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Sólstafir “Endless Twilight of Codependent Love”

Mais uma vez, os Sólstafir conseguiram magicar um disco que tem tanto de belo como de negro, uma corda bamba a 100 metros do chão que não nos faculta qualquer estabilidade, mas que ao mesmo tempo nos ampara no caminho tortuoso que temos pela frente.

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Editora: Season of Mist
Data de lançamento: 06.11.2020
Género: atmospheric rock / metal
Nota: 4/5

Mais uma vez, os Sólstafir conseguiram magicar um disco que tem tanto de belo como de negro, uma corda bamba a 100 metros do chão que não nos faculta qualquer estabilidade, mas que ao mesmo tempo nos ampara no caminho tortuoso que temos pela frente.

Oriundos da Islândia, os Sólstafir têm vindo a ocupar um lugar muito extremoso no coração de cada vez mais fãs à custa de êxitos como “Fjara” e “Lágnætti”. Mas mesmo às costas de milhões de visualizações no YouTube e com um cult-following devoto, Sólstafir ainda é um diamante por descobrir em países como Portugal.

Ao longo de 25 anos, os islandeses já foram do black metal apunkalhado dos primeiros álbuns ao rock ultra atmosférico de “Svartir Sandar” (2011) e ao post-punk / post-rock de “Berdreyminn” (2017). Agora, com “Endless Twilight of Codependent Love”, a modos que reuniram todas essas ideias num só álbum.

A primeira “Akkeri” até é maioritariamente composta pela sonoridade que os insulares nos habituaram na última década, mas pelo meio surgem riffs que nos levam a territórios black metal, formando-se assim as primeiras anotações sobre a tal mistura entre velho e novo que produzem neste disco. “Dionysus”, mais à frente na quinta posição, eleva ainda mais esse ambiente quando se volta a basear a música no black metal, mas também na atmosfera rude e cativante de discos como o referido “Svartir Sandar”. Pelo meio há o fatalismo melancólico e hipnótico de “Drýsill”, a língua inglesa na pesarosa “Her Fall from Grace” (algo que há muitos anos não acontecia), o rock alternativo de “Alda Syndanna” e o blues de “Or”.

Pontos gerais consumados, os Sólstafir são ágeis e mestres em criar antecipação, havendo toda uma longa ambiência sempre atmosférica e melódica que nos encaminha vagarosamente e, por vezes, aflitivamente até a um clímax em que se engloba toda a rebentação sónica e emocional de Aðalbjörn “Addi” Tryggvason & Cia.. Entre temáticas sobre depressão, suicídio, desajuste e violência doméstica, as melodias cativantes e envolventes, mas cruas, ainda que bem executadas e captadas, escondem uma inclinação iminente perante o abismo que se ouve na voz de Addi. Inspirado por nomes como Cedric Bixler-Zavala, de At the Drive-in, Addi não canta totalmente limpo mas também não berra profusamente, andando ali num meio-termo que evoca sensações angustiantes, sempre a um passo da queda fatal de quem já não aguenta mais. Por seu turno, o mesmo pode, enfim, aplicar-se às guitarras e à produção geral, havendo um híbrido bastante audível entre notas limpas e graves que ocupam todo o espaço com ecos e efeitos envolventes.

Sólstafir é um veículo de sentimentos e emoções – quem já viu concertos dos islandeses sabe disso e não fica indiferente. Mais uma vez, os nórdicos conseguiram magicar um disco que tem tanto de belo como de negro, uma corda bamba a 100 metros do chão que não nos faculta qualquer estabilidade, mas que ao mesmo tempo nos ampara no caminho tortuoso que temos pela frente. Se chegamos ao outro lado, isso não sabemos – o amanhã é rico em incerteza –, mas se é para não sabermos nada, então que sigamos com elegância e honestidade – “Endless Twilight of Codependent Love” é tudo isso e o que conseguires tirar dele.

(Lê a entrevista AQUI)

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