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Korn: “The Nothing” música a música

Quando os Korn anunciaram o novo álbum “The Nothing”, e tendo em conta a morte trágica da esposa de Jonathan Davis em Agosto do ano passado, ninguém se iludiu ao ponto de pensar que o novo material da banda não seria extremamente negro.

Davis foi sempre capaz de canalizar as suas angústias mais profundas e negras na sonoridade da banda, e é uma das razões pelas quais os Korn conseguem estabelecer uma ligação tão forte com os fãs.

Este novo disco, cujo título se refere à força misteriosa do filme de fantasia “The NeverEnding Story”, de 1984, não deixa nenhum murro por dar quando se trata de lidar com a tragédia, a perda, a morte e o luto, assim como toda a negatividade que nós humanos batalhamos ao longo das nossas vidas.

Mergulhamos bem fundo neste disco, de faixa angustiante em faixa angustiante, para vos trazer a mais completa review possível, partilhando ainda comentários do próprio Jonathan Davis.

1. The End Begins

Faz-se ouvir a gaita-de-foles e somos imediatamente transportados para o território da velha guarda dos Korn. Jonathan Davis canta com uma voz baixa, lenta e paranóica: «Porque me deixaste? Agora eles estão livres e vêm atrás de mim.»

Mais frases são repetidas até que Jonathan Davis se desfaz num choro desesperante. É a mesma emoção crua ouvida em “Daddy” cruzada com o drama presente em “Dead”, a introdução do álbum “Issues”.

«Sempre afirmei que não iria tocar gaita-de-foles em todos os discos pois seria previsível», disse Jonathan à Metal Hammer. «Deixaria de ser especial. Por isso sim, quis gravar uma introdução com a gaita-de-foles inspirada no que fiz em “Issues”. Toda a dor e as coisas doidas pelas quais passei podem ser ouvidas nesses interlúdios.»

A dor a que Jonathan Davis se refere inclui ter perdido a mãe e a esposa, que é largamente ampliada neste tema e neste disco, um dos mais pessoais dos Korn.

2. Cold

“Cold” foi o segundo single a ser extraído de “The Nothing” e um tema que agarrou a atenção dos fãs, com muitos a declararem que deveria de ter sido o primeiro a ser lançado. É fácil perceber o porquê: é pesado e incontestavelmente old-school desde o início.

O tema expõe o talento de cada um dos membros, aproximando-se da sonoridade inicial da banda enquanto se mantém fresco e vital. Jonathan Davis dá tudo nos vocais, exibindo uma das performances mais diversificadas da sua carreira, com as melodias clássicas e o scatting singular a aliarem-se a growls a ferver de raiva que estão tão no ponto que poderiam ser confundidos com um sintetizador.

3. You’ll Never Find Me

Foi o primeiro tema dado a conhecer aos fãs. A introdução é indiscutivelmente Korn, com um refrão comercial que soa a anos 90. O colapso que se faz ouvir perto do final da música oferece um bom contraste com a restante vibe melosa, o que acaba por se traduzir na calma que vem antes da tempestade. A generalidade do tema consegue encapsular com sucesso uma verdadeira sensação de turbulência e angústia.

4. The Darkness Is Revealing

A forma como os riffs propulsivos de temas como “Rotting In Vain”, do álbum anterior “The Serenity Of Suffering” ecoam, e a rapidez com que Jonathan Davis debita os vocais na fase final, faz deste tema um documento sincero de luto. É como um diário que é lido em voz alta, com Jonathan a fazer-nos chegar a difícil pergunta: «Como podemos iniciar a cura? A escuridão está a revelar-se.»

«É uma das questões presentes na minha mente», diz-nos. «Vives um dia de cada vez. É algo que nunca te abandona. Já não choro todos os dias mas chorar ajuda a deixar as coisas saírem ainda que nunca se vão embora de vez.»

5. Idiosyncrasy

Uma das músicas mais pesadas no catálogo recente dos Korn. Começa com a sonoridade clássica e com Head e Munky a protagonizar um ataque de riffs que providenciam ao tema uma introdução intensa, qual soco na cara.

É então que Jonathan Davis entra e oferece-nos os growls de death metal que tem vindo a aperfeiçoar ao longo da última década, antes que um refrão catchy nos atire para o lado.

O melhor momento da música encontra-se definitivamente na secção do meio quando um riff industrial amassa-nos e Jonathan Davis faz-nos estremecer com “Deus está a gozar-me, está lá em cima a rir-se, não consegues ver?”, dito de dentes cerrados.

