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Make Them Suffer: «Existe uma epidemia de suicídio na nossa sociedade, e é horrível de ver»

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O novo álbum dos australianos do metalcore Make Them Suffer, “How To Survive A Funeral”, é mais do que apenas uma hipótese de um grande momento – é uma hipótese de se processar a dor.

Foto: Sandra Steh

Perth é uma das grandes cidades mais isoladas do planeta. Localizada na costa oeste da Austrália, fica mais perto de Jakarta, na Indonésia, do que de Sydney. O lugar mais próximo com uma população com mais de 100.000 habitantes é Adelaide, que fica a mais de 2000 quilómetros de distância.

Muito como Seattle no início dos anos 90, a sensação de isolamento transformou Perth num local de grande criatividade artística. O falecido actor Heath Ledger, vencedor de um Oscar, nasceu aqui, assim como Hugh Jackman, Isla Fisher e Tim Minchin também se formaram na cidade. O lendário vocalista dos AC/DC, Bon Scott, estabeleceu-se aqui depois da sua família se mudar da Escócia no início dos anos 1950, e é onde os prog-metallers de culto Karnivool se fundaram. É também aquilo a que os Make Them Suffer chamam de lar.

«Ser de Perth tornou as coisas ainda mais difíceis para nós», diz o vocalista e membro-fundador Sean Harmanis. «Existem apenas cinco outras cidades onde podes tocar, e é caro para nós fazermos isso. Só para fazer uma digressão pela Austrália tínhamos uma viagem de quatro dias ou tínhamos que reservar voos. Existem duas escolas de pensamento na nossa cidade: ou aceitas que estás preso ou queres sair e ver o mundo, e, para fazeres isso, tens de te esforçar mais do que todos os outros. Acho que é por isso que aqueles que conseguem sair alcançam tanto.»

Os Make Them Suffer ainda não estão ao nível de Joker e de Wolverine, mas estão certamente a avançar. Sean liderou a banda desde a sua formação em 2008, desde tocar-se deathcore rudimentar em salas dos fundos de bares para «menos de 40 pessoas» ao Top 30 das tabelas australianas (“Worlds Apart”, de 2017, entrou no número 29). Viajaram pelo mundo com pesos-pesados da cena, como Architects, Whitechapel e August Burns Red.

Muito disso deve-se aos avanços sónicos que fizeram no já mencionado “Worlds Apart”, um grande épico com uma temática ficção-científica que rasgou o seu trajecto metalcore, adicionando-se mais elementos progressivos e grandes melodias. O ímpeto que os Make Them Suffer sentiram foi tanto que deram o passo mais ousado da carreira, aventurando-se fora do confinamento da terra natal e mudando-se para Los Angeles, para gravarem o seguinte e quarto álbum “How To Survive A Funeral” com Drew Fulk, o produtor de Bullet For My Valentine, Motionless In White e Lil Wayne.

«Saímos sempre do processo de cada álbum a pensar que a produção era boa, mas não gostávamos disto ou daquilo, e não queríamos isso outra vez», explica Sean. «Sabíamos que tínhamos de acertar nesse álbum, tínhamos de nos mandar completamente ao processo.»

Sean foi atrás da ideia de gravar com Drew depois de uma conversa com um amigo que acabara de trabalhar com o produtor. «Tínhamos ouvido muitas coisas novas que o Drew havia produzido e adorámos o quão eclético ele era, e quando o nosso amigo em comum nos disse que ele estava a tocar a nossa música “Vortex” [de “Worlds Apart”], e a dizer-lhe quanto a adorava, decidimos ir em frente com ele», diz Sean. «Foi um risco enorme para nós ir até lá, mas precisávamos de sair da nossa zona de conforto.»

Foi uma jogada que inicialmente deixou as pulsações aceleradas, com Sean a admitir a pressão de ter que entregar um álbum do caraças, com um produtor de grande nome num país estrangeiro, ecoou na mente de todos. «Estávamos nervosos com isso», concorda. «Mas a editora, o nosso agente, o nosso pessoal da imprensa, foram todos muito positivos e apoiaram a ideia – eles forçaram-nos mesmo a fazer isto. Sem esse incentivo, poderíamos ter murchado um pouco.»

