen ainda foi algo moroso e muito mastigado em que se criou um certo cansaço e desgaste. Para mim, sempre foi uma continuidade natural, mesmo com esta nova formação de Sullen. Acho que neste momento temos uma equipa muito comprometida, com objetivos bem definidos e em que a nossa sonoridade, tal como tudo na vida, evoluiu com o tempo. No entanto, as nossas raízes estão sempre presentes no processo de composição e no ambiente sonoro da banda.

Por que motivo tiveram este hiato de actividades entre 2015 e 2021 no que toca a produção de álbuns?
André Ribeiro: Tal como referi anteriormente, todo o processo que antecedeu “Post Human” foi algo que passou factura mais tarde, penso eu. Também alguns dos membros começaram a envolver-se com outras bandas, projectos e a ganhar outras responsabilidades fora da música. Tudo isso levou mais uma vez a um hiato que se foi instalando. Quase que do nada, o Marcelo finalmente percebeu que esta era a banda que realmente o realizava e propôs fazer uma remodelação profunda para tentar levar a banda a outro patamar. Todos os antigos membros aceitaram a remodelação e perceberam a ambição e entrega que seria necessária… E cá estamos!

Face à pandemia e à possível ausência de concertos, que planos têm para fazerem frente às perdas que poderão estar a enfrentar? Após o lançamento do disco a 5 de Março, como o vão conseguir promover?
Ricardo Pinto: Estamos a produzir materiais videográficos para divulgação da música do novo álbum e da formação live da banda. Estamos também a estudar e a preparar meios de filmar e transmitir concertos online. Não obstante, encaramos sempre as circunstâncias actuais como temporárias – como uma suspensão global de espectáculos ao vivo que terá de ser terminada logo que as condições de saúde pública o permitam, para que possamos retomar aquilo que é a verdadeira essência do nosso exercício artístico.