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O dia que entortou a minha vida

Quando acordei naquele domingo, sabia que o dia ia ser especial porque finalmente ia ver uma das minhas bandas favoritas, bem perto de casa. O que nunca suspeitei é que esse ia ser o dia em que a minha vida mudava para sempre!

Quando acordei naquele domingo, sabia que o dia ia ser especial porque finalmente ia ver uma das minhas bandas favoritas, bem perto de casa. O que nunca suspeitei é que esse ia ser o dia em que a minha vida mudava para sempre!

Sempre fui um puto muito ligado ao rock por culpa do meu irmão mais velho, a quem eu roubava cassetes, sem nunca ter sido chamado à atenção por esses furtos.

A primeira cassete de que me apoderei tinha várias bandas clássicas, como Iron Maiden, Helloween, Saxon, Suicidal Tendencies e, claro, Ratos de Porão! Essa cassete com o “Brasil”, gravado numa qualidade que hoje nem me ia dar ao trabalho de ouvir mais do que meia música, foi a minha introdução ao mundo da música mais pesada.

Passados uns anos, finalmente Ratos de Porão voltavam a Almada! A minha banda favorita, na minha cidade? Para um miúdo de 16 anos, não se pode pedir mais do que isso.

Encontrei-me com os amigos, arrancámos a pé rumo à Incrível Almadense (associação mítica, que hoje está em sérios riscos de fechar portas) e a chegar, o ambiente vai ficando mais festivo, mais pesado. Lembro-me de chegar a Almada Velha e começar a ouvir ao longe “Ratos! Ratos! Ratos! Ratos!”, cântico que ainda hoje me dá aquele arrepio. As conversas com os amigos eram sobre as histórias alucinantes que os mais velhos contavam sobre a primeira vez que João Gordo & Cia. tinham estado na Incrível. Histórias que até mortos tinham. Para um puto de 16 anos, todo aquele perigo era verdadeiramente inebriante.

As ruas estavam cheias de heavys, punks, skins, rastas e gajos normais. Vejo um punk de crista inanimado com uma seringa espetada no braço quando João Gordo é avistado perto da porta. Da ideia que tenho, ele foi tão apertado que estalou um vidro da carrinha que os deixou lá. Tudo isto sempre acompanhado dos cânticos “Ratos! Ratos! Ratos! Ratos!” e “Aids, Pop, Repressão. O que é que eu fiz para merecer isto?”.

Incrível cheia! WC Noise e Beermosh abriram o espetáculo, mas, sem desprimor para as bandas, os minutos antes de RxDxPx entrar em palco aqueceram muito mais o público. Já há saltos do primeiro balcão e a energia no ar é indescritível. Um heavy mais velho pede a um amigo meu para guardar o casaco de cabedal, porque vai saltar, e entretanto começa o concerto. João Gordo entra a coxear de bengala, que destrói na cadeira que está no centro do palco, onde fica sentado todo o concerto.

Nunca tinha visto e nunca mais vi um concerto tão violento! Se eu e os meus amigos íamos a medo, nem tempo tivemos para pensar. Todo o primeiro piso da Incrível era um mosh pit com o chão completamente alagado. Só eu, contei dois lavatórios e uma sanita destruídos nas casas-de-banho.

Menos de uma hora depois, tudo acabou! Todas as pessoas ali presentes estavam encharcadas em suor, com um sorriso rasgado na cara!

O heavy que tinha deixado o casaco com o meu amigo voltou, vestiu-o, meteu a mão ao bolso e tirou 30 contos (!) que lá tinha sem ter avisado ninguém. Ficámos de boca aberta, sem saber o que dizer. Trinta contos em 94 era bom dinheiro…

Depois descemos até Cacilhas, onde vimos na televisão de uma tasca que Ayrton Senna tinha morrido num acidente em Ímola. Merda! Acabou-se a Fórmula 1 e aqueles domingos em família em frente à televisão, a ver o Senna correr.

No dia seguinte, todas as nódoas negras e todas as dores eram motivo de orgulho, pois percebi do que gosto, o que quero e onde me sinto bem!

“Ratos! Ratos! Ratos! Ratos!”

(Texto de Rodrigo Cachim Leite, vocalista de Puro Nojo)

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