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Não é o Spotify que paga mal, os artistas é que são preguiçosos…

Os cifrões podem fazer de ti alguém bem-sucedido, ser cabeça-de-cartaz numa Web Summit e, claro, ser rico. Mas isso não é sinónimo de conhecimento aprofundado e total.

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Daniel Ek, CEO do Spotify

«Não podes gravar música uma vez a cada três ou quatro anos e achar que será suficiente.»

Daniel Ek, CEO do Spotify

Os cifrões podem fazer de ti alguém bem-sucedido, ser cabeça-de-cartaz numa Web Summit e, claro, ser rico. Mas isso não é sinónimo de conhecimento aprofundado e total.

Daniel Ek, CEO do Spotify, pode ser muito bom a gerir a sua fortuna (segundo a Forbes ronda os 4 mil milhões de dólares) e pode ser bom a fazer com que música chegue a milhões de pessoas, mas as suas recentes declarações mostram uma falta de tacto incrível, um desapego da realidade. À MusicAlly disse: «Há uma falácia narrativa aqui, combinada com o facto de que, obviamente, alguns artistas que costumavam sair-se bem no passado podem não sair-se bem neste cenário futuro, onde não podes gravar música uma vez a cada três ou quatro anos e achar que será suficiente.»

Estamos a falar de alguém que domina o streaming mundial por mais concorrência que haja. Estamos a falar de alguém que paga, de royalties, uns meros 0,00348 dólares por streaming.

Admitamos que os Metallica já fizeram até hoje perto de 2 milhões de euros só com a “Enter Sandman” – isto continua a não ser a realidade da maioria. O mundo (do metal) não é só Metallica, que, de acordo com uma publicação da Blabbermouth, no Verão de 2019 fizeram 70 milhões de dólares brutos em 13 concertos. De 70 milhões num Verão para 2 milhões por uma música ao longo de vários anos ainda vai uma diferença. E desse valor de royalties, quanto será que o artista realmente recebe se ainda houver uma editora ou distribuidora pelo meio? Agora, nas vossas cabeças, transformem esses valores monetários astronómicos naquilo que poderás conhecer da realidade de uma banda do underground. Se fizeres parte de uma banda, que até pode não ter música nas plataformas digitais, melhor ainda.

Os artistas são preguiçosos, claro.

Os Moonspell, que lançaram “1755” em 2017 e preparam-se para lançar um novo álbum em 2021, são preguiçosos – não fizeram uma digressão de 50 datas no final de 2019, nem nada… Os Gaerea, jovens ainda, têm em “Absent” a música com mais streaming (cerca de 70.000) – demoraram dois anos a lançar um novo LP porque devem ser preguiçosos, e as digressões pela Europa e China nunca aconteceram, não é? Os Moonshade, então, nem se fala… Quatro anos entre um EP e um LP só pode ser preguiça! A Espanha aqui mesmo ao lado e não conseguem ir lá todos os fins-de-semana porque a vida pessoal não o permite? Devem ser mesmo maus no que fazem para ainda não conseguirem viver da música…

Daniel Ek, e a sua empresa, acha por bem que o intermediário, que obtém dinheiro através de subscrições e outros negócios publicitários, ganhe mais do que o criador.

Daniel Ek não percebe a realidade ou não a quer perceber, desconhecendo-a. Não sabe, ou esquece-se, que muitas bandas (muitas mesmo), por mais que tenham o seu disco lançado por uma editora, têm de desembolsar algumas centenas de euros para ficarem com 100-200 cópias da sua própria criação artística – podem chamar a isso mau negócio, mas acontece mais do que se pensa. Depois há que investir em merch, procurar concertos e rezar para que vendam, pelo menos, uma mão-cheia de CDs numa das cidades. Estar na estrada, quando se é uma banda pequena ou média, é uma montanha-russa de emoções, especialmente para o bolso.

Estes são os artistas que Daniel Ek acha que não vão sobreviver. Porque aparenta acreditar mesmo que deviam esquecer o CD e o vinil, e, mais ainda, os concertos e as digressões para estarem fechados em casa ou no estúdio a vomitar música nova todas as semanas. A vomitar para o Spotify, entenda-se. Para Ek, não é o Spotify que paga pouco, as bandas é que não produzem conteúdo suficiente e de qualidade para terem milhões de streamings por mês. O CEO quer uns Spliknot em cada esquina para meter mais um dinheirinho à algibeira e, assim, fazer crescer os seus 4 mil milhões de dólares. As bandas que fiquem com 35 euros se conseguirem que uma música seja ouvida pelo menos 10.000 vezes.

Ek, e a sua empresa, acha por bem que o intermediário, que obtém dinheiro através de subscrições (perto de 140 mil até ao primeiro semestre de 2020) e outros negócios publicitários, ganhe mais do que o criador. Para o sueco, uma banda estar em contacto com os fãs não passa por ir para a estrada, onde realmente se ganha dinheiro (quando se ganha), mas carregar músicas na sua plataforma. Isso ou perecerão.

Claro que há quem não compreenda como se pode ouvir música sem o ritual de se ir à estante, tirar o vinil, pô-lo a rodar e apreciar o artwork pela enésima vez – e mesmo esses fanáticos (no bom sentido) da música precisam do mp3 para uma viagem de comboio ou para os 10 minutos que demoram a chegar ao trabalho de carro –, mas também há quem não compreenda como ainda se continua a comprar discos quando há plataformas de streaming, mais baratas e mais portáteis. Contudo, Daniel Ek, com estas declarações, só está a confirmar e a fazer parte daquilo por que tememos diariamente: a desumanização total de um ofício.

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