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San Leo “Mantracore”

“Mantracore” é o desenho de uma atmosfera inquietantemente turva e sensivelmente visionária.

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Editora: Bronson Recordings
Data de lançamento: 13.11.2020
Género: psychedelic rock
Nota: 4/5

“Mantracore” é o desenho de uma atmosfera inquietantemente turva e sensivelmente visionária.

Existem discos construídos com o único propósito de nos deixar estupefactos de uma forma brutalmente avassaladora, tornando-se experiências inesperadas em que o impacto originalmente pretendido é impiedosamente sentido. Bons discos correspondem quase sempre a uma mistura entre a intenção de uma obra de arte e entretenimento, embora o contexto dite as diferentes dosagens de cada qualidade. San Leo parece ter-se inclinado sobretudo para a primeira, para a composição de peças de música para que estas fossem consumidas e absorvidas profundamente, embora a sensação final seja o total inverso. Para além de ter um título que serve de auto-descrição perfeita, “Mantracore” é o resultado ambicioso de uma exploração intensiva do som através de um emaranhado de kraut-rock, folk psicadélico, post-rock, obscure metal, electrónica e ambient. O duo italiano, composto pela bateria de Marco Migani e a guitarra de Marco Tabellini, adoptou na sua fundação em 2013 o nome de uma das mais antigas fortalezas medievais da Itália, para que o nome se adequasse à narrativa nebulosa e hipnagógica do seu som. Este quarto disco de San Leo parece ser o auge musical de uma identidade já solidamente entendida pela banda desde o seu início.

Num total de cerca de 43 minutos de disco, “Mantracore” foi dividido ao meio em duas faixas, cada uma com mais de 20 minutos de duração, que se movem numa constante de desenvolvimento, cada uma a oferecer a sua própria impressão de uma espécie de surrealismo sombrio. A estrutura do álbum em si, bem como a progressão sensível de cada faixa, puxam-nos para um momento intimista e imperturbável com este disco. Vive dos temas do misterioso e do oculto, como o sugere a própria capa, com uma imagem a preto e branco de natureza simbólica – mas mesmo sem qualquer orientação visual, o álbum em si deixa o seu tema imediatamente claro.

Com uma presença agitada, dominante e robusta, a bateria serve de espinha dorsal ao disco, com as guitarras a preencherem o espaço que sobra com um pairar de rispidez e melancolia. “Mantracore” abre com “MM”, em que um piano fantasmagórico com uma atitude brusca faz suspender as nossas expectativas. Obrigam-nos a esperar e a prestar atenção. Vão sendo adicionados detalhes sonoros, acrescentados para aumentar o sentimento de inquietude. No decorrer do álbum, estes detalhes chegam às faixa para serem ouvidos, para se destacarem durante o tempo em que surgem, favorecendo uma exploração pouco natural dos instrumentos e permitindo que cada nota se distenda e que renda por si. “MM”, e por extensão “Mantracore”, corresponde com uma espécie de soundtrack distópica, a emergir com fluidez e insistência, com uma ânsia crescente pela agressividade que neste caso só desperta num acumular de tensão e severidade causado pelo tremor staccato dos pratos e os dedilhados da guitarra. Carregados de beleza e desconsolo, os riffs orbitam a música para cruzar a fronteira do progressivo para o psicadelismo mórbido. Só depois, e no momento certo, somos sacudidos por uma carga paralisante de truculência industrializada.

Numa espécie de segundo lado da mesma moeda, “Core” parte do primeiro segundo com uma distorção incisiva e carregada que impulsiona a ideia de um momento de confronto. Carrega a mesma complexa imprevisibilidade de “MM”, embora com uma orientação mais directa para o peso. A música vive da densidade de uma distorção quase trovejante, com uma bateria de impacto seco que desafia qualquer batimento cardíaco. Nesta faixa especificamente, a dissonância torna-se numa qualidade predominante e de impacto significativo. Assim como “MM”, “Core” leva o seu tempo para respirar, desenvolvendo-se no que aparenta ser um fluxo livre de ideias, mas com uma absoluta coesão e organização muito bem calculada que permite que a emoção de cada passagem e de cada novo momento da música seja claramente transmitida.

“Mantracore” é o desenho de uma atmosfera inquietantemente turva e sensivelmente visionária. Há o formar de um território misterioso e desconhecido, o desenrolar de uma corrente orgânica e vertiginosa pela qual nos deixamos puxar. Vemo-nos incapazes de fazer o contrário.

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