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[Opinião] Anti-socialites

Foto: Catarina Rocha

No que toca a divulgar conteúdo, as redes sociais são um veículo incomparável na sua (d)eficiência e celeridade. Mais do que isso, são um palco monumental que agarra a sede de atenção que cada um tem dentro de si e diz e lhe dá uma plataforma para se expressar como melhor lhe convém, quase sem limitações de conteúdo e nenhuma limitação a nível de relevância. Como espécie, e particularmente dentro da comunidade da música extrema, ainda nos encontramos na infância da aventura que é viver na grande aldeia global. Mas à medida que nos aproximamos vagarosamente na pré-adolescência, surge a necessidade de assumir responsabilidade pelos contributos que damos ao mundo – o virtual não pode ser inimigo do virtuoso, seja ele artístico ou moral.

«Longe do escrutínio público imediato, há uma certa tendência para sermos quem não queremos ser, mas no fundo sempre fomos.»

Há uma certa ausência de inibições sociais básicas quando tecemos um comentário, fazemos um post ou partilhamos um meme. A distância humana que nos deixa virtualmente abandonados ao julgamento de valor de tudo e todos cria uma dependência exclusiva da nossa consciência e bom-senso, o que rapidamente se revela como uma péssima ideia para quem está minimamente familiarizado com a condição humana. Longe do escrutínio público imediato, há uma certa tendência para sermos quem não queremos ser, mas no fundo sempre fomos. Entre tentativas fúteis de sermos deuses de nada, egos outrora frágeis incham até chocarem contra os telhados de vidro que todos temos e quebrando tudo no processo. No meio de deste microcosmos de caos, surge uma panóplia de questões – estou a trazer algo de bom ao mundo? Isto é relevante? Quero realmente transmitir uma mensagem, ou isto é só um exercício de masturbação moral desprovido de substância?

Este meu apelo consiste em nada mais do que relembrar a importância sumária do nosso bem mais valioso – o tempo. Tempo que não se recupera, que podia ser usado a criar algo digno de nota ou a divulgar criações que nos inspiram. Falando apenas da minha experiência no seio da comunidade associada à música extrema, é extremamente comum ver um enorme grau de interação em conteúdo irrelevante, que consiste basicamente em discussões sem nexo e medições anatómicas de órgãos que, julgando pelas interações dos donos, não passam do equivalente fálico da Liga dos Últimos. No reverso da medalha, posts destinados a divulgar a arte que amamos caem no vazio, muitas vezes incluindo conteúdo de artistas nacionais que remam diariamente contra a maré para nos entreter. Em plena sinceridade, sinto que ninguém quer saber. Pelo menos, não querem saber em comparação a discutir dramas idiotas nas redes sociais.

«Basta ir ao Facebook, começar uma discussão estúpida e já podemos beber da fonte divina que dá o doce néctar da atenção.»

Mas o palco das redes sociais envenena-nos nesse sentido – não precisamos de performers quando todos são performers. Quem anseia por atenção não tem de ser construtivo, ter talento ou esforçar-se diariamente para criar algo que valha o precioso tempo que as pessoas gastam a olhar para ele. Basta ir ao Facebook, começar uma discussão estúpida e já podemos beber da fonte divina que dá o doce néctar da atenção. Entretanto, quem está fechado no túmulo, a criar pelo bem da arte, anseia vigorosamente pela descoberta da fonte da noção. Ponham o casco fendido na consciência e ponderem bem – quando é que passaram a gostar mais de drama associado ao metal em detrimento da música em si? Porquê? E, acima de tudo e mais importante, o que estão aqui a fazer?

Dito isto, peço muito, mas no fundo muito pouco. Peço que realoquem os vossos recursos para exultar quem merece ser exultado pelas razões que merecem – partilhem e discutam arte. Enviem aos vossos amigos, partilhem nas redes sociais, discutam os detalhes daquilo que, alegadamente, vos move a alma. Vocês merecem mais do que gastar aquilo que temos de mais precioso em futilidades, vocês são melhores do que isso. Vocês merecem mais arte e menos drama, e a única pessoa que vos pode dar isso são vocês próprios. Nós, os criadores de conteúdo, vamos sempre cá estar. Estamos simplesmente à espera que olhem para o que merece realmente a vossa atenção.

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