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Como os 90s quase viram o fim do metal extremo

Death e thrash metal invadiram os anos 1990 com uma saúde rude e sangrenta. Então, por que é que, naquela década, essas duas cenas quase saíram dos carris?

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Death e thrash metal invadiram os anos 1990 com uma saúde rude e sangrenta. Então, por que é que, naquela década, essas duas cenas quase saíram dos carris?

Bolt Thrower

«Eu estava no Hard Rock Café em Tampa, Flórida», recorda o fundador da Metal Blade Records, Brian Slagel, «e estava lá, na parede, uma guitarra de aparência realmente estranha, com uma pintura muito estranha, cores muito loucas e dizia que o Kerry King a tinha tocado. Pensei: ‘De maneira alguma o Kerry tocou com isto!’ Tirei uma foto e mandei-lha. A resposta dele resumiu tudo. Ele apenas disse: ‘Os anos 90 foram estranhos…’».

Seja qual for a tua opinião, os anos 1990 foram uma época turbulenta para a música pesada. Graças ao domínio global do metal mainstream durante os anos 1980 e o nascimento e florescimento do thrash e do metal underground, as coisas dificilmente poderiam ter parecido mais saudáveis com o amanhecer dos anos 1990.

A década começou com o lançamento de “Rust in Peace” dos Megadeth, “Seasons in the Abyss” dos Slayer e “Extreme Aggression” dos Kreator – tudo prováveis marcas d’água do thrash. Enquanto isso, uma torrente implacável de álbuns clássicos manteve a cena do death metal vibrante e desafiadoramente extrema.

Com o passar dos anos, no entanto, esse fluxo diminuiu para um gotejar enquanto o thrash e o death metal sucumbiam à lei dos rendimentos decrescentes. Para a cena thrash em particular, a chegada do grunge, combinada com a actualização radio-friendly dos Metallica com “Black Album” de 1991, resultou num desnorteamento em bandas anteriormente confiáveis.

«O grunge começou a ficar grande e muitas bandas ficaram preocupadas», recorda Brian Slagel. «Pensavam: ‘O que vamos fazer? Para onde podemos ir?’ Muitas pessoas pensaram que o metal estava morto e acabado naquele momento. Eventualmente, como todos sabemos, houve um grande renascimento, mas aquele período foi definitivamente uma recessão para todos os tipos de metal e realmente não havia muita coisa a acontecer.»

Quer tenha sido o namorico de Kreator com o rock alternativo tingido de industrial em “Renewal” de 1992 ou o baralhamento equivocado dos Exodus no território do groove metal em “Force of Habit” do mesmo ano, o thrash passou por uma crise de identidade pública conforme os anos 90 avançavam. O death metal também estava a ir para pelo cano: a ascensão do grunge, os primeiros rumores do nu-metal e a notoriedade do black metal na imprensa conspiraram para fazer com que a abordagem despretensiosa do género sobre a hostilidade musical parecesse e soasse a notícias de ontem.

«No final dos anos 80 e início dos 90, o underground parecia importante», diz Karl Willetts, vocalista de Memoriam e ex-membro de Bolt Thrower. «Os Bolt Thrower foram realmente pró-activos, a fazerem-se muitas digressões e a gravarem-se discos. Foi um verdadeiro pico de criatividade e toda a gente à nossa volta parecia estar no mesmo plano. Depois chegámos a meados dos anos 1990 e o death metal pareceu bater numa parede. A geração seguinte ouvia grunge em vez de metal extremo. Eu mesmo distraía-me com bandas como Soundgarden, e isso levou-me a um caminho diferente, longe da música extrema. Em parte, foi por isso que deixei Bolt Thrower em 1994. Mas a par disso, houve crossovers no rap, a banda-sonora de “Judgment Night” e assim por diante, e depois o black metal aconteceu. Todas essas coisas diluíram o que a cena tratava e distraíram as pessoas para outros caminhos e diferentes maneiras de se fazerem as coisas. De repente, a cena já não nos pertencia.»

