#Guitarrista

Artigos

Moonspell “Wolfheart”: orgulhosamente sós

Lançado a 1 de Abril de 1995 – e não foi mentira! –, “Wolfheart” tornou-se a jóia da coroa do metal português e, tantos anos depois, continua a ser um dos álbuns mais acarinhados pelos fãs de Moonspell, sejas mais ortodoxo ou mais contemporâneo.

Publicado há

-

Lançado a 1 de Abril de 1995 – e não foi mentira! –, “Wolfheart” tornou-se a jóia da coroa do metal português e, tantos anos depois, continua a ser um dos álbuns mais acarinhados pelos fãs de Moonspell, sejas mais ortodoxo ou mais contemporâneo.

Primeiro LP numa discografia variada e de enorme relevo, “Wolfheart” é o proto-dark metal da cena nacional. Evidenciando um distanciamento de sonoridades estritamente black metal, este trabalho de 1995 incluía também nuances de gothic e folk metal, e, assim, na senda da transformação do metal mais extremo para algo mais romantizado e melódico, bandas como Moonspell e Tiamat, editoras como a Century Media Records e produtores como Waldemar Sorychta devem, sem rodeios, obter os mais elevados créditos quanto ao que, naquela época, estava a acontecer.

Entre lobos, vampiros e alquimistas, a abertura com “Wolfshade (A Werewolf Masquerade)” é, desde logo, uma opção vencedora. Tudo em plena consonância, esta faixa dá o mote para aquilo que se seguiria durante o resto do álbum, com teclados atmosféricos, riffs cativantes, melódicos e com um cheirinho de condenação, um baixo altamente presente e gordo que muitas vezes acompanha as guitarras, e um Fernando Ribeiro entre o berro feroz da noite e uma limpeza vocal grave.

Numa levada sensual entre black e gothic metal segue-se “Love Crimes”, dando depois espaço a uma abordagem mais rock n’ roll e altamente orelhuda em “…of Dream and Drama (Midnight Ride)”, tema que muitas vezes levou os Moonspell serem comparados a Type O Negative.

Inclinando-se desta vez a temáticas celtas/ibéricas em detrimento do arabismo e demonologia do EP “Under the Moonspell” (1994), os Moonspell encetam uma direcção folk metal em “Trebaruna”, uma composição festiva e cantada em português, com palmas, pandeiretas e teclados a fazer lembrar gaitas, que presta tributo à entidade que é filha da dor, guerreira sagrada, deusa do amor.

Sobre este tema, João Pedro, também conhecido como Ares, que fora baixista da banda entre 1992 e 1997, disse no livro “Lobos Que Foram Homens”, de Ricardo S. Amorim: «Não íamos estar a falar dos Descobrimentos, isso não era nada que nos trouxesse inspiração, preferimos recuar ao passado pagão de Portugal, que também é muito rico. Embora fôssemos ultra fãs de Bathory, mesmo da fase “Hammerheart” e “Twilight of the Gods”, não fazia sentido para nós enveredarmos pelo viking metal. Não era a nossa cena e fomos, por isso, buscar as nossas raízes.»

Mesmo assim, o vampirismo ganharia o seu quinhão neste álbum com “Vampiria”, uma música obscura e misteriosa que, como a obra de Bram Stoker, cresce aos poucos até ao clímax equiparado a um orgasmo – aquele grito final numa mescla entre prazer e desespero é, ainda hoje, ouvido em uníssono nos concertos dos Moonspell. Outra característica particular de “Vampiria” passa pela estonteante, e por vezes incompreendida, prestação de Fernando Ribeiro que, com trejeitos vocais transilvanos, incarna aquilo que poderá ser um Conde Drácula ou um Conde Orlok.

Quem também tem crédito na forma final de “Vampiria” é o produtor Waldemar Sorychta, como Duarte Picoto, guitarrista conhecido por Mantus (na banda entre 1992 e 1995), reconhece: «A versão original da “Vampiria” tinha uns 12 ou 13 minutos, uma coisa enorme, e nisso o Waldemar teve um papel importante. Tirou as gorduras todas. Na altura ouvíamos muito o pessoal dizer que nunca deixaria um produtor tocar nas suas canções. Claro que depende do produtor, mas, em certa medida, ainda bem que o Waldemar o fez, pois o produto final não seria tão bom. Ele enriqueceu-o.»

Depois da sedução vampírica surge “An Erotic Alchemy” e a sexualidade alquímica de um Fauno perdido em noites sem dormir e dominado pela essência das rosas, do sândalo e do jasmim. Para além do conceito, outro destaque desta faixa assenta na participação de Birgit Zacher, cantora alemã que voltaria a colaborar com Moonspell em “Raven Claws” (de “Irreligious”, 1996) e que, à época, era muito requisitada por bandas como Tiamat e Sentenced.

De volta a ambientes mais terrenos e afectos às bases do black metal, com orgulho lusitano e uma espécie de Quinto Império pagão pelo meio, “Alma Mater” é o hino oficioso de Portugal no panorama metal. Com um riff simbioticamente ligado a Moonspell, esta faixa final de “Wolfheart” (a folclórica “Ataegina”, da autoria de Pedro Paixão, encerraria a versão digipak como faixa-bónus) tem a sua génese numa ideia de Mantus, conforme contou a Ricardo S. Amorim: «Não tive a percepção de que a “Alma Mater” se tornasse no que se tornou quando a escrevi. Até posso dizer de onde vem o riff de abertura. É precisamente do riff de “The Unforgiven”, dos Metallica. São os mesmos acordes, tocados nos mesmos sítios, mas com outra cadência. De facto, o James Hetfield sempre foi a minha maior influência.»

E se a guitarrada é memorável, o que dizer do refrão em português? “Virando costas ao mundo, orgulhosamente sós, glória antiga, volta a nós.” Associados por alguns detractores a uma ideologia de direita e salazarenta, é o próprio Ares quem desmonta a reacção: «Isso é uma parvoíce, e houve quem começasse a dizer que éramos fascistas, de facto. Mas a frase pega bem e tem tudo a ver com a experiência que estávamos a ter na altura, porque não usá-la? Não tem nada a ver com política. Tanto a minha família como a do Fernando eram de esquerda, e mesmo juntos deles isso nunca foi sequer uma questão. O pessoal queria ser ultra-analítico e dar um significado à frase que para nós não existia. Não percebiam que aquilo era o nosso contexto e que nos sentíamos realmente sozinhos contra o mundo, nada tinha ver com ideologia política.»

Regressados a casa depois do trabalho de estúdio realizado na Alemanha, os Moonspell desembarcaram com uma «cassete na mão como se fosse uma taça», disse Fernando Ribeiro, e o preâmbulo de uma carreira inestimável, que tinha começado no final dos anos 80 na Brandoa como Morbid God, estava concluído. Porém, como dito, isto era apenas o prelúdio da grandeza alcançada com “Wolfheart” em 1995 e depois com “Irreligious” em 1996 – mas isso é outra história

O livro “Lobos Que Foram Homens” está disponível para compra aqui.

Facebook

Destaques

Notícias

Artigos

Mundo das Guitarras © 2021