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Perdidos no Arquivo: Black Country Communion

Perdidos no Arquivo: Black Country Communion

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Uma junção de ideais (2009-2012)
Reunir um conjunto de estrelas nem sempre é fácil, sobretudo quando se reúnem quatro músicos de gerações tão distintas e com experiências tão diferentes. Muitas vezes, criar um supergrupo pode dar asneira, forçando uma situação que nem todos os músicos acham preferencial para as diversas partes.

No entanto, no caso dos Black Country Communion, o lendário Glenn Hughes (ex-Trapeze, ex-Deep Purple, Glenn Hughes) e Jason Bonham (ex-Led Zeppelin, ex-UFO, ex-Foreigner), filho de John Bonham (um dos melhores bateristas de todos os tempos), acabaram por se juntar e tocar, depois de se terem conhecido em meados dos anos 2000, com o intuito claro de fazerem música com inspiração nas raízes de Hughes, com muito classic rock e heavy metal, géneros no qual o baixista se fez famoso em bandas como Deep Purple. Para tal, ter um baixista/vocalista e um baterista é um início, mas nem sempre suficiente para formar uma banda que tenha pernas para andar e que seja sustentável. Ora, um guitarrista vinha mesmo a calhar, e, na altura, um jovem, prolífico e experiente guitarrista de nome Joe Bonamassa – que já estava no seu quinto álbum – andava a fazer sucesso na América e na Europa, quando, em 2006, os três acabaram por se unir sem saber que se estavam a unir. Apenas mais tarde, em 2009, é que Hughes e Bonamassa começaram a trabalhar juntos, colaborando num espectáculo na House of Blues, que iniciou as ideias que já haviam sido cozinhadas por Bonham e Hughes. A junção de um quarteto acabou por vir da cabeça de Kevin Shirley, produtor de Journey, Iron Maiden, Dream Theater, Rush, entre outros.

Assim, o quarteto lá se completou com Derek Sherinian no teclado, Jason Bonham na bateria, Glenn Hughes no baixo/voz e Joe Bonamassa na guitarra, dando origem ao supergrupo Black Country Communion. Portanto, um quarteto destes fez-se banda quase por acaso devido ao cruzamento de colaborações entre Bonham, Hughes e Bonamassa, com Sherinian a surgir do nada através de Shirley. Após alguns concertos a quatro, o grupo foi para estúdio para gravarem aquele que viria a ser o seu disco de estreia, “Black Country Communion”.

O álbum de estreia é um marco para o grupo e até para os seus membros, sendo, para muitos, uma das grandes estreias dos últimos anos, sobretudo quando comparado às estreias de outros supergrupos de então. O envolvimento da banda foi muito significativo, especialmente quando se percebe que este é um supergrupo, ou seja, que os membros têm outros projectos, muitas vezes, a solo ou paralelos, que acabam por ocupar muito do seu tempo. Este disco de estreia é muito rock com muito apoio instrumental no rock dos anos 70 e nos discos a solo de Hughes, fortemente caracterizados pela variedade musical. “Black Country Communion” é pesado, ritmado e, portanto, mais baseado na guitarra de Bonamassa – que faz aqui um excelente trabalho –, com letras intensas de um dos mais proficientes escritores musicais, Glenn Hughes. É um disco que satisfaz os velhos fãs do heavy metal e rock clássico, até de rock progressivo, com faixas que elevam estes mesmos géneros. Acaba por ser um longa-duração que abrange muitos subgéneros, retirando de cada um dos quatro membros o melhor de si, numa das melhores fases das suas carreiras recentes. Claro, há muito Hughes e Bonamassa neste álbum, e um bom exemplo disso é o tema “Medusa”, que faz recordar alguns dos álbuns a solo de Hughes, e a faixa “Song of Yesterday”, que é puro Bonamassa, a criar um belo épico emotivo de guitarra e excelentes vocais com Hughes a ser o suporte para um exímio Bonamassa. “Too Late for the Sun” é o apontamento progressivo deste disco, encerrando um conjunto de doze faixas que oferecem excelente rock, daquele dos bons que há muito havia sido abandonado por falta de gosto comercial e crítico.

