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“Master of Puppets”: como os Metallica fizeram o maior álbum metal de sempre

Em 1986, os Metallica lançaram o álbum que os elevou à lista A do metal. Eis é a história de “Master of Puppets”.

Em 1986, os Metallica lançaram o álbum que os elevou à lista A do metal. Eis é a história de “Master of Puppets”.

Na manhã de 3 de Março de 1986, a equipa da loja de discos Shades, no distrito de Soho em Londres, chegou para trabalhar e encontrou uma fila de miúdos que se estendia ao longo de St. Anne’s Court e pela vizinha Wardour Street. Esta não era uma visão comum para uma manhã de segunda-feira, mas o proprietário Mike Shannon tinha sido avisado de que este poderia ser um dia agitado.

Na semana anterior, a Shades tinha recebido 1000 cópias do terceiro álbum dos Metallica, “Master of Puppets”, vindos da editora da banda no Reino Unido, a Music For Nations, e previu-se que a loja poderia querer aumentar os seus pedidos para satisfazer a demanda esperada pelo disco. Naquele fim-de-semana, a equipa da Shades passou algumas horas a meter cópias do álbum em sacas de plásticas, completas com recibos pré-impressos, apenas para se prepararem para a antecipada corrida na manhã de segunda-feira. Provou ser um tempo bem gasto.

O gerente da Music For Nations, Martin Hooker, foi chamado à Shades pela hora de almoço de 3 de Março. Ficou a observar um desfile aparentemente interminável de metaleiros que entravam na pequena loja de discos para trocarem notas amassadas por uma colecção de oito músicas que a editora andava a anunciar na imprensa musical como «mais de 50 minutos de perfeição metal».

«Passaram o dia todo a distribuir cópias», recordou Hooker mais tarde. «Assisti a isso com o queixo a arrastar-se pelo chão. Foi inacreditável.»

Décadas depois, parece surpreendente que “Master of Puppets”, um dos álbuns metal mais reverenciados, inspiradores e influentes de todos os tempos, nunca tenha chegado ao Top 40 do Reino Unido em 1986, chegando ao número 41 das tabelas num ano em que Iron Maiden e Bon Jovi atingiam o Top 10. Mas as estatísticas por si só não conseguem medir a importância de um álbum que definiu os seus criadores como os reis de uma nova era do metal e que mudou a cara do género para sempre.

Para aqueles cujo “Master of Puppets” foi a porta de entrada para Metallica (respeito aos primeiros que embarcaram nisto com a cassete “No Life ‘Til Leather”, “Kill ‘em All” ou mesmo o excelente “Ride the Lightning, que tinha vendido cerca de 85000 cópias em toda a Europa quando “MoP” foi posto nas prateleiras das lojas de discos), era claro que se tratava de uma nova entidade emocionante, mesmo antes de se ouvir uma única nota de música gravada nas ranhuras do vinil preto.

Nos gestantes segundos entre a queda da agulha no disco e o derramamento dos floreios acústicos da abertura de “Battery”, a atenção era atraída para o retrato da banda que adornava a capa interna do álbum. Fotografada pelo fotógrafo Ross Halfin na sala-de-estar da casa compartilhada por James Hetfield e Lars Ulrich em 3132 Carlson Boulevard, El Cerrito, Califórnia, a imagem capta os quatro membros da banda amontoados num sofá atrás de uma mesa de centro onde estão espalhadas garrafas de cerveja, restos de comida, a última revista soft porn do editor da Penthouse, Bob Guccione (a New Look), e a edição de 25 de Julho de 1985 do San Francisco Examiner, que anuncia aos leitores que [o actor Rock] ‘Hudson tem SIDA’.

Numa ponta do sofá o guitarrista Kirk Hammett aponta uma garrafa de cerveja para a lente de Halfin, e na outra o baixista Cliff Burton saúda o fotógrafo com o dedo médio erguido. O quarto está uma confusão, mas com os posters de Iron Maiden nas paredes e um equipamento stereo de bosta ao canto, não parecia muito diferente do nosso próprio quarto de adolescente, e aqueles quatros miúdos convencidos e espertinhos no sofá, com calças rasgadas, casacos de ganga e camisolas de bandas muito gastas, não pareciam muito diferentes dos nossos badalhocos amigos metaleiros. Comparado com os retratos estilizados e aprumados de Iron Maiden que Halfin faria para o álbum “Somewhere in Time”, os Metallica pareciam positivamente selvagens. Aqui sente-se instintivamente que esta era uma banda em que se podia acreditar, uma de nós.

E depois a música começa…

A expressão ‘poder hipnotizante’ é uma descrição inteiramente apropriada ao efeito dos 54 minutos e 46 segundos de som contidos em “Master of Puppets”. Tão consagradas na nossa cultura quanto essas músicas se tornaram, o impacto de “Battery”, do majestoso movimento em quatro partes que é “Master of Puppets”, da queimada lenta que é “Welcome Home (Sanitarium)”, da lindamente atmosférica e classicamente composta que é “Orion” e da punitiva “Damage, Inc.”, nada diminuiu, nem um bocadinho, com o passar do tempo. Num álbum concebido à volta de temáticas sobre manipulação e controlo, a mestria dos Metallica é absoluta e infalível, e as performances possuem um controlo incomparável de poder, dinâmica e clima. Como primeiro álbum dos Metallica inteiramente composto pelos quatro músicos que o gravariam, as músicas de “Master of Puppets” foram reunidas na garagem do 3132 Carlson Boulevard, na Primavera e Verão de 1985, e apresentadas ao produtor Flemming Rasmussen perfeitamente arranjadas em maquete antes do quarteto se mudar para os estúdios Sweet Silence, em Copenhaga, no final de Agosto para a gravação. Após o lançamento, a revista de música britânica Sounds saudou o alinhamento como nada menos do que «um marco na história da música gravada».

