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Somos ou não mais do que ódio e choque?

O metal ainda precisa de encontrar razões no alívio ou sofrimento dos outros para conseguir singrar? Somos ou não uma comunidade que é mais do que ódio e choque? Uma reflexão sobre as respostas de Nergal (Behemoth) a uma entrevista onde menciona judeus e o Holocausto.

«O metal ainda precisa de encontrar razões no alívio ou sofrimento dos outros para conseguir singrar?»

Foi no final do Verão de 2018 que a Ultraje Magazine – predecessora da Metal Hammer Portugal – falou com Nergal, dos Behemoth, que levava a cabo a sua ronda de entrevistas com a imprensa internacional para promover “I Loved You At Your Darkest”, um álbum com uma nova multitude de sacrilégios a começar logo pelo próprio título, cuja autoria da expressão é atribuída a Jesus Cristo. Conseguimos recordar-nos que atravessávamos uma vaga de calor, tal é o ruído gerado pela ventoinha presente na gravação da conversa, e, a julgar pelas piadas que ouvíamos de fundo do próprio Nergal enquanto falávamos com o responsável pela Nuclear Blast, adivinhava-se que seria uma conversa telefónica cheia de boa disposição.

Logo de início, Nergal mostrou-se uma pessoa encantadora. Discutimos o risco que foi escolher este título para a então nova proposta discográfica dos polacos e se, na eventualidade de Jesus Cristo ter, de facto, existido, não teria sido afinal um tipo fixe que transmitia uma mensagem de tolerância, respeito e amor que fora deturpada e manipulada por um sistema religioso que ao longo dos séculos serviu-se do seu poder para levar os seus interesses avante, por cima de tudo e de todos. A discussão era agradável e estávamos a ter aquilo a que no mundo editorial chamamos de “sumo”, de tão completas e profundas que eram as respostas. Contudo, talvez para Nergal não estivesse a ser suficientemente controverso e, como já o havia feito em entrevistas anteriores com diferentes meios de comunicação (como quando tentou humanizar Adolf Hitler, por exemplo), também connosco decidiu fazer uma curva perigosa.

Antes disso, permitam-nos oferecer o contexto. Perguntávamos a Nergal se a sua postura anti-religiosa poderia ter um fim à vista, em que o passar dos anos poderia, de alguma forma, fazer desvanecer esses sentimentos. «Não sei o que vai acontecer nos próximos dez anos», responde Nergal calmamente do outro lado da linha. «Talvez fique mais sereno, talvez relaxe mais… Talvez me torne judeu», completa seguido de uma gargalhada. Na mesma resposta em que o músico confessa que é uma pessoa frágil e que se serve de um escudo para não deixar que essa fragilidade transpareça para o exterior, Nergal dá o primeiro pontapé-de-saída rumo à controvérsia que tanto gosta de gerar. Um pouco mais à frente discute-se a situação dos seus compatriotas Decapitated, que à data da entrevista tinham acabado de regressar à Polónia depois de uma temporada detidos nos Estados Unidos sob acusações de uma alegada violação de uma fã. Os pontos salientados por Nergal acerca desta situação em particular mostravam-se válidos (concordássemos ou não), no entanto a conclusão que oferece não deixa de parecer estranha, ao pegar num tópico que dizia respeito ao que considerava ser uma injustiça do governo norte-americano perante os Decapitated, para rematar com «já nem é possível sequer fazer uma piada sobre o Holocausto sem que tenhas logo os antifas atrás de ti.»

«Rumo a 2020, ainda faz sentido o metaleiro assumir uma identidade onde não faltam traços de intolerância e xenofobia?»

Antes que os nossos leitores saltem para conclusões precipitadas, não vimos nestas declarações motivos para criar todo um aparato mediático e a entrevista foi publicada sem omissão dessas afirmações. Os leitores também não parecem ter-se importado. No entanto, não deixamos de pensar, na altura e agora, que a forma como Nergal procura introduzir este tipo de comentários nas suas respostas é desnecessariamente dramática e ridícula. Nergal sabe perfeitamente que ao usar palavras-chave associadas à Alemanha Nazi vai chamar a atenção das pessoas, até porque a situação política que vivemos a nível mundial parece não ter tréguas e há todo este clima hostil que se vive e respira, despoletando sempre uma reacção das pessoas que o ouvirem ou lerem. Mas para quê procurar ser engraçado e adoptar um discurso de choque às custas de um povo que passou por um genocídio às mãos de extremistas que pregavam uma cultura de ódio e intolerância? O metal ainda precisa de encontrar razões no alívio ou sofrimento dos outros para conseguir singrar? A disparidade entre um católico e um judeu é esta: o católico faz parte de um sistema religioso e move-se perante as noções estabelecidas por essa fé. O judeu faz parte de um grupo étnico que pode ou não seguir as práticas de uma religião. Pode até ser ateu que ninguém lhe tira o judaísmo do ADN. Quero com isto dizer que existe uma grande diferença entre atacar um sistema e atacar uma etnia, daí que me pergunte: rumo a 2020, ainda faz sentido o metaleiro ser alguém que reme contra a corrente e tenha que assumir obrigatoriamente uma identidade onde não faltam traços de intolerância e xenofobia?

Nergal é igual a tantos outros que populam a Internet: um troll. Alguém que procura atrair atenções para a sua arte e que admitiu até ter inventado a história de ter sido expulso de um ginásio da YMCA (organização cristã) devido às suas crenças religiosas e por ter vestida uma t-shirt dos Darkthrone. Uma piada inocente que gerou todo um debate online e que fez a sua banda ser mencionada nos maiores meios de comunicação deste género musical. Missão cumprida, creio eu.

Ao crescer, encontrei no metal algo que parecia não existir em mais lugar algum na sociedade. Uma forma de arte que mostrava não ter limites na forma como explorava e expandia o seu território musical; onde era possível questionar e experimentar, sem a presença de dogmas. É isto que o metal continua a significar para mim. Somos mais do que isto. Mais do que ódio e choque. Ou pelo menos, é nessa ilusão que eu vivo.

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