#Guitarrista

Artigos

Laibach: a revolução continua

Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia

Publicado há

-

Laibach nos 2010s

Quando pensamos em artistas subversivos e controversos, os primeiros nomes estão obrigatoriamente ligados ao mainstream. Alice Cooper e Marilyn Manson pela estética e mensagem, Mötley Crüe e Guns N’ Roses pelos abusos fora do palco – quatro exemplos que bastam bem para assentarmos a nossa premissa. Mas como o mundo é enorme e todos os dias se descobrem novas coisas, da arte à ciência, há mais de polémico para além do que a maioria conhece. Uma dessas bandas é Laibach. Grupo de rock industrial e electrónico, que tem alguns dos seus fãs na cena metal, o colectivo fundou-se no Verão de 1980. Mas o que há de tão importante nesta banda eslovena?

A questão é mesmo essa, e uma das razões pelas quais não mencionámos de imediato a sua nacionalidade passa precisamente pelo nome. Laibach é um nome ancestral para Ljubljana, a capital da Eslovénia, e por mais antigo que seja, remontando à Idade Média, a designação da banda está ligada à ocupação nazi do país durante a II Guerra Mundial. Reparemos: em 1980, a Eslovénia ainda fazia parte da Jugoslávia, um super-estado comunista; logo, a denominação aliada à postura militarista e de totalitarismo da banda não conjugava muito bem com aquela sociedade. «Escolhemos esse nome exactamente pelo seu conteúdo problemático, explosivo e conflituoso», disseram numa entrevista.

Laibach nos 1980s

Como já deu para perceber, a postura e a atitude atiçavam a fogueira. De forma ambígua, os Laibach sempre se rodearam de parafernália militarista e autoritária, nunca se sabendo ao certo que tipo de ideologia defendem. O truque mestre está aí – a banda defende a sua própria ideologia, criada artisticamente para subverter o país de origem e depois o mundo. O seu Estado ficou conhecido como Neue Slowenische Kunst (NSK), uma soberania abstracta com o seu próprio manifesto e passaportes, uma região intelectual que justapõe música rock, industrial e hínica, arte Dada e Suprematista (movimento fundado pelo russo Kazimir Malevich), imagética da Alemanha nazi misturada com a da Jugoslávia comunista. Confuso? Imagine-se então na década de 1980… Para o célebre filósofo marxista Slavoj Žižek, «a singularidade do NSK é a ideia do ‘Estado sem Estado’», disse à BBC em 2017.

As letras, essas não vão por um caminho diferente. Uma das mais famosas músicas da banda intitula-se “Tanz mit Laibach” (“Dança com Laibach” em português), do álbum “WAT” (2003), e numa das estrofes pode ouvir-se: «Dançamos com Ado Hinkel / Benzino Napoloni / Dançamos com Schiekelgrüber / E dançamos com Maitreya / Com totalitarismo / E com democracia / Dançamos com fascismo / E anarquia vermelha». Tão específico como, novamente, ambíguo. Anos mais tarde, em 2014, lançaram o fabuloso “Spectre”, um álbum em que aprimoraram a sua ala pop e em que, outra vez, deixaram ao sabor da maré aquilo que defendem politicamente ao criarem um conceito estatal anticapitalista que tanto pode apelar a comunistas como a nacionalistas.

Mas regressemos aos anos 1980. Milan Fras pode ser a cara mais reconhecida em Laibach pela sua pose recta e voz profunda, mas, e antes de ser quem é, houve alguém ainda mais extremo a caminhar ao seu lado – falamos de Tomaž Hostnik. Co-autor do manifesto e escritor da “Apologia Laibach” (uma versão poética do referido documento), Tomaž (ou Ivo Saliger quando sob pseudónimo) teve uma das mais memoráveis actuações no festival Novi Rock, em Ljubljana, em Setembro de 1982, quando surgiu a envergar um uniforme do exército jugoslavo e com grandes parecenças ao sérvio Slobodan Milošević, que ascendeu ao poder anos mais tarde. Durante o concerto, uma garrafa foi-lhe arremessada, cortando-lhe a face, mas foi até ao fim. O seu último concerto aconteceu a 11 de Dezembro em Zagreb, Croácia, tendo Tomaž cometido um suicídio ritualista a 21 de Dezembro, enforcando-se num dos mais poderosos símbolos nacionais eslovenos – o kozolec (uma espécie de palheiro facilmente encontrado na Eslovénia). No website da banda está escrito: «Laibach reprovou o seu acto de suicídio e postumamente expulsou Hostnik do grupo, fazendo-o regressar à sua identidade privada.» Ainda assim, a banda continua a referi-lo.

