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Paradise Lost: palavra de Greg Mackintosh

O guitarrista dos PL sobre o crescimento do movimento britânico, as mudanças e reacções com One Second, a depressão e a terapia.

Foto: Anne C. Swallow

«Se tivesses um amplificador de merda, isso tornava-se o som da banda. Se o baterista não conseguisse tocar blastbeats, eras uma banda de doom. Era simples.»

Membro-fundador dos Paradise Lost, Greg Mackintosh viveu e testemunhou todos os acontecimentos da banda, desde as primeiras maquetes e concertos em pequenas salas, quando ainda muito se influenciavam no death metal, até às mudanças de paradigma na indústria (em que surgem “Draconian Times” de 1995 e “One Second” de 1997) e à ascensão como um dos grupos mais influentes num espectro que passa pelo doom, gothic e dark metal.

Em declarações à Metal Hammer (#355), o guitarrista recorda os finais dos 1980s e o surgimento de um movimento metal britânico que nunca mais parou: «A cena do Reino Unido nasceu de um amor pela música underground e troca de cassetes, mas também devido às habilidades das pessoas e do equipamento. Se tivesses um amplificador de merda, isso tornava-se o som da banda. Se o baterista não conseguisse tocar blastbeats, eras uma banda de doom. Era simples. Havia algo de muito honesto nisso, especialmente na cena do Reino Unido nessa altura. Ninguém sabia que havia géneros que iam aparecer por todo o lado – toda a gente pensava: ‘Oh, estão a fazer a cena deles.’ Quando tocávamos com Napalm Death, tínhamos pessoas a gritar: ‘Toquem mais rápido!’ Mas isso era porque éramos tecnicamente contestados, portanto apenas tocávamos mais devagar. Acabou quase por ser o estilo da banda.»

Desenvolvendo-se ao longo dos primeiros anos, o death/doom metal de álbuns como “Gothic” (1991) deu origem a uma abordagem mais alt-rock em discos como o perfeito “Draconian Times”. Mas os Paradise Lost, também à custa do que ia acontecendo no universo da música com o metal a perder mercado para o grunge, não estagnaram e em 1997 lançaram “One Second”, um disco menos metal, ainda mais rock e com elementos electrónicos.

«Gravávamos e andámos em digressão com “Icon” e “Draconian Times” sem pausa, e isso tornou-se um pouco demais e mais do mesmo», recorda Greg. «É por isso que a mudança veio com o “One Second”, porque começámos a sentir que estávamos a trabalhar numa linha de produção. Era difícil manter a espontaneidade. Depois havia manchetes como ‘são estes os novos Metallica?’, o que é demasiada pressão para se pôr em alguém – e é falso. Outra manchete que me apanhou e ao Nick [Holmes, vocalista] dizia ‘hair metal’. Ambos tínhamos um grande e volumoso cabelo, ficámos do tipo: ‘Não foi para isto que nos metemos nisto.’ Portanto, incluir electrónica teve alguma reacção negativa, assim como aborrecimentos. Pensámos: ‘O que podemos fazer para nos distanciarmos disto?’ Era quase como darmos um tiro no próprio pé, mas sabíamos o que estávamos a fazer, só queríamos fazer algo diferente. Acho que é uma coisa natural de se fazer se sentires que está a ser empurrado para um canto.»

A seguir veio “Host”, em 1999, que também polarizou opiniões, mas que, segundo Greg, vendeu muito bem. «É excelente que a comunidade metal agora acolha esses álbuns. Defendo-os completamente e a razão pela qual acho que agora a comunidade metal os aceita tem a ver com a maneira como a cena musical avançou. Certas coisas tornaram-se mais aceitáveis depois de termos feito o “Host”. Não terias um metaleiro a ouvir Perturbator no início dos 2000, mas agora é perfeitamente aceitável misturar os dois ou fazer-se um álbum com esse tipo de material. Mas na altura não era aceitável para um banda de metal em ascensão.»

Para além da vida em carreira, que os fãs melhor conhecem, há também um aspecto pessoal nem sempre exposto. No caso de Greg Mackintosh, a morte da mãe em 2018 e a depressão tiveram um peso considerável no quotidiano.

«Há um historial de depressão na família, mas descobri que o que mais ajuda é apenas atravessares as 24 horas em que estás», revela. «Fiz terapia durante uns dois anos, e isso ajudou-me a pensar sobre mim no ponto-de-vista da terceira pessoa – o que as pessoas podem ver quando fazes certas coisas. Foi quando descobri que era demasiado sério. É sobre fazeres-te feliz antes de tudo, e depois as pessoas podem entrar. Não há razão para se ficar chateado com coisas que, realisticamente, não podes mudar.»

E se Greg pudesse falar com o seu eu jovem, o que lhe diria? «Desfruta, relaxa, não sejas tão sério e aceita as coisas como elas são. Porque quando és jovem, tens-te demasiado sério. Eu era o gajo sério da banda e só fiz com que fosse doloroso para mim. Era tudo trabalho árduo, e não devia ter sido. Fui pai quando era bastante novo, por isso estava constantemente a torturar-me por não estar em casa. Até a minha esposa da altura dizia: ‘Relaxa, não sejas tão sério!’ E é isso que desejo ter feito, porque, nos últimos dez anos, foi tudo mais fácil. Tudo o que tinha de fazer era relaxar um pouco e não ser tão sério.»

Tudo isto foi um processo de reencontro e descoberta que levou o seu tempo, e Greg sabe o que foi e o que é, o que quer e o que não quer ser: «Não era muito empático quando era mais novo. Eu não ouvia muito a opinião dos outros. Não que devas deixar que a opinião dos outros te influencie demasiado, mas deves deixar que toda a gente termina a sua conversa. (…) Não gosto das grandes discussões divisivas que estão a acontecer no mundo, em que tudo tem uma enorme importância mundial. Acho que quanto mais velho fico, mais quero não ouvir toda esta raiva e divisão. Quero que toda a gente termine as suas conversas, quero que todas as opiniões sejam ouvidas, e isso impede-me de me querer envolver na conversa mais ampla. Isso fez-me querer ter palas, e eu não quero ser assim.»

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