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Leeched “To Dull The Blades Of Your Abuse”

Estamos perante uma dieta singular de música extrema, crua e agressiva, de efeito simultâneamente cinemático e atmosférico.

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Editora: Prosthetic Records
Data de lançamento: 31.01.2020
Género: blackened hardcore / industrial / noise
Nota: 5/5

Noise not music… No Feelings… No Future… Vazios e desprovidos de quaisquer emoções, os Leeched surgem com uma filosofia existencialista, zombificados pelo sistema, caóticos e imprevisíveis, num frenesim controlado. “To Dull The Blades Of Your Abuse” reflecte o futuro duma realidade distópica num sistema empenhado na implosão do indivíduo e de uma geração nascida na merda, a sobreviver na merda, sabendo que vai morrer na merda. Rot n’ Roll. Três anos, um EP e dois álbuns, foi o tempo que Laurie Morbey (baixo/voz), Judd Langley (guitarra) e Tom Hansell (bateria) levaram a produzir este documento histórico.

Isto pode ser hardcore urbano-depressivo ou post-industrial com influências múltiplas do grind ao crust, d-beat, post-metal e por aí fora, mas a melhor definição para o segundo álbum do trio de Manchester deve ser left-field hardcore ou hardcore de primeiro escalão ao estilo do melhor dramatismo britânico. Por oposição ao modelo americano, este não se presta a vender bandanas, nem marcas desportivas. Isto é uma descarga eléctrica dirigida ao sistema nervoso central e periférico com efeitos secundários graves: pode causar náusea, asfixia, calafrios, convulsões, tremores, ansiedade e ataques de pânico.

O álbum foi pensado como um todo interligado num conjunto de dez composições impregnadas de sujidade e assentes na sobreposição de densas camadas de efeitos e distorção que disputam o volume com as vocalizações grind e hardcore.

Logo a abrir, um dos temas mais inventivos, “The Hound’s Jaw”, quebra todas as regras e impõe um autêntico suplício auditivo, preparando-nos para o cocktail de terrorismo sónico que nos irão servir. Daí para a frente, os Leeched vão, de explosão em explosão, produzindo uma música espasmódica e cerebral, no precipício entre a morte e a vida. As expectativas são enormes quando “The Grey Tide” se inicia, mas os primeiros segundos e uma entrada lo-foi à Ministry oferecem segurança – o que se segue é mais um cenário de guerra, com bombardeamentos consecutivos, onde tudo é revolvido ao testarem-se os limites à nossa capacidade de resistência num cenário de guerra. “I Flatline” entra com um riff elástico e enlouquecedor a sustentar uma muralha de ruído a roçar o ambient-noise, em contraste com a ferocidade da voz que se sobrepõe à cadência hardcore da bateria, para culminar em novo raid aéreo dentro das nossas cabeças.

Ao longo do álbum coexiste uma multiplicidade de sons distorcidos a partir do baixo e guitarra, que se sobrepõem entrecortados de forma alternada a uma velocidade estonteante, ora pelas pancadas secas e ritmos vertiginosos da bateria, por paragens abruptas e ofegantes, ora pelo uso e abuso de feedback. Não é o caso de “Now it Ends”, um dos temas mais lentos do álbum – mais arrastado e mais dramático -, em marcha ritualista, com um final decadente e apoteótico. “Famine At The Gates” traz mais feedback e um groove adaptado a um bem sacudido headbanging, bem suportado por uma riffalhada estridente e abrasiva, e pelo balanço equilibrado entre voz, bateria e um baixo demolidor. “Praise your Blades” é tortuoso, num cenário urbano caótico e estridente em hora de ponta. “Burn with Me” é um dos temas mais curtos do álbum em modo tribal, onde ainda assim se fala de ossos partidos, pulmões rasgados, costelas partidas e dentes partidos. Por último, mas não menos importante, e antes de “Black Sun Ceremony” (isto está quase a acabar), “Let Me Die” é curta e intensivamente excessiva.

A mensagem que os Leeched pretendem passar é fria e tragicamente honesta, pela voz dos que sobrevivem para a poder contar; outros há que se perdem, levados à deriva por vivências de terror extremo provocadas por um quotidiano inóspito em que o desespero e a angústia se instalam numa espiral agonizante até ao fim (há uma nota de suicídio disfarçada no último tema “Black Sun Ceremony”).

Pelo meio desta avalanche há ainda lugar para o experimentalismo, muitas vezes claustrofóbico e doentio, mas nunca estéril. Tal mérito deve-se consideravelmente à produção de Joe Clayton, que conseguiu fazer passar um elefante pelo buraco de uma agulha. Não há cá gorduras, nem verbos de encher – estamos perante uma dieta singular de música extrema, crua e agressiva, de efeito simultâneamente cinemático e atmosférico. A Academia fica por atribuir um Óscar para a melhor banda-sonora na categoria do thriller-por-realizar a este autêntico filme dos Leeched, quer pela consistência, quer pela intensidade e originalidade destes 35 minutos de música.

Já é conhecido o argumento apresentado por autor desconhecido: «Os grandes aterros sanitários de Manchester continuam a fazer vítimas na era pós-industrial, a quantidade de lixo produzido e as incessantes monções contaminaram as águas, transformando toda a cidade num gigantesco pântano cinzento. O futuro, como já se vê, é negro. Há corpos a vaguear em busca de uma réstia de humanidade por entre os pilares e estruturas metálicas ferrugentas que noutro tempo encerravam os seus abrigos em prédios ao alto na paisagem. Os edifícios que davam quatro paredes a uma apatia generalizada e à solidão, a abusos e perversões, ruíram, e a crescente desumanização e promiscuidade alastra pelas ruas deixando à solta todo o tipo de demências. A poluição, a gentrificação e as alterações climáticas vieram propiciar condições para o desenvolvimento e gestação descontrolada de uma nova espécie de vermes anfíbios que encontram alimento nas entranhas de outros animais. Uma vez aí alojada, esta nova espécie mantém vivo o seu hospedeiro até criar condições para se autonomizar na busca de um próximo. De entre todos os mamíferos, o ser humano, dada a abundância e a constante necessidade de ingestão de água, constitui o melhor habitat para que este predador silencioso se possa desenvolver e multiplicar, como uma bactéria ou um vírus. Uma vez reunidas estas condições, estes organismos já demonstraram ser capazes de resistir por mais de dois mil anos no mesmo hospedeiro, alimentando-o e impedindo-o de morrer, mantendo-o numa condição vegetativa, desprovida de total autonomia emocional e de total e primitiva dependência após o primeiro ano de vida.»

Já se vislumbra um longo prazo de validade para este power trio, quer pela energia criativa, quer pela força agitadora que emana de “To Dull The Blades Of Your Abuse”. Justiça seja feita a um registo que se iguala hoje a álbuns tão impactantes como “Filosofem” de Burzum no black metal, “Psychocandy” de Jesus & The Mary Chain na pop ou “Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing” de Discharge no punk. Em três anos, e ao segundo álbum, Laurie Morbey, Judd Langley e Tom Hansell são protagonistas de um novo capítulo na história da música extrema.

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