Os nervos não melhoraram pelo facto de estarem atrasados no trabalho para o maior álbum da sua carreira. «Foi a modos que feito por um capricho. Não quero dizer que estávamos sem preparação, tínhamos um considerável conjunto de riffs, mas chegámos com nada e saímos com um álbum», sorri Sean. «Queríamos apenas estar abertos a todas as ideias do Drew, sermos muito maleáveis. Nunca trabalhámos assim antes, mas muito do sucesso do álbum deve-se a nós termos incorporado o Drew no processo de composição. Nunca tínhamos trabalhado com um produtor do calibre dele, então era importante fazer isto.»

Essa abertura para as possibilidades daquilo que o álbum poderia ser desempenhou um papel importante na experimentação do disco. «Acho que a melhor maneira de trabalhar é seguir um cronograma muito rígido», diz Sean. «É pressurizado, mas contamos muito com a espontaneidade e, se não parecesse que se adequava – se colocássemos um gancho de dream pop ao lado de uma parte realmente metálica – não importava, porque tudo veio do mesmo conjunto de ideias. Então, tematicamente, mesmo as secções mais diferentes do álbum ainda parecem fazer parte do álbum geral.»

Tendo-se ido com quase nada, é incrível como a banda saiu do estúdio com o melhor álbum da sua carreira. Musicalmente, “How To Survive A Funeral” é selvagem, eclético, punitivamente pesado e sonicamente elevado, geralmente dentro da mesma música. Num minuto estás a ser brutalmente agredido por uma esmagadora batida de deathcore, a seguir és levantado por um refrão de pop puro, doce e açucarado ou uma paisagem sonora post-rock lindamente cadenciada. Mas, como Sean explicou, são os temas do álbum que tudo unem. Essencialmente, é uma exploração para lidar com o luto.

«Transformar algo sombrio em algo mais alegre é uma temática que permeia o disco – é essa justaposição», diz, antes de fazer uma pausa. «Isso e a morte. Desde o lançamento do nosso último álbum, muitos dos nossos amigos faleceram. Existe uma epidemia de suicídio na nossa sociedade, e é horrível de ver. Talvez seja exactamente a isso que estou a ser exposto, mas eu queria explorar isso, olhar para a escuridão e tentar desmistificá-la.»

É claro que Sean não quer ser muito pressionado sobre o assunto. Quando questionado sobre o que entende por epidemia, a sua voz, antes optimista e ensolarada, diminui para um engatinhar gaguejante enquanto tenta compreender o que passou. «Estamos tão desligados hoje em dia, não é?», encolhe-se. «Acho que as pessoas se sentem mais sozinhas, embora sejam constantemente informadas de que estão ligadas. Não acho que as redes sociais ajudem alguém, não acho que o facto de nos termos esquecido de interagir com pessoas reais, ou sair para desfrutar da natureza e obter um pouco de vitamina D do sol, ajude. Existem tantos factores que explicam por que é que mais e mais pessoas se sentem desamparadas – nem sei por onde começar…»

Sean pára. «Não quero que isto fique muito negro, devemos mudar de assunto.»

Seguimos em frente, o ponto de Sean foi esclarecido. “How To Survive A Funeral” não é um álbum de deathcore cheio de bravata, algo que deixa o seu criador muito satisfeito. «Bem, nós ouvimos mais rock alternativo, cenas com menos riffs – Radiohead, My Bloody Valentine –, e é importante mostrar essa ampla gama de influências», diz, antes de reflectir sobre o estado actual da cena metal no seu país natal. «Obviamente, o metal ainda é uma grande parte do que fazemos. É um tempo de doidos para o metal australiano, e o nosso objectivo é continuar a melhorar para que possamos continuar a ir ao Reino Unido, Europa e América, e atrair tantas pessoas lá como fazemos em casa. Agora temos o bichinho para isso, queremos continuar a ver o mundo todo.»

Consultar artigo original em inglês.

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