A banda estava fora de controlo, mas o plano estava traçado. Pantera “The Great Southern Trendkill”: raiva vituperativa

1996. O grunge como se conheceu com Nirvana estava praticamente morto. O metal, que tinha sofrido uma carga comercial negativa, estava a recuperar com a ascensão do nu-metal, com Korn à cabeça. De um lado, os Metallica estavam prestes a mandarem-se completamente ao mainstream com “Load”, lançado em Junho desse ano, e os Pantera carregavam a bandeira do metal com todo o fulgor.

Depois de “Far Beyond Driven” (1994), que alcançara o nº 1 da US Billboard 200, os Pantera de Phil Anselmo, Dimebag Darrell, Rex Brown e Vinnie Paul atacavam ferozmente com “The Great Southern Trendkill”, que chegou às lojas em Maio de 1996. Para Phil Anselmo, este disco era aquele cavalo que ninguém dá nada por ele mas que ganha a corrida, «porque o heavy metal, na altura, estava supostamente para acabar».

A banda estava fora de controlo, mas o plano estava traçado – mais ou menos. À última hora decidiram que “The Great Southern Trendkill” não seria gravado em Dallas e ficaram mesmo na casa de Dimebag Darrell. «Começou por ser uma sala para jams», disse Dime à Guitar World, «mas depois decidimos fazer as nossas maquetes aqui, por isso trouxemos algum material. (…) As maquetes soavam tão implacáveis e letais que ficámos do tipo: ‘Meu! É quase isso, mesmo aí.’ Depois arranjámos uma consola MCI5OO – a mesa que usámos para gravar os nossos álbuns – e montámos um estúdio».

Porém, Phil Anselmo gravou as suas vozes no estúdio de Trent Reznor (Nine Inch Nails). O vocalista trabalhou com a banda nas sessões preliminares, mas também queria um espaço seu, especialmente para que os colegas não o vissem chapado com analgésicos. «Bem, foram tempos muito interessantes e difíceis também», recorda o vocalista. «Ao nível pessoal, eu não estava muito bem porque estava lesionado, cometia todos os erros de novato com a medicação e ficava embaraçado. Não queria ver ninguém, pá. Estava mal… Decidi fazer as vozes sozinho.»

O baixista Rex Brown é que não se deixou enganar – e era mais do que analgésicos, era mesmo heroína, como contou à Guitar World: «Naquela altura, acordávamos e ficávamos logo mocados. Era garantido. Portanto, isso deixou-nos um bocado enevoados. Mas a certa altura notei que o Phil estava mais confuso do que o normal. Certo dia, quando estávamos a fazer o “The Great Southern Trendkill”, ele olhou para mim e deu uma chapada na sua axila, e eu fiquei do tipo: ‘O quê!?’ Nunca enfiei uma agulha no meu braço. Costumava ver alguns dos meus amigos a injectarem-se, mas eu nunca o faria. Não mesmo. Já não via uma coisa assim assim há 10 anos, e o Philip a fazê-lo fez-me pensar: ‘Oh merda! Espero que não esteja a fazer o que penso que está a fazer.’ Era certo, estava a dar na droga. Ele estava uma desgraça durante as sessões de escrita do “…Trendkill”. Estávamos todos queimados por essa altura. Muita da disciplina e estrutura que costumávamos ter foi pela janela fora.» Em Julho de 1996, Anselmo teve uma overdose depois de um concerto em Dallas.

Nem tudo foi o descalabro e a genialidade de músicos como Dimebag Darrell deu ar de si quando sacou o solo da faixa “Floods”, baseado em passagens que tocava ao vivo durante a digressão de “Far Beyond Driven”. «Costumava tocar um solo de 20 minutos que consistia em tudo, desde “Eruption” [Eddie Van Halen] a “(Revelation) Mother Earth” [Randy Rhoads], mais tudo o que sentia que podia ali meter», disse Dime à Guitar World.

Para além do nome de Trent Reznor já estar associado ao álbum devido ao uso do seu estúdio para as gravações de Anselmo, o vocalista traria mais alguém – nada mais, nada menos do que o politicamente incorrecto Seth Putnam (1968-2011), dos Anal Cunt, que contribuiu com alguns backing vocals nas faixas “War Nerve”, “13 Steps to Nowehere” e “Suicide Note Pt. II”. Em declarações à Decibel, Anselmo disse que «Seth tinha um sentido de humor bizarro e absurdo que chateava muita gente, mas da maneira que o Seth via isso, essas pessoas já eram umas chatinhas».

Com “The Great Southern Trendkill” a posicionar-se no nº 4 da US Billboard 200 (chegaria a disco de platina em 2004) e nº 17 no Reino Unido, o álbum conseguiu angariar fãs fora do metal, como é o caso de Moby, que disse à Classic Rock: «É implacavelmente negro. As letras de “War Nerve” são as letras mais implacavelmente malignas que podes imaginar. Fazem os satanistas noruegueses que queimam igrejas soarem a catequistas. É toda uma expressão vituperativa de raiva e fúria.»