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Steve Von Till “No Wilderness Deep Enough”

O exercício de cada nova audição obriga a diferentes reflexões e descobertas, num disco ao serviço da poesia que se vai folheando.

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Editora: Neurot Recordings
Data de lançamento: 07.08.2020
Género: ambient / folk
Nota: 4/5

O exercício de cada nova audição obriga a diferentes reflexões e descobertas, num disco ao serviço da poesia que se vai folheando.

Apesar da primeira impressão que nos fica de “No Wilderness Deep Enough” estar condicionada pelo contexto poético apresentado, esta será sujeita a constantes mutações. O exercício de cada nova audição obriga a diferentes reflexões e descobertas, num disco ao serviço da poesia que se vai folheando. O álbum é composto por seis poemas silenciosos que versam a temática do desapego, o sentimento de perda, os amores, a insegurança e a incerteza da condição humana, por entre as páginas de um livro amarelecido pela passagem do tempo infinito. As entrelinhas servem para decifrar os sons que ornamentam os textos com leitura num modo muito próximo do spoken-word. É aí que nos vamos fixar nas futuras e repetidas passagens pelo álbum, à descoberta de novos detalhes. Steve Von Till compôs este álbum ao piano, e pôs de lado as guitarras. Uma novidade nos discos a solo do músico. Não fora a brilhante intervenção, a todos os níveis, do produtor Randall Dunn e este teria sido um álbum de instrumentais.

Neste novo registo, Steve Von Till declama sobre os efeitos de uma electrónica paisagística instrumentalmente instalada nos territórios da ambient music a partir de Brian Eno, o principal escultor da música pop contemporânea, na qual, o metal, também hoje se insere. Há uns anos, apesar desta influência já se notar nos discos de Scorn ou nas primeiras edições em vinil da casa-mãe da vaga doom metal dos anos 1990, a Peaceville Records, seria quase impossível acreditar que um universo aparentemente tão longínquo, como o da ambient electronica (inicialmente subestimada e rotulada de forma depreciativa por tendências new age ou neo-hippie), se viesse a fundir, em 2020, com as franjas actuais da música pesada. Um fenómeno que se reconhece, quer pelos projectos recém-formados da nova geração, quer pelas derivações artísticas na carreira de alguns dos protagonistas dos capítulos recentes da história da música extrema, como é o caso de Neurosis.

Assumir hoje em dia que quem se queira aventurar como crooner tenha que ser obrigatoriamente carimbado como um Nick Cave wannabe, não está certo. Lá porque um dos australianos Birthday Party soube elevar a arte da gritaria ao patamar de poesia gourmet comestível por audiências mainstream, é injusto meter os poetas todos no mesmo saco. É só vagamente conveniente à voracidade mercantilista. Sementes daninhas na história do rock e dos blues sempre houve, e nem todas germinaram obrigatoriamente na raiz convergente de uma única figura. Isso seria anular o passado inscrito na história da música popular contemporânea pelas músicas folk, gospel, ambient, neo-classical ou gothic Americana, os estilos musicais predominantes no álbum.

Apesar do registo vocal de Steve Von Till nos fazer deambular por entre evocações a Dave Gahan, Bono, Tom Waits, Brendan Perry ou David Eugene Edwards, a selecção poética de “No Wilderness Deep Enough” define-se por uma tonalidade exclusiva e identidade própria, como demonstram os seis temas inscritos nesta ode sextavada: “Dreams of Trees”, ”The Old Straight Track”, “Indifferent Eyes”, “Trail The Silent Hours”, “Shadows on the Run” e “Wild Iron”. Tão certo como as diferentes atmosferas criadas com a ajuda do mellotron sobre tapeçarias de ambient electronica, acompanhada a trompa e violoncelo, acusarem os cenários sublinhados na mais recente discografia dos Einstürzende Neubauten.

O lançamento das seis peças musicais que justificam “No Wilderness Deep Enough” faz-se acompanhar paralelamente pela edição de um livro de poemas da autoria de Steve Von Till: “Harvestman: 23 Untitled Poems and Collected Lyrics”. Um complemento que credibiliza a veia poética para a qual o autor vem canalizando alguma da sua energia criativa. Este é um álbum de uma triste beleza que, apesar de não reservar nenhuma enorme surpresa, demonstra um autor capaz de nos envolver e conduzir através de atmosferas intensas ligadas por um fio de poesia.

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