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Mayhem: punk na veia

Entrevista a Mayhem.

Foto: Ester Segarra

«Se não fosse pelo punk, os géneros de metal mais duros não soariam como soam hoje.»

Monumento vivo da música mais negra à face da Terra, os Mayhem, enquanto estudantes subversivos do underground durante os 1980s, tornaram-se pioneiros do black metal numa segunda vaga do género na década de 1990, deixando um legado imaculado, entre suicídios e homicídios, que ainda se exalta na sua plenitude.

Da cacofonia do EP “Deathcrush” (1987) ao definidor “De Mysteriis Dom Sathanas” (1993), os noruegueses nunca estagnaram na hora de criar e revolucionar novamente. Prova disso mesmo é o experimental “Grand Declaration of War” (2000), os laivos industriais de “Chimera” (2004) e as dissonâncias claustrofóbicas de “Ordo Ad Chao” (2007) e “Esoteric Warfare” (2014). Em 2019, a modos que fecharam o ciclo com “Daemon” ao apresentarem uma postura de regresso às raízes através de um álbum puramente Mayhem que se tornou carismático quando menos se esperava.

Após o lançamento deste último LP, a banda estava a desfrutar do ímpeto que tinha obtido, não só por “Daemon” mas também pelos inúmeros concertos por todo o mundo em celebração de “De Mysteriis Dom Sathanas”. A pandemia rebentou e, no processo, tiveram de abrandar abruptamente. Durante este período de incerteza e estagnação global, os Mayhem não baixaram os braços e surgem agora com o EP “Atavistic Black Disorder / Kommando”, composto por três faixas inéditas oriundas das sessões de “Daemon” (“ Voces Ab Alta”, “Black Glass Communion” e “Everlasting Dying Flame”) e quatro covers de ícones do punk reverenciados por esta banda de black metal.

«Quando gravámos a bateria de “Daemon”, de repente tínhamos 3-4 dias extra em estúdio», recorda o baixista Necrobutcher. «O Hellhammer gravou o material mais depressa do que o planeado, portanto escolhemos um monte de covers para gravar, só para termos algo para se usar no futuro. Parece que fizemos a escolha acertada, já que não queríamos começar músicas novas até a digressão do “Daemon” estar terminada.»

«Acho que isto teve a ver com desfrutarmos de tocar, daquela maneira quando entras nas primeiras bandas», diz o guitarrista Ghul. «Encontramo-nos muitas vezes a brincar com covers nos ensaios e nos sound-checks, portanto foi bom gravarmos algumas e documentar esse aspecto de nós enquanto banda. As músicas ‘novas’ faziam parte do mesmo processo de composição de “Daemon”, mas não se encaixavam na visão geral do álbum. São deveras suplementares ao álbum.» No entanto, o outro guitarrista, Teloch, tem uma opinião diferente: «Para ser honesto, musicalmente, não vejo nenhuma destas músicas a não se encaixarem no álbum.»

«Este período teria sido perfeito para se começar a trabalhar num novo álbum, mas não somos o tipo de banda que se senta e trabalha num novo álbum só porque há uma pandemia.»

Qualquer metaleiro conhecedor da história do género que adora saberá que punk e hardcore são uma parte muitíssimo importante para o desenvolvimento do heavy metal e de todos os seus adjacentes ramos sónicos. As impressões digitais do punk, especialmente o mais feroz, estão por todo o lado – e black metal não é excepção. Amantes desse estilo musical, os Mayhem rematam o novo EP com versões de Dead Kennedys (“Hellnation”), Discharge (“In Defense Of Our Future”), Ramones (“Commando”) e Rudimentary Peni (“Only Death”), como se estivessem a pagar uma dívida por tudo aquilo que bandas como estas nos ofereceram para se evoluir.

«Escolhi as músicas de Deathstrike (“The Truth”) e de Death (“Evil Dead”) – ambas foram usadas como faixas-bónus no álbum», relembra Necrobutcher. «A minha outra contribuição foi trazer dois antigos membros por causa da sua óbvia ligação ao punk – o Maniac para a faixa de Dead Kennedys e o Billy Messiah para a faixa de Discharge.»

O baterista Hellhammer também deu o seu contributo. «Escolhi as músicas de Ramones e Discharge. Dead Kennedys também é muito porreiro e Discharge é uma das minhas bandas punk favoritas de sempre. Quanto a Ramones, têm um dos meus bateristas favoritos de sempre – o Marky Ramone! Tudo dito! Se não fosse pelo punk, os géneros de metal mais duros não soariam como soam hoje. Mais, claro que há a atitude de dizer NÃO e ser CONTRA.»

«Sempre tive influências no punk», acrescenta o vocalista Atilla. «Acho que vem da minha infância, quando andava constantemente à procura de mais música extrema. Foi assim que descobri Dead Kennedys, GBH, The Exploited, Sex Pistols, U.K. Subs, Discharge, Rudimentary Peni e por aí fora no início dos 1980s, assim como com o heavy metal. Mas depois descobri Venom – isso mudou tudo!»

Apesar dos planos de reconquista mundial com “Daemon” terem sido forçosamente contrariados, o lançamento do EP “Atavistic Black Disorder / Kommando” reforça a ideia de que nada faz parar Mayhem e de que a intensidade na performance das artes negras tem de prosseguir o seu caminho, mesmo que fora dos palcos. Todavia, para o grupo, o ciclo de “Daemon” ainda não está concluído, conforme Teloch assegura: «Este período teria sido perfeito para se começar a trabalhar num novo álbum, mas não somos o tipo de banda que se senta e trabalha num novo álbum só porque há uma pandemia. É demasiado fácil, e vejo toda a gente a entrar nessa onda. Que se f*da! É melhor não planearmos nada em vez de começarmos a compor e ver onde isso nos leva. Claro que sinto falta das digressões e ainda não valorizei quão afortunados fomos por termos a oportunidade de dar concertos pelo mundo todo como fizemos.»

Por fim, Necrobutcher remata como seu sentido de humor ácido: «Tive as minhas primeiras férias a sério no ano passado. As primeiras desde 1996 – portanto, esse ano merdoso não foi assim tão merdoso! Desde que voltemos ao normal em 2022, por mim tudo bem!»

Vozes ao alto, os Mayhem vivem!

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