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Khemmis: mágoa, dor e ânsia por esperança

O trio norte-americano explica o conceito do novo álbum e como foi o processo de composição entre batalhas com origem na saúde mental.

Foto: Jason Sinn

«É o nosso álbum mais negro até agora.»

Com popularidade a crescer imenso desde pelo menos o segundo álbum “Hunted” (2016), os doomsters Khemmis regressam aos discos com o quarto “Deceiver”, composto por seis faixas de heavy metal desolado, ainda que energético, e melódico. A cozer durante quase três anos, o título reflecte as lutas internas que enfrentamos no nosso quotidiano numa peça musical ferozmente honesta que discorre ao longo de cerca de 40 minutos.

Sobre a temática, o vocalista/guitarrista Phil Pendergast explica através da Nuclear Blast: «Todas as músicas são sobre as várias maneiras com que somos iludidos a acreditar em histórias sobre nós – que estamos despedaçados, que não somos bons o suficiente, que a nossa genética determina o nosso destino. Este título é o rótulo que metemos nas nossas mentes como um força que nos ilude a acreditar nestas histórias. A trajectória lírica do disco é semelhante à descida de Dante a um inferno criado por nós. É o nosso álbum mais negro até agora.»

O também vocalista/guitarrista Ben Hutcherson acrescenta: «Enquanto as nossas mentes e corações são responsáveis por este tipo de logro, o mundo à nossa volta também o é. Há uma dialética entre os dois que produz sofrimento. Qualquer pessoa que tenha batalhado com saúde mental ou que tenha sofrido algum tipo de trauma vai dizer-te que houve momentos em que a mente é a sua própria besta, que tem de ser disputada. Nesse sentido, tornamo-nos os enganadores de nós próprios. Acreditamos que merecemos ser o veículo desta dor e deste sofrimento que nos é infligido externa e internamente.»

A promoção ao álbum começou com o single “Living Pyre”, que significa muito mais do que apenas o início de um novo empreendimento na carreira da banda. Isto é, uma referência substancial para dificuldades emocionais e crescimento. «No que toca à minha saúde mental, quando estou numa situação má, não consigo aceder à parte de mim que cria arte», revela Hutcherson. «Após compreender isso em mim, o grosso desta música surgiu de uma só vez. Estava a sentir-me estável. Estava confiante, embora muito do mundo lá fora não fosse exactamente inspirador. Todos nós precisamos de uma razão para sentirmos um rasgo de esperança.»

Em relação às letras, Pendergast continua: «A razão pela qual esta música surgiu em primeiro liricamente foi porque eu estava a jogar com todas as coisas que estavam a acontecer no mundo. Acho que todas as letras são muito actuais. Estava a acontecer tanto neste mundo, e essas letras foram apenas a minha tentativa para disputar isso. Como com o Ben, este foi um momento de superação para mