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Pain of Salvation “Panther”

É emoção e fogo, mas também é calculismo e gelo.

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Editora: InsideOut Music
Data de lançamento: 28.08.2020
Género: prog metal / rock
Nota: 4/5

É emoção e fogo, mas também é calculismo e gelo.

Os Pain of Salvation não são a típica banda de metal. E nem sequer a típica banda de metal progressivo. Quem acompanha, mesmo que de longe, a carreira dos suecos, sabe bem que isto não é um eufemismo. É mesmo assim. Do demolidor de barreiras estilísticas “Scarsick” ao esmagador “BE”, passando pela viragem abrupta em direcção ao rock dos anos 1970 dos álbuns gémeos “Road Salt”, os Pain of Salvation já mostraram que não são banda de estagnar ou repetir receitas. A curiosidade em “Panther”, o décimo primeiro trabalho de estúdio do colectivo liderado por Daniel Gildenlöw, era ver em que direcção se moveria a seguir. Sobretudo depois de um disco como “In the Passing Light of Day”, que tinha um conceito pesado (mais um) sobre enfrentar a morte e essa experiência mudar a vida, em que o cunho auto-biográfico de Gildenlöw foi assumido mas os créditos de composição foram talvez demasiado entregues ao guitarrista Ragnar Zolberg. Ao ponto de os Pain of Salvation adaptarem músicas da banda anterior de Ragnar. Não que isso fosse necessariamente mau (sobretudo tendo em conta a qualidade de “In the Passing Light of Day”), mas não afasta a sensação de que o disco anterior de PoS foi um parêntesis e a sua viagem musical – e a evolução – continua agora, com “Panther”. E, caros fãs, agarrem-se que a viagem vai ser atribulada.

Uma das primeiras coisas que chama a atenção no disco é a camada de electrónica que ele tem em cima. Aliás, nem sequer é só electrónica – são efeitos, experimentação sonora e variedade sónica. Ao ponto de, por vezes, sufocar a ‘banda de metal’ que estamos habituados a ver (mais ou menos) nos Pain of Salvation.

“Accelerator” na abertura, por exemplo, tem uma linha de teclado a pairar sempre por ali – por vezes mesmo em cima das guitarras, outras vezes ao longe – e toda a música está cheia de reverbs, sons, efeitos e compressão bem audível nas guitarras. Teste de fogo logo para abrir a contenda. A receita (diria ‘provocação’ se Daniel Gildenlöw não estivesse sempre a dizer que a composição lhe sai como sai e ele não tem grande controlo sobre ela) repete-se num punhado de músicas ao longo do álbum, mas “Panther” tem muito mais para mostrar do que aquilo que apreendemos à primeira. Basta ouvir a guitarra acústica (cordas de nylon?) da épica “Wait”, outro tema aparentemente dominado pelos teclados mas tão mais que isso. Voltando a “Accelerator” como exemplo, a estrutura é dinâmica ao ponto de ir construindo um clímax (outro clássico de PoS), o trabalho rítmico é do mais técnico que se possa imaginar e o peso é atirado para a canção ou retirado dela com uma precisão irrepreensível. E é esta capacidade de controlar todos os diferentes aspectos da sua música – e são muitos – e usá-los ao serviço de uma escrita inteligente, multi-camadas e sofisticada ao ponto da mestria, que define “Panther”. É certo que a electrónica e os efeitos são a primeira impressão do disco, mas, ao fim de uma dezena de audições, as músicas mais alteradas (“Restless Boy” e o tema-título, a acompanhar a supra-citada “Accelerator”) não só não destoam assim tanto dos temas mais tradicionalmente PoS (“Unfuture”, “Species”), como até se destacam por aquela qualidade atmosférica, melódica e tão inteligente dos melhores temas da banda.

No espectro de Pain of Salvation, “Panther” fica algures no lugar escuro entre a selvagem fuga para a frente de “Scarsick” e a reflexão progressiva de “The Perfect Element I” (“Restless Boy” poderia ser uma música de “The Perfect Element II”). É emoção e fogo, mas também é calculismo e gelo. É na miscigenação sonora que os Pain of Salvation prosperam e este álbum não apenas o demonstra da melhor maneira possível como abre mais uma gaveta no enorme móvel de sonoridades da banda. É um 4/5 dentro da discografia dos PoS, mas claramente um 5/5 quando posto lado a lado com qualquer outro disco lançado este ano.

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