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Novembers Doom “Nephilim Grove”

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Editora: Prophecy Productions
Data de lançamento: 01.11.2019
Género: death/doom metal
Nota: 4.5/5

Existem dois tipos de bandas relevantes: as que lançam dois ou três discos fundamentais em início de carreira e aquelas que, após 30 anos de actividade, lançam um disco que ofusca toda a sua carreira anterior. O primeiro tipo está condenado a viver do passado, ao passo que o segundo tem todo um futuro em branco pela frente. Para melhor ilustrar o aforismo, o primeiro tipo conta com nomes como Metallica; o segundo, com nomes como Novembers Doom. Ao 11º registo nobre, “Nephilim Grove”, os norte-americanos reuniram toda a sua inspiração para lançar um dos melhores discos de heavy metal do ano, tarefa cada vez mais difícil na actualidade. A questão que surge primariamente é se os naturais de Chicago têm noção do disco que acabaram de parir. Talvez não.

“Nephilim Grove” vai buscar influências nítidas aos nomes cimeiros do género dos anos 1990, incluindo Trouble, Veni Domine ou Solitude Aeturnus, mas o louvor prestado a My Dying Bride por parte do vocalista Paul Kuhr, esse, é notável, principalmente nos pormenores nas partes limpas, com aqueles lamentos desesperados e apáticos típicos de Aaron Stainthorpe a virem ao cimo, mas sempre com a essência e a sonoridade dos Novembers Doom, que cunharam o seu próprio estilo há vários anos. Tudo começa com “Petrichor”, primeiro tema avançado pela banda e que assombra pela (passe-se a expressão) emancipação instrumental. Os Novembers Doom já eram músicos competentes, verdade, mas em “Nephilim Grove” o termo certo é ‘exibicionistas’ – mesmo a gama vocal de Kuhr opera pequenos milagres no disco. A genialidade do dedilhado acústico que antecede a enchente de blast-beats e os guturais que se seguem são suficientes para percebermos que estamos perante outra coisa, perante algo maior.

As duas constantes presentes em “Nephilim Grove” são a dualidade perfeita entre melodias serenas a roçarem o progressivo e a ausência de temas de calendário, de fillers. Embora existam temas preteridos em favor de outros (caso de “The Witness Marks”), nenhum se situa abaixo de muito bom. Mas são os temas mesmo fortes, caso do tema-título, que impressionam devido à multiplicidade de pormenores e arranjos (principalmente a nível vocal). “What We Become” é outro desses temas e, uma vez mais, rendemo-nos a Paul Kuhr e ao seu trabalho vocal magistral; do lado instrumental, sente-se inspiração por todos os lados, com riffs viciantes, um solo que servirá de case study no futuro e uma simbiose rara entre os cinco elementos. Também o trabalho do baterista Garry Naples e do baixista Mike Feldman (sim, o mesmo Mike Feldman do supergrupo Subterranean Masquerade) são de primeira linha do princípio ao fim. Em “Adagio”, Larry Roberts (guitarra) rouba todas as atenções com um solo que nos traz uma lágrima ao canto do olho, tal é a sua beleza.

Embora os temas sejam geralmente lentos por natureza, há espaço para faixas rápidas, caso de “Black Light”. À sexta música, permanece aquela sensação de My Dying Bride nos seus tempos dourados. Em “The Clearing Blind”, Feldman e Naples voltam a evidenciar-se pelos melhores motivos, sendo necessário estar-se atento a todo o esforço investido pelos Novembers Doom neste registo em particular: arranjos vocais de fundo, o cuidado de se realçar o baixo e a bateria no processo de mistura… Nada em “Nephilim Grove” é casual, absolutamente nada, o que enfatiza ainda mais a magnitude do disco. “Still Wrath” é outro tema pesadão e relativamente rápido em que Kuhr mistura a sua voz angelical com os guturais mais podres do princípio da década de 1990 – não estranhem se estes últimos soarem a Paradise Lost da época “Lost Paradise”. E eis que Roberts volta a tecer um solo de sonho.

Resta dizer que não se trata propriamente de exibicionismo, mas sim de os Novembers Doom terem chegado a um patamar em que são assim naturalmente, sem se esforçarem nesse sentido, porque nem precisam. Para finalizar, “The Obelus” inicia de forma marcial e progressiva, e juramos a pés juntos que ouvimos influências de Cynic nas guitarras. É um tema forte e da mesma qualidade de todos os anteriores, mas fica a sensação de que foi empurrado para o fim, e, ainda que se trate de uma música de elite, é capaz de ser o tema mais fraco de todo o álbum. Imaginem os outros. A produção, uma vez mais a cargo de Dan Swanö, funciona como um instrumento e um diapasão em simultâneo – é bem provável que o disco não conseguisse exibir no todo a teia tão complexa que apresenta sem a colaboração deste mago de nível 99. Pensámos que, depois de “Hamartia” (2017), os Novembers Doom não conseguiriam dar um passo maior, tal é a qualidade do disco anterior dos norte-americanos. Puro engano. De forma simples, “Nephilim Grove” é o álbum que os My Dying Bride poderiam ter lançado entre “Turn Loose The Swans” e “Like Gods Of The Sun” – só por aí, obrigado Novembers Doom. Posto isto, senhoras e senhores, “Nephilim Grove” é, até à data, um dos melhores álbuns de metal do ano, bem como talvez a melhor edição a Prophecy Music do ano, mas, indubitavelmente, o melhor de doom metal que nos passou pela redacção em 2019. Fé restaurada no heavy metal: 100%.

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