Não foi preciso esperar muito tempo para se ouvir mais música dos Black Country Communion – apenas um ano. Em 2011, “2” sai para as lojas, sendo este o melhor disco da discografia do grupo. O rock é mais melódico e muitas das faixas contêm um ‘quê’ de emotivo, mesmo aquelas que têm um arranjo mais acelerado. A verdade é que é daqueles discos que nos vicia, um pouco à semelhança do primeiro, fazendo-nos repetir certas faixas como “Cold”, “Little Secret”, “I Can See Your Spirit” e “Save Me”. “2” agradará ao mesmo público do lançamento anterior, mas tem que se admitir que poderá atrair outro tipo de audiência, talvez de idades mais jovens, devido à emotividade presente. Novamente, Hughes é o génio criativo por detrás das letras, compondo 90% dos temas. Não é segredo que Hughes sempre foi muito polivalente, bastando-se olhar para a sua carreira, mas o artista não finda de demonstrar essa polivalência e parece que os Black Country Communion são um veículo realmente apetecível para o fazer. À semelhança do primeiro álbum, este “2” tem muito de Deep Purple, Led Zeppelin e até Black Sabbath, apesar desta última referência poder ser relativamente forçada em certos momentos. A verdade é que este disco acabou por ser um dos mais badalados dos Black Country Communion, tornando-se num dos melhores do ano. Estes dois primeiros registos acabam por contrastar com o terceiro longa-duração, que viria a mostrar um quarteto menos unido e disponível para compor boa música. Essa falta união viria a resultar numa breve separação.

Falhanço criativo e separação (2012-2014)
Em 2012, seguiu-se “Afterglow”, que foi descrito como uma continuação dos primeiros dois álbuns, mas com aspectos mais sombrios, bastando-se atentar a faixas como “Confessor”, “Cry Freedom” e “Crawl”, que acabam por ser simbólicas de um disco que mostrou uma desunião tremenda, com quase todo o álbum a não contar com a participação de Joe Bonamassa, que estava em digressão com a sua banda a solo. De facto, este terceiro álbum mostra uns Black Country Communion modificados, com uma tendência mais acústica e uma sonoridade mais lenta, dando mais relevância ao talento acústico de Derek Sherinian. A discórdia existia, não era apenas boato, nem rumor. Na realidade, a agenda de Bonamassa não permitia ter um calendário mais organizado para os Black Country Communion, facto que foi exposto por Glenn Hughes numa entrevista, o que não agradou a Bonamassa, revelando em 2013 o fim da sua ligação ao grupo. Derek Sherinian juntou-se à banda de Bonamassa, Bonham e Hughes acabaram por criar os California Breed. Em jeito de conclusão, “Afterglow” não é um péssimo álbum nem nada a isso parecido, mas é de facto inferior aos restantes, sendo o pior do colectivo. No entanto, Sherinian tem mais destaque neste disco, o que faz evidenciar uma carga mais acústica na sonoridade do longa-duração. Dito isto, é evidente que não é um álbum tão trabalhado nem tão sofisticado, com algumas a faixas a soarem forçadas.

Regresso triunfante (2016-)
Aquilo que parecia uma zanga permanente passou a temporária com a aproximação de Bonamassa aos restantes membros. Não foi então difícil regressar a um projecto que havia sido tão bem-sucedido e que apaixonara muitos fãs de quatro músicos com experiências tão diversas. Como tal, 2017 iria marcar o lançamento de um novo longa-duração, que viria a conter dez faixas realmente bem trabalhadas. Posto isto, o ponto mais fulcral deste trabalho é a colaboração que se havia verificado em “Black Country Communion” e “2”, com Hughes e Bonamassa a trabalharem na composição das músicas, fazendo aumentar a emotividade do álbum com um certo grau mais do que acima da média de rock clássico e heavy metal.

“BCCIV” viria a ser a quarta obra dos anglo-americanos e o contraste com o disco anterior não poderia ser maior. Não é arriscado dizer que não existe qualquer tipo de enchimento nem nenhum tema que fique a mais, existindo um foco significativo em tentar demonstrar o trabalho de cada um dos membros em cada uma das faixas. Derek Sherinian faz aqui um excelente trabalho, tendo novamente um destaque maior do que o que teve nos dois primeiros lançamentos de estúdio. De igual modo, Bonamassa apresenta malhas realmente surpreendentes, com “The Last Song for My Resting Place”, “Wanderlust” ou “The Crow” a serem veículos fantásticos para a guitarra do artista. Bonham está exímio na bateria. E Hughes nem parece envelhecer com uma voz sempre carregada e preparada para qualquer tipo de abordagem vocal.

“BCCIV” é um belo regresso de um supergrupo marcante e que merecia este tipo de atenção, apesar das tensões existentes após o terceiro disco. Black Country Communion é uma banda a acompanhar, trazendo uma sonoridade muito anos 1970, com um rock afiado e um heavy metal intenso sem nunca soar exagerado. Afinal de contas, os seus membros são dos artistas mais talentosos da indústria e não se poderia esperar melhor resultado do que este.

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