6. The Seduction Of Indulgence

Com apenas dois minutos de duração, esta faixa pode ser vista como um interlúdio, construído com base num compasso militar e numa série de elementos electrónicos inquietantes. Davis canta durante o primeiro minuto até que entra em ponto de ebulição com “Matam-me, violam-me, tocam-me, esfaqueiam-me” até à música atingir o clímax. Curta e certamente não muito doce.

7. Finally Free

Inicia-se com tons estranhos de guitarra e posteriormente dá lugar ao groove e às linhas vocais melancólicas de Davis. O vocalista oferece ainda um grande refrão, muito ao estilo daquilo que os Korn construíram durante a segunda metade da sua carreira.

É quando sentimos que já ouvimos tudo o que “Finally Free” tinha para oferecer que é largado um breakdown gigante como se de uma bomba atómica se tratasse. Dinâmica e brilhante.

8. Can You Hear Me

“Can You Hear Me” é simplesmente algo que nos faz arrepiar a espinha. E a letra?

“Consegues ouvir-me? Pois estou perdido e posso nunca mais regressar. E enquanto o meu coração prossegue, eu sei que nunca mais serei o mesmo.”

O conteúdo lírico só por si é suficientemente forte para nos deixar com pele de galinha, quer estejamos ou não a par da perda trágica de Jonathan Davis.

Dá-se ainda uma personificação do luto com a angústia vocal que se faz ouvir entre os versos, como se o vocalista procurasse separar-se de si mesmo para tentar evitar a dor que o assola.

Ainda que a melodia possa ser dos elementos mais comerciais presentes neste disco, não restam dúvidas de que se trata de uma balada potente que exibe a habilidade da banda em criar música diversificada e manter-se autêntica e reconhecível.

9. The Ringmaster

Jonathan Davis sempre apresentou diferentes personalidades no seu registo vocal e em “The Ringmaster” podemos constatar isso mesmo.

Musicalmente não está muito afastado do que ouvimos em 2013 com “The Paradigm Shift”, com o registo tipicamente idiossincrático do baterista Ray Luzier a fazer-se notar. A meio, Davis perde as estribeiras e oferece-nos o ponto alto da música com o seu scatting.

10. Gravity Of Discomfort

A iniciar com o som grave e elástico do baixo de Fieldy, somos imediatamente remetidos para um registo que nos faz recordar a era de “Untouchables”.

Tal como é possível verificar na maior parte deste disco, o vocalista parece estar a lidar com vários problemas que dominaram a sua vida no último ano.

São os Korn a evoluir a sonoridade do passado e a trabalhar com a sua própria catarse, soando de forma gloriosa.

11. H@rd3r

Aqui, Jonathan Davis está novamente no topo. O lamento que precede o refrão afecta-nos massivamente. Surge então um refrão que é ao mesmo tempo catchy e perturbador.

Esta faixa assume um estranho rumo a meio, com um growl de death metal a contrastar com um trabalho de guitarra simples mas astuto, até que Luzier envereda a 100% pelo drum and bass.

O tema fecha com um clímax massivo, onde Head e Munky levam-nos ao peso do álbum de estreia dos Korn e Luzier acompanha-os num blastbeat ao estilo do thrash metal.

12. This Loss

“This Loss” é uma jornada apropriada para este “The Nothing”, que aqui começa a chegar ao fim. O destaque vai para o estilo de jazz lounge que é adoptado no tema e que nos faz recordar “Happiness Is A Warm Gun”, dos Beatles.

Trata-se de um truque que nunca deram a conhecer na sua carreira e que é, francamente, algo muito bom de se ouvir. Há uma tonalidade gelada de guitarra e vozes melancólicas que dão depois lugar ao gutural e a um refrão bem afiado. Sem dúvida um dos momentos altos do disco.

13. Surrender To Failure

Um dos temas mais lentos do disco e possivelmente o mais difícil de ouvir. Com uma batida de bateria que nos induz num ambiente ao mesmo tempo majestoso e ansioso, Jonathan começa a trabalhar rumo à conclusão do disco. Fala-nos sobre sentir-se perdido, como Deus já sabia o que iria acontecer, e partilha a sua teoria de que foi devido às suas boas acções que vê-se assolado pelos infortúnios.

«Sinto que fui sempre perseguido durante toda a minha vida devido a todo o bem que fiz», explica-nos. «Há uma parte no disco em que digo: “Por cada boa acção que fiz há um preço a pagar, e esse preço deixou-me horrorizado”. Neste disco sou basicamente eu a lidar com isso.»

“Surrender To Failure” termina partindo-nos o coração, com “Eu falhei… Eu falhei… Eu falhei…”. Este é o álbum mais doloroso dos Korn até à data e um testamento da vulnerabilidade destemida e força interior face à tragédia de Jonathan Davis.

Lê o artigo original aqui.

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