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Lake of Tears “Ominous”

No decorrer de nove faixas tornamo-nos a companhia e a tripulação da nau cósmica de Daniel Brennare, sem rotas ou portos de chegada, apenas a expansão do espaço em toda a sua vasta solidão, ao sabor das sensações.

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Editora: AFM Records
Data de lançamento: 12.02.2021
Género: industrial/gothic metal
Nota: 4.5/5

No decorrer de nove faixas tornamo-nos a companhia e a tripulação da nau cósmica de Daniel Brennare, sem rotas ou portos de chegada, apenas a expansão do espaço em toda a sua vasta solidão, ao sabor das sensações.

Já passa praticamente uma década desde que o navegante cósmico cruzou os eternos mares musicais e deixou como registo da sua passagem o intrigante “Illwill”. Saídos dos diários de bordo da actualidade e a ignorar bússolas e astrolábios, os suecos Lake of Tears formaram-se no início dos anos 1990 através da inquietação e dos experimentalismos sem precedentes dessa década, tal e qual um laboratório de inumeráveis possibilidades de onde saíram Tiamat, Lacrimas Profundere, Katatonia, Moonspell, Novembers Doom e, claro, a tão sagrada tríade britânica – Paradise Lost, Anathema e My Dying Bride.

Ainda que tenham feito parte de tal década, Daniel Brennare & Cia. sempre estiveram na sala reservada aos coadjuvantes, talvez por causa das suas ideias vanguardistas, pelo apego ao rock progressivo ou por não se adequarem ao racional da época. Facto é que a banda sempre primou por uma evolução mais subtil em detrimento das transformações bruscas que muitos dos seus pares apresentaram no decorrer dos anos. Os seus discos sempre foram preenchidos por uma personalidade distinguível, marcada pela constante maturação de ideias, transição e pelo acréscimo de novos elementos, sabores campesinos, texturas e noções que iam de viagens psicadélicas a cordiais nuances de folk.

“Ominous” é ambientado na modernidade e amparado por um pensamento que se dobra tanto para o passado quanto para o presente, valendo-se de diversas direcções e emitindo sensações que variam da nostalgia à melancolia. É um álbum que se desenha sobre páginas que aceitam tanto cores vivas e futuristas quanto paletas mais austeras e apegadas a uma exibição musical vintage. Se por um lado se ouve uma respiração que alcança o seu oxigénio em David Bowie, Sisters of Mercy, Fields of the Nephilim e Pink Floyd, por outro temos uns Lake of Tears totalmente trajados de si mesmos, aliando singeleza à serenidade e criando divagações sonoras que seguem a máxima ‘o simples não permite erros’.

Em primeiro plano temos extracções como “At the Destination”, “The End of this World” e “Lost In a Moment”, faixas carregadas de tensões, flirts industriais e experimentais, cujo dinamismo mira a nomes como Samael e Crematory, embora a voz de Daniel Brennare nos lembre a todo o instante que ouvimos Lake of Tears. Tais faixas podem causar uma certa estranheza e desconforto a princípio, mas vão seduzindo conforme o disco vai avançando e desenvolvendo, para além de fornecer um interessante contraste ao mesmo. “In Wait and in Worries”, “Ominous Too” e “Cosmic Sailor” remetem aos belíssimos “A Crimson Cosmos” (1997) e “Forever Autumn” (1999) devido à sua proximidade estética e musical.

Como bónus temos o momento mais próximo ao lado mais rústico e bucólico de outrora dos Lake Of Tears com a intimista “In Gloom”, apenas com guitarras acústicas, violoncelos, composição discreta, frases de guitarra que se limitam a ornamentar e a voz muito peculiar e emotiva de Brennare. Como dito, o simples não permite erros, e é justamente aí que reside a beleza de tal composição.

“Ominous” ficará marcado por ser um regresso, mas não aos velhos tempos. É um retorno à eterna aprendizagem que é a música, essa eterna navegação pelo cosmos no seu esplendor de harmonias e melodias, simétricas ou não, vindas das esferas celestes. No decorrer de nove faixas tornamo-nos a companhia e a tripulação da nau cósmica de Daniel Brennare, sem rotas ou portos de chegada, apenas a expansão do espaço em toda a sua vasta solidão, ao sabor das sensações. O destino da viagem? Talvez jamais tenha existido um.

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