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Opeth “In Cauda Venenum”

Poderá “In Cauda Venenum” ser o primeiro passo no caminho que permitirá aos Opeth completarem o círculo e recuperarem a harmonia com a sua própria história? Esperamos todos que sim!

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Editora: Nuclear Blast / Moderbolaget Records
Data de lançamento: 27.09.2019
Género: prog rock/metal
Nota: 4.5/5

Nos dias que correm é difícil ser surpreendido pelo lançamento de um álbum… As redes sociais e os círculos mais próximos dos artistas ou editoras raramente conseguem conter um segredo e, por vezes, lançam boatos para reacender o interesse e dar mais rotação ao catálogo existente. Não foi esse o caso com que nos deparámos a meio deste ano, quando fomos abalroados por um desenfreado anúncio completamente em contramão de que poderíamos esperar um novo álbum de originais dos Opeth para os finais de Setembro.

A maquinaria de especulação e comentário entrou em alta velocidade e não demorou muito tempo até termos um pequeno clip que indiciava um aumento de intensidade e peso, com os já habituais compassos complexos. Com a chegada do primeiro single “Heart In Hand” pudemos finalmente confirmar as previsões de numerosos fãs: o desgosto amoroso que Åkerfeldt vinha exibindo nos últimos álbuns, relativamente às origens mais agressivas e acutilantes da banda, está a desvanecer. Apesar de não estarmos perante os níveis de intensidade de um “Still Life”, a força e complexidade encontram-se claramente a subir, especialmente quando comparadas com os trabalhos da ultima década.

Tudo começou quando o músico, famoso coleccionador de vinil, no início deste ano havia decidido tirar uma licença sabática dos seus compromissos musicais, para se concentrar na sua vida familiar e recarregar as baterias. Foram necessários apenas dois meses para que a rotina e a monotonia tomassem conta dos seus dias e o fizessem sentir um inútil. Iniciou então uma sequência de visitas ao seu estúdio, para desvaneios descomprometidos e experiências com tecnologias que ainda não havia aprofundado, nomeadamente nas áreas da orquestração e síntese. Ambas são extremamente visíveis na faixa de abertura “Garden of Earthly Delights”, que evoca o famoso quadro de Hieronymus Bosch que, tal como uma parte significativa do repertório da banda, se ajusta a inúmeras interpretações – ou, neste caso, a um abraço aos prazeres da vida e um alerta às suas consequências. É com este mote de sintetizadores e samples (impossível de dissociar de “And the Gods Made Love”, que Jimi Hendrix em 1968 utilizou também para abrir o seu segundo álbum), que a banda sueca nos atira para “Dignity”, que irrompe de uma forma impiedosa, à semelhança do que havíamos já presenciado no passado, como por exemplo em “Eternal Rains Will Come”. Não é segredo que para Mikael Åkerfeldt as músicas cruciais de cada disco são a primeira e a última; ora, com “Dignity” este facto transborda sem quaisquer reservas. Progressões complexas e maléficas abundam, com malhas poderosas a cavalgar em cima de ritmos que não estamos habituados a ouvir no espectro dedicado ao metal, mas antes em hits pop da rádio das décadas de 1970. Talvez a inspiração tenha vindo da própria infância de Åkerfeldt, que recentemente partilhou memórias de um jantar em casa de um amigo comum com a carismática vocalista dos Abba, Agnetha Fäeltskog, referência tanto para ele como para outros membros da banda.

Em “Next of Kin”, os arranjos tenebrosos são elevados a alturas jamais alcançadas em toda a carreira da banda, com as ideias originais de Åkerfeldt a serem realizadas por Dave Stewart de uma forma sublime, mostrando que se consegue movimentar desde o paraíso até ao inferno (como no quadro de Bosch). Em clássica tradição de Opeth, a tensão e aflição dão lugar a uma balada melancólica e repousante que com o seu ritmo pulsante nos faz descer calmamente ao sabor da gentil corrente num crepúsculo de Outono. Esta tela foi concebida com mestria para acomodar um genial lead de Fredrik Åkesson, que entra directamente para a galeria de honra das melhores performances da banda no que a solos de guitarra toca – uma execução fruto da motivação de Åkerfeldt que incitou o solista a conceber algo que o imortalizasse e pelo qual «fosse lembrado depois da sua morte».

A passagem para “Charlatan“ é de novo tudo menos suave, entrando sem contemplações, com aquela intensidade a que Martin Axenrot já nos habituou, com ritmos complexos e cheios de intenção – pormenores como a utilização da cúpula do raid, onde a tensão é sublinhada de uma forma bastante criativa. Nesta música ambos os guitarristas acompanham Martin Mendez no baixo, descarregando riffs em múltiplas camadas de diferentes sons, desde o limpo ao saturado e passando pelo fuzz, uma abordagem original que confere à composição uma aura soturna. Este assalto aos nossos sentidos, onde Joakim Svalberg tem um papel proeminente, numa autêntica montanha-russa, labiríntica e hipnótica, termina uma vez mais de forma completamente oposta: com um arranjo orquestral centrado em violinos, onde são utilizados diálogos extraídos de filmes.