«Gostaria de dizer que havia algo de mágico no ar no Verão em que escrevemos “Master of Puppets”, algo que não existia antes e nunca existiu desde então», disse Lars Ulrich quando se comissionava Machine Head, Mastodon, Trivium, entre outros, para se regravar o álbum na sua totalidade para um tributo ao 20º aniversário. «Mas isso seria uma mentira. Acho que simplesmente tivemos a atitude certa e a abertura certa para as ideias. Toda a banda estava a ficar mais confiante.»

«A maior parte do álbum foi composta em Maio e Junho de 1985, a partir das melhores ideias que estavam a surgir das cassetes com riffs do ano anterior», continua. «Realmente, desta vez não foi diferente – basicamente seria eu e o James sentados com um monte de cassetes e a seleccionar os detalhes das suas ideias e das ideias do Kirk. Mas o Cliff [também] estava na banda há alguns anos e trouxe muitas harmonias e melodias. Demorou um pouco para eu e o James nos abrirmos a algumas das ideias do Cliff sobre harmonia e melodia, porque nunca tínhamos tocado coisas assim. Mas depois percebemos e foi quando começámos a experimentar mais.»

Estruturalmente, “Master of Puppets” imitou o formato do seu antecessor, mas aqui as ideias dos Metallica eram mais desenvolvidas, a confiança nas suas próprias habilidades era mais pronunciada. Em certo sentido, “Ride the Lightning” era o álbum mais ousado, um salto estilístico destemido desde “Kill ‘em All”, mas onde esse álbum foi o anfitrião da primeira música desonesta dos Metallica – a transparentemente comercial “Escape”, uma música que a banda passou a odiar tanto que se recusou a tocá-la ao vivo durante quase três décadas –, “Master of Puppets” é intransigente e descomprometido, o trabalho de homens agora totalmente convencidos de seu próprio destino.

«“Master of Puppets” é definitivamente um álbum menos comercial do que “Ride the Lightning”», insiste o produtor Flemming Rasmussen. «Definitivamente. “Master of Puppets” é Metallica a comemorar que há um contrato com uma grande editora e que não querem saber. Eles diziam: ‘Vamos apenas fazer as coisas de que gostamos, e, se a editora não gostar, que se f*dam.’ Acho que foi essa a atitude. E funcionou. Não há uma música má no álbum, nem uma única. É simplesmente fabuloso do início ao fim. Eles tinham aquela atitude juvenil de ‘nós somos melhores do que todos no mundo inteiro’ e só queriam rebentar.»

Pouco habitual para um álbum de uma grande editora (a Music For Nations podia ser uma indie, mas o álbum foi pago pela Elektra nos EUA), “Master of Puppets” não tinha nenhum single ou vídeo para o promover, nenhuma faixa editada enviada à rádio para empurrar os seus criadores em direcção ao sucesso mainstream. Mas o burburinho de boca em boca sobre o álbum foi rapidamente ampliado de sussurros para gritos de proselitismo. Após o lançamento, o álbum entrou nas tabelas da Billboard no número 128, eventualmente subindo para o número 29 – inquestionavelmente, à época, o álbum mais pesado a encontrar-se em altitudes tão vertiginosas. Nos EUA, uma longa digressão de arenas com Ozzy Osbourne, que então aproveitava o sucesso do álbum “The Ultimate Sin”, colocou a banda à frente de dezenas de milhares de metaleiros que antes desconheciam totalmente o movimento underground thrash que ajudaram a criar, enquanto no Reino Unido a primeira digressão confirmou a sua chegada como a banda de metal mais significativa a surgir desde Iron Maiden.

Embora a história se recorde de 1986 como o ano em que o thrash atingiu a consciência do metal mainstream – com “Master of Puppets” a empurrar uma nova geração de metaleiros em busca de sons mais extremos, a abrir caminho para o sucesso de “Reign in Blood” dos Slayer e “Peace Sells…” dos Megadeth e a aumentar o interesse em álbuns emocionantes de nomes como Kreator, Dark Angel e Destruction –, este disco foi uma prova enfática de que os Metallica tinham superado a cena e estavam agora a embarcar numa viagem com o seu próprio mapa desenhado à mão. Tendo ultrapassado os limites do género, o álbum desafiou aqueles que seguiram o rasto dos Metallica a pelo menos tentarem fazer o mesmo.

Se estás à procura de uma indicação do apelo inalterado do álbum, considera o seguinte: em 2015, 29 anos após o lançamento e sem nenhum gancho promocional, “Master of Puppets” vendeu 202000 cópias nos EUA, tornando-se o quinto álbum de rock/metal mais vendido do ano (à frente dele só os lançados nesse ano).

Décadas desde o seu lançamento, permanece uma referência em relação à qual todos os álbuns de metal são medidos.

Consultar artigo original em inglês.

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