Na foto: Tomaž Hostnik

Adiante, em Abril de 1983 recomeçaram as actividades e com isso mais uma tempestade de polémica. Depois da cobertura mediática aos concertos com os ingleses Last Few Days e 23 Skidoo, os Laibach sabiam que tinham de elevar a fasquia. Mais uma vez em Zagreb, numa actuação que ficou conhecida como “Mi kujemo bodočnost” (“Nós construímos o futuro” em português), a banda projectou simultaneamente pornografia e o filme “Revolucija še traja” (“A revolução continua” em português). Pior: o grupo acabou por ter que sair do palco quando um pénis foi projectado ao mesmo tempo que o falecido líder da Jugoslávia, Josip Broz Tito. Os Laibach seriam banidos.

Todavia, esse desterro fez com que se fixassem em zonas como o Reino Unido, onde, para além de trabalharem em tudo o que desse para trabalhar, começaram a conquistar o submundo global. Participaram no filme “Full Metal Jacket”, de Stanley Kubrick, gravaram para John Peel, assinaram pela Mute Records e galvanizaram-se com versões – ou subversões, diremos – de temas como “Life is Life” (Opus), “Let It Be” (The Beatles) ou “Sympathy for the Devil” (The Rolling Stones).

Super-estrelas do submundo – e não confundir com underground –, os Laibach, que já passaram várias vezes por Portugal, foram parar à Coreia do Norte em 2015 para participarem nas comemorações dos 70 anos da libertação do poder japonês, o que resultou em dois concertos, numa menção no mundialmente famoso “Last Week Tonight with John Oliver” e no alucinado documentário “Liberation Day”.

A banda comentou: «Os norte-coreanos não sabiam nada sobre nós até a algumas semanas antes de chegarmos, quando alguém da Europa os informou sobre todas as controvérsias que Laibach é capaz e que estava a produzir. Mas já era tarde para cancelar o convite – já estávamos praticamente no país. Talvez por causa de todo aquele rebuliço, eles receberam-nos até com mais cuidado e bondade, e até com um pouco de humor.»

Sobre a actuação, explicaram: «A Coreia do Norte é um lugar muito diferente do resto do mundo. A recepção do público ao nosso concerto (…) foi muito ‘cultural’. Os norte-coreanos, aparentemente, nunca ouviram tal música (como Laibach) antes, então não sabiam mesmo o que pensar sobre aquilo, mas reagiram educadamente, aplaudindo após cada música, e no final do concertos aplaudiram-nos de pé (ou talvez estivessem apenas felizes por ter acabado; o embaixador da Síria estava certamente – ele não gostou muito do programa –, comentando que ‘estava muito alto – quase como uma tortura’). Choe Jong-Hwan, um visitante coreano mais velho, fez uma declaração após o concerto, a dizer: ‘Não sabia que esta música existia no mundo e agora sei.’»

Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia – os Laibach são tudo isso em nome do Neue Slowenische Kunst, só e apenas. «Analisamos a relação entre ideologia e cultura e entre arte e política, a nossa linguagem é política, mas não somos activistas políticos e não lidamos com a política diária.» Para a história fica uma célebre frase que lhes és inexoravelmente atribuída: «Somos tão fascistas como Hitler era pintor.»

Foi apenas no Sec. XXI – depois da declaração de independência da Eslovénia em 1991, da consequente desintegração da Jugoslávia em 1992 e do conflito bélico entre 1991-2001 conhecido como a Guerra da Jugoslávia – que os Laibach foram considerados pelo seu país como um tesouro nacional na área da cultura, sendo vistos como pioneiros da música experimental e da expressão alternativa com o condão de terem influenciado movimentos como a Neue Deutsche Härte, onde se inclui Rammstein, Oomph! e Megaherz. O legado é grande e a revolução continua.

Facebook

Destaques

Notícias

Artigos

Mundo das Guitarras © 2021