Com “Universal Truth”, Mikael revisita “Heritage” para se socorrer de melodias mais tradicionais do universo folk sueco. “Nepenthe” materializa-se na mente, porém com contornos mais arrojados, momentos alegres e secções com coros que não estranharíamos numa performance dos eternos Magma. A esquizofrenia nesta música é desconcertante, com malhas progressivas de longa duração, suspensões orquestradas, paisagens de guitarras acústicas (pensar em “River” de “Pale Communion”) e uma sequência bastante pouco ortodoxa.

A faixa que se segue entra com uma secção de guitarra clássica que nos indica, com as suas sonoridades algo flamencas, que o que aí vem vai desbravar mato no desenvolvimento da banda. Este é sem dúvida um dos momentos chave do álbum, com a sua bateria à base de escovas, onde Axenrot se serve camaleónica e confiantemente de um antigo kit Slingerland; e progressões jazzy, onde Fredrik faz uso de uma Gibson 335, que não estamos habituados a ver ou ouvir nestes contextos. Todos estes sons encaixam de forma surpreendente numa malha cheia de groove e tensão ao piano, bem como nas orquestrações mais uma vez venenosas e desconcertantes. Mas o momento que vai ficar para sempre na memória de todos é o solo final onde, à semelhança do solo de piano eléctrico de “The Lotus Eater”, Mikael testa uma vez mais a fidelidade dos seus fãs… Um som que aparenta ser um dueto entre trombone e voz scat: inesperado, inovador, intragável (?).

Chegamos então a “Continuum”, a faixa menos interessante do álbum, que poderia perfeitamente ter feito parte do álbum “Sorceress” dadas as evidentes semelhanças com algumas das suas canções. Interessante a reflexão de Åkerfeldt sobre a vida e o poderoso solo central de Åkesson.

Como seria de esperar, a última música apresenta-se como uma das poderosas (senão a mais) do conjunto seleccionado pela banda sueca para esta edição. Em “All Things Will Pass” encontramos todos os elementos que fizeram de Opeth um dos grandes nomes da actualidade – ambiências misteriosas com malhas sinuosas que desaguam numa fase central lenta, com uma secção rítmica alicerçada fortemente no rock progressivo da década de 1980. Os teclados fantasmagóricos contribuem majestosamente para um ambiente de tensão e libertação, intercalado por versos acompanhados por um hipnótico dedilhado de guitarra acústica – genial a concepção assim como a evolução para o refrão poderoso e a coda que mais uma vez atinge níveis de emotividade que deixarão muitos ouvintes com pêlos arrepiados. Seria este final o veneno na cauda que o nome do álbum menciona? Muito possivelmente! Em todo o caso, será uma canção que certamente irá capturar o imaginário dos fãs e estabelece, de uma forma inegável, que Åkerfeldt & Cia. ainda são uma força com poucos pares nos domínios do metal progressivo.

A promessa de incluir um número significativo destas faixas nos concertos ao vivo aguçam a curiosidade de como toda esta orquestração (crucial na quase totalidade do álbum) irá funcionar, se os ambientes serão fidedignos ou se será uma execução sintética, tão habitual nos dias que correm.

Sem dúvida, o melhor álbum dos suecos nesta etapa da sua carreira (pós-“Watershed”), com inúmeros pormenores de qualidade, como diálogos, gritos, lamentos ou sons tão ímpares como o dobrar de um sino (imortalizado por Pink Floyd em diversos momentos da sua carreira) injectados cuidadosamente, como especiarias exóticas num cozinhado tradicional. Fica contudo, uma vez mais evidente que a produção própria acaba por produzir (devido ao hedonismo artístico desenfreado e descontrolado) um número desequilibrado de músicas mais longas do que seria desejável, e de elevados níveis de esquizofrenia dentro das próprias músicas.

Um passo decisivo, ao encontro dos fãs dos momentos mais pesados da banda – talvez uma primeira tentativa de reconciliação? Como Åkesson refere, em entrevista à Metal Hammer Portugal, o regresso a vocalizações mais extremas e sonoridades death metal não estão excluídas e foram já abordadas em algumas ocasiões. Poderá “In Cauda Venenum” ser o primeiro passo no caminho que permitirá aos Opeth completarem o círculo e recuperarem a harmonia com a sua própria história? Esperamos todos que sim!

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