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Mr. Bungle “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo”

O nirvana para qualquer headbanger que se preze.

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Editora: Ipecac Recordings
Data de lançamento: 30.10.2020
Género: thrash metal
Nota: 4.5/5

O nirvana para qualquer headbanger que se preze.

Depois de 20 anos sem gravar, a formação original, composta por Trey Spruance, Mike Patton e Trevor Dunn, resolveu convidar para a regravação da demo os compatriotas e contemporâneos da primeira vaga thrasher, Dave Lombardo (ex-Slayer) e Scott Ian (Anthrax). Caiu a sopa no mel, e a sonoridade original ganhou peso, precisão e velocidade. Dez dias foi quanto bastou para a gravação do novo álbum, em que constam a maioria dos temas da primeira demo e três inéditos, para além da cover do clássico dos C.O.C., “Loss of Words”. Sente-se a voz da experiência com uma melhoria gigantesca ao nível da produção e execução técnica em detrimento da irreverência de outros tempos. Enfim, ultrapassada esta fatalidade por causas naturais, temos o caos mais bem arrumadinho. Passados 35 anos, nenhum destes músicos é hoje um outsider, muito pelo contrário, todos eles fazem parte duma elite no topo da cadeia alimentar da indústria contra a qual se insurgiam. São os próprios a confessar que se dedicaram a outros projectos para poder pagar a renda.

A primeira demo de Mr. Bungle foi gravada no período da Páscoa de 1986 e lançada originalmente em cassete no mesmo ano. A regravação de “The Raging Wrath of the Easter Bunny” não requer nenhuma abertura de espírito alargada, nem se trata de mais uma aventura experimental ou avant-metal por territórios do noise ou das bandas-sonoras de desenhos-animados. O maverick da música pesada com mais projectos que os heterónimos de Fernando Pessoa continua imparável e prolífico, e regressa à sua música primordial.

No princípio era o thrash, filho bastardo do heavy metal, nascido do crossover, no meio da podridão punk e da jarda hardcore, aos primeiros acordes de Corrosion of Conformity e Dirty Rotten Imbeciles, a meio dos anos 1980. Foi aí que os Mr. Bungle vieram ao mundo com o dedo maior ao alto contra o sistema. “The Raging Wrath of the Easter Bunny”, regravado com outra mestria e fazendo kudos ao seu legado, fica oficialmente registado como o quarto álbum de originais na discografia dos Mr. Bungle.

“The Raging Wrath of the Easter Bunny” resulta numa música brutalista, muito física, terrena e eléctrica, descrita num único vector – o do rascunho inicial. Nesse sentido também pode ser encarado como um álbum conceptual centrado na própria obra. O exercício canibal e autofágico podia ter dado mau resultado. Felizmente isso não acontece. Pelo contrário, o coelhinho da Páscoa é para um gajo se banquetear até chupar os ossinhos. Experimentem, para entrada, os inéditos “Methematics”, “Eracist” e “Glutton for Punishment”. O tal exercício é uma purificação da alma com o significado simbólico duma evolução voltada para o interior dos Mr. Bungle, ou um acto de auto-fecundação, num ciclo de morte e reconstrução representada pela ideia do eterno retorno. Voltem sempre e tragam mais convidados do calibre de Scott Ian e Dave Lombardo, capazes de acrescentar igual valor, como se torna evidente desde “Anarchy Up Your Anus”, passando por “Habla Espanõl o Muere/ Hypocrites” e “Bungle Grind” até à última “Sudden Death”.

“The Raging Wrath of the Easter Bunny” produz o máximo impacto e turbulência desejáveis. É o nirvana para qualquer headbanger que se preze. Um álbum muito linear com o distinto recorte e acabamentos confeccionados no atelier rítmico da dupla Scott & Lombardo, numa nova roupagem totalmente personalizada, sobre a speedaria thrasher da primeira prova.

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