O impacto do black metal no underground dos anos 1990 foi inegavelmente enorme. Enquanto os grupos de death metal apareciam com t-shirts de bandas e calções largos, geralmente sem uma agenda filosófica específica para propagar, a cena black metal (principalmente norueguesa) oferecia uma alternativa visual e conceptualmente surpreendente que dominava, e simplesmente parecia mais excitante para miúdos com um gosto pelo extremo.

«A cena black metal teve um impacto enorme em mim», suspira Karl. «Detestei. Era tudo uma questão de imagem, tentar parecer mau, incendiar igrejas, ideologia de direita… O completo oposto de onde eu vinha. Mas era outra geração de pessoas a surgir e a forjar a sua própria identidade, algo que era delas e não minha. É por isso que não gostei. Agora compreendo. Essa é a simples razão pela qual houve uma queda em meados dos anos 1990 – as coisas mudam.»

Não foram apenas os gostos musicais e os motivos subculturais que arrancaram o tapete dos pés do metal extremo nos anos 1990. Karl sugere que a falta de fúria política também contribuiu para a deterioração do thrash e do death metal, pois a falta de uma filosofia comum minou a unidade do antigo.

«O aspecto sócio-político é muito importante», diz Karl. «Foi muito forte no final dos anos 1980, no fim da era Thatcher e da ameaça nuclear, e é daí que vimos, a influência do punk político. Mas anos de conservadorismo e capitalismo global filtraram tudo isso e, de alguma forma, despolitizaram as pessoas. Perdemos esse ângulo na música. Quando as pessoas entram na música e há uma dimensão política, há muita paixão envolvida, e isso faltou no decorrer dos anos 1990.»

O estado de fluxo do underground continuou até ao final da década, altura em que houve uma mudança muito perceptível e bem-vinda, particularmente para o death metal.

Álbuns como “Obscura” de Gorguts, “Amongst the Catacombs of Nephren-Ka” de Nile (ambos de 1998) e “…And then You’ll Beg” (2000) de Cryptosy deram uma nova vida a uma cena doente, enquanto a influência do death metal em discos revolucionários como “Calculating Infinity” de The Dillinger Escape Plan e a estreia homónima dos Slipknot (ambos em 1999) foi mais do que aparente para qualquer pessoa que passou o início dos anos 1990 a ouvir Deicide e Suffocation.

Até os Napalm Death, que passaram parte dos anos 1990 num estado de confusão entre rock alternativo e polinização cruzada, fizeram um regresso decidido ao grindcore ultra-intenso com “Enemy of the Music Business”, de 2000, e mal pararam para respirar desde então.

Entretanto, o thrash tornou-se mais feroz e rejuvenescedor com o álbum de estreia homónimo de The Haunted em 1998, e tem-se mexido muito bem desde então, principalmente devido ao revivalismo thrash da velha-guarda de meados dos anos 2000 que nos deu Municipal Waste.

É provavelmente devido à natureza obstinada e nada carreirista da maioria dos músicos de metal extremo que tanto o thrash como o death metal sobreviveram aos anos 1990.

Para Brian Slagel, passar pela década mais estranha do metal foi uma questão directa de se manter a fé e sem distrações com tendências transitórias. «Acho que sou apenas teimoso!», ri. «Por exemplo, tenho muito orgulho em dizer que nunca assinámos nenhuma banda de nu-metal. [risos] Também tivemos alguns dos nossos maiores sucessos nos anos 1990, com Six Feet Under por exemplo, mas foi definitivamente um período difícil para todos, e senti, quando chegou 1998 e 1999, que as coisas estavam a começar a acontecer novamente. Estavam a surgir novas bandas e uma cena estava a começar a acontecer, e senti-me muito empolgado para entrar na nova década. Sobreviver aos anos 1990 foi bom, mas houve um aumento de coisas a acontecer logo depois disso.»

«De certa maneira, fechou-se o círculo», conclui Karl. «Houve um grande renascimento do death metal e de todos os tipos de música underground, e isso não parou desde o início dos anos 2000, que foi quando voltei para Bolt Thrower… Portanto, depende tudo de mim. [risos] A verdade é que o underground é uma coisa global tão ampla que agora há espaço para tudo. É isso que lhe dá a sua longevidade. Não consigo imaginar um tempo no futuro em que não haja metal extremo. Pelo menos, não durante a minha vida!»

Consultar artigo original em inglês.

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