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Paradise Lost “No Celebration – The Official Story of Paradise Lost”

A 26 de Setembro de 2018, no The Cavern, em Halifax, a noite foi de festa. Tratava-se da comemoração oficial dos 30 anos de carreira dos Paradise Lost perante uma audiência de… 150 pessoas.

Editora: Decibel Books (DB Books)
Autor: David E. Gehlke
Género: biografia
Ano: 2019

A 26 de Setembro de 2018, no The Cavern, em Halifax, a noite foi de festa. Tratava-se da comemoração oficial dos 30 anos de carreira dos Paradise Lost perante uma audiência de… 150 pessoas.

Viradas as costas a uma proposta mais ambiciosa, que consistia na organização de um festival em Leeds, a banda decidiu regressar às origens, por assim dizer, num estilo muito keep it simple e presentear esses afortunados com uma amostra do seu percurso, contando, igualmente, com alguns convidados comos os antigos bateristas Jeff Singer e Matthew Archer, o segundo fazendo parte da fundação da banda.

Um percurso e um estatuto que poucos conseguiram almejar. Uma relevância e um cunho tão próprio, plasmado em tantos temas que atravessam gerações de seguidores. Paradise Lost é uma dessas bandas, que é tão unanimemente aplaudida nos primeiros anos de carreira como votada a uma acérrima e feroz crítica a partir do momento que decidem abraçar novas roupagens para os seus temas, regressando depois a uma sonoridade mais consensual, que se prolonga até ao presente.

Por muito estranho que possa parecer, na sua génese, os Paradise Lost queriam ser uma banda de grindcore/crust. A Inglaterra da segunda metade da década de 1980 via florescer nomes que abalavam os pilares do metal (Iron Maiden, Motörhead e Judas Priest já tinham encontrado o seu lugar ao sol), com abordagens ousadas e (ainda) mais extremas das que chegavam do lado de lá do Atlântico, com o thrash e o death metal em alta. Nomes como Carcass, Napalm Death ou Extreme Noise Terror passaram a marcar de forma contundente o underground e álbuns como “Scum” ou “Reek Of Putrefaction” colocaram a ilha de Sua Majestade novamente na linha da frente do som pesado.

Fruto de uma série de circunstâncias, de entre as quais o facto de Matthew ‘Tuds’ Archer não dispor da técnica necessária para que os temas avançassem nessa linha, o quinteto de Halifax resolveu fazer exactamente o contrário: carregar fundo no travão e tocar de forma lenta, quase lúgubre, por vezes, dotando os seus temas de uma carga miserabilista, acabando por evidenciar-se no espectro musical do norte da Inglaterra.

Após as primeiras demos e o lançamento do álbum de estreia “Lost Paradise” (1990), o resto é história, como se costuma dizer. “No Celebration – The Official Story Of Paradise Lost “, a primeira biografia oficial da banda, tenta resumir, ao longo de quase 300 páginas, essas três décadas, contando com depoimentos na primeira pessoa dos actuais e ex-membros da banda, bem como de uma personagem crucial que é Andy Farrow, manager do colectivo, e de várias outras personalidades, desde membros de outras bandas passando por produtores ou staff de editoras com quem trabalharam.

Dividida em dezassete capítulos, com uma abordagem linear do ponto de vista cronológico, é incluída vasta informação que nos ajuda a perceber os vários momentos que a banda atravessou, o árduo trabalho até ao pico comercial de “Draconian Times” (1995), a auto-infligida mudança de direcção musical patente de “One Second” (1997) até “Symbol Of Life” (2002), coincidindo a sua passagem por uma major, atritos no seio da banda, divisões quanto à direcção musical a tomar e um gradual regresso à sonoridade que os popularizou, excelentemente plasmada nos consensuais “The Plague Within” (2015) e em “Medusa” (2017), sem esquecer as incursões de Greg Mackintosh com os seus Vallenfyre e Strigoi e a colaboração de Nick Holmes com os Bloodbath, já no decénio transacto.

Nascidos no auge do tape trading, menos de uma década depois tornaram-se uma banda de multidões, encabeçando alguns dos principais festivais europeus. Assistem ao advento da Internet no momento de menor identificação entre a banda e uma significativa franja dos seus seguidores, mantendo uma regularidade de lançamentos muito interessante no momento em que as plataformas de streaming voltam a gerar mais uma mudança no panorama da indústria da música. São três décadas com muito para contar, em que os Paradise Lost se expõem de maneira honesta, mas sempre com um travo irónico e sarcástico, como sempre foi seu apanágio, num discurso directo que nos permite obter uma visão bastante clara das várias etapas por que passaram.

Uma nota final para o layout da publicação que, na nossa opinião, poderia ser um pouco mais arrojado no sentido em que se poderia ter apostado numa melhor qualidade de imagens para uma breve fotobiografia a cores a documentar vários momentos da carreira, conferindo uma mais-valia à mesma e assim acabando por dar uma publicação mais honrosa. Já que se trata de uma edição limitada, uns euros a mais não seriam o elemento decisor, certamente.

As palavras de Karl Witters (Bolt Thrower) acabam por efectuar um excelente resumo e oferecer uma visão global do trajecto da banda e dos valores basilares que nortearam e continuam a nortear a sua presença no mundo da música, para que se mantivessem em sintonia, unidos e, acima de tudo, donos do caminho que pretendiam trilhar, mesmo quando tudo parecia certo para dar errado: «The overall success and longevity of Paradise Lost is a tribute to the bonds of friendship that exist between Nick, Greg, Aaron and Steve. There are not many bands out there that have had such a solid and consistent lineup throughout their existence. This is a testament to the personality and character of each individual member of Paradise Lost. They have been through good times and personal struggles, yet their friendship remains stronger than ever.»

Senhores do seu calvário.

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