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Napalm Death: «A forma sobre como falam dos refugiados – é um desumanismo»

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Foto: cortesia Century Media Records

Cinco anos depois de “Apex Predator – Easy Meat”, os lendários padrinhos do grindcore / hardcore punk Napalm Death regressam aos álbuns com o tão aguardado “Throes of Joy in the Jaws of Defeatism”, um título que precisa de ser dissecado e que o será mais à frente. Musicalmente, a primeira impressão que podemos retirar deste disco é que Napalm Death continua a ser aquilo que sempre nos habituou, mas com doses de experimentalismo que, arriscamos dizer, nunca foram tão evidentemente concebidas no passado. «É Napalm Death!», responde o vocalista Mark ‘Barney’ Greenway do outro lado da chamada por Skype quando lhe falamos da nova roupagem sonora da banda. «É experimental, mas mantém as coisas que fizeram Napalm Death ser Napalm Death. Rápido, furioso, de confronto, abrasivo, agressivo, com o paradoxo das letras humanas e pacifistas.»

Ao grindcore, death metal, hardcore e punk, juntamos agora industrial e post-punk, como se pode ouvir em “Amoral”, um dos singles previamente divulgados. Tal fusão pode ser novidade para fãs mais recentes, e esperamos que este disco seja um bom gateway para novos seguidores, mas para Barney, isto é só mais um passo numa carreira longa e cada vez mais coesa, sem limites. «Sempre o fizemos. É delicado micro-analisar as coisas», avisa. «Se formos tão longe como a “Scum”, sempre se ouviram estas influências. Não é tão predominante em alguns álbuns, mas esteve sempre lá. Para nós, é natural. Não é uma coisa que se atire ao ar. Sabemos que temos uma ampla paleta de influências, sentimos que sabemos mais sobre amalgamar essas influências, portanto não tens uma música que é a mais rápida, depois uma ao estilo de Swans e outra na sonoridade de Killing Joke – agora misturamos isso tudo para que possamos ter uma música que tenha os aspectos distintos dessas três.»

Sobre o título, que é tão paradoxal e irónico, tendo-se sempre um pensamento político como fundo, Barney explica aprofundadamente o seu significado. Será que estamos a ser alegre e ingenuamente derrotados? «Percebo completamente e concordo com a análise, mas não é bem assim quanto a este álbum. Antes de mais, “Throes of Joy in the Jaws of Defeatism” é, em termos linguísticos, um oxímoro. Se és apanhado pelas mandíbulas – uma armadilha, basicamente –, é claro que vais batalhar para sair dali, vais entrar em pânico e batalhar. Mas queria ir no oposto disso, queria sugerir que ia fugir das mandíbulas de algo com positivismo. Estou literalmente a livrar-me destas mandíbulas restritivas. Isso leva-nos ao próprio título. Os Napalm tentam sempre ser actuais com as letras, porque caso contrário as pessoas têm menos com que se ligar. Podes fazer observações gerais sobre coisas que são atemporais, mas se queremos mesmo que as pessoas se relacionem com o que estás a escrever liricamente, acho que tens de ser ligeiramente actual no melhor das tuas habilidades em oposição à passagem do tempo quando escreves um álbum.»

E é aqui, a partir deste momento, que Barney, o pensador do mundo e humanista, entra em acção. «Há uma coisa que se prende a nós, uma das várias coisas em que me quis focar – é muito importante, porque é muito uma questão humana. Tem havido um aumento de populismo e nacionalismo no mundo inteiro, mas muito perceptível na Europa, certamente nalguns país do Leste da Europa. O aumento do nacionalismo e populismo levou-nos a muita discriminação. A forma sobre como falam dos refugiados… Falam de pessoas que fogem de situações muito perigosas de forma muito desumana, um desumanismo muito, muito, muito perceptível. E também sobre outras coisas. Falam de pessoas LGBTQ+, até por alguns governos, como não estando ao mesmo nível de outros seres humanos. Lugares como a Polónia têm zonas livres de gays – pensa nisso! Como é que isso é humano de todo? Se os governos valem alguma, como é que alguém numa posição dessas pode ser tão desdenhoso e desumano em relação a outros seres humanos? Tanto no próprio país como noutro país qualquer. Para mim, era algo que tinha de ser focado e poder oferecer a antítese de Napalm Death, que é: ‘Não! Estamos a falar de seres humanos, são os nossos companheiros seres humanos. Devem ser tratados como qualquer outra pessoa!’ E quanto a estas teorias sobre os migrantes virarem países do avesso ou a biologia das pessoas LGBTQ+ intoxicarem, de alguma forma, a biologia de outros seres humanos no resto da população… Que merda sem sentido! É um desumanismo inacreditável! Queria abordar isto neste álbum porque acho que é importante. Se os seres humanos não aprenderem agora, a partir da nossa experiência neste planeta há milhares de anos, têm de começar a aprender. Não é assim que se tratam as pessoas!»

Com este conceito lírico em mente, sabemos que o álbum começou a ser pensado em 2017. Estamos em 2020 e muito acontece em três anos, como se pode verificar com aquilo por que estamos a passar – a pandemia COVID-19. Será que Barney disse tudo o que tinha a dizer nestes novos versos? «Acredito que sim. Acho que combinámos muito bem tudo o queríamos dizer», responde. «Para as minhas letras, tenho de encontrar um equilíbrio. Gosto de usar técnicas de linguagem. Estávamos a falar de um oxímoro, adoro linguagem assim, gosto mesmo. Adoro a arte da linguagem, porque é uma arte em si. Mas também compreendo que se escreves apenas pela complexidade para, de alguma forma, mostrares destreza lírica, então isso não vai funcionar, porque tens de fazer uma ligação às pessoas. A menos que tenhas cenários muito actuais e específicos para as pessoas digerirem, a comunicação tem de ser considerada e pensada, que não faça as pessoas dizerem: ‘Que merda é que isto significa?’ [risos] Tem de haver um equilíbrio. Acho que alcancei aquilo que precisava de atingir, estou bastante satisfeito.»

Ao fim de tantas décadas de existência (fundaram-se em 1981), não é, ou não deverá ser, novidade para ninguém que Napalm Death é uma banda de teor político com músicas que abordam antifascismo, anti-guerra e liberdade sexual – e esta entrevista prova-o sem rodeios. Num mundo dominado por posts e comentários em redes sociais, a mesma pessoa que faz uma observação racista no Facebook é aquela que também pode gostar de bandas como Napalm Death, Lamb of God ou Kreator – o riff pelo riff não devia ser suficiente, mas para Barney isso é uma atitude que cabe a cada um de nós. «Claro que queria muito que as pessoas considerassem a música como um todo, mas também tento não minimizar as pessoas que só querem ouvir a música. O que dizes pode ser um bocado absurdo – o gajo que pode ser um racista de todo o tamanho e depois canta a “Nazi Punks Fuck Off!” –, mas sugiro que isso pode ser mais um problema de percepção pessoal das coisas do que toda a relação entre música, letras e a pessoa que aborda isso. Há pessoas que só querem ouvir a música dos Napalm Death, e honestamente não tenho problemas com isso, não tenho mesmo, apenas não tenho. Não acho que possas ditar o que música deve ser nos termos das pessoas que a criam, porque toda a gente vai forjar o seu caminho e nenhuma coisa é superior à outra, é apenas uma maneira diferente de juntar e contextualizar música. Direi que sou uma entidade muito livre em relação a essa questão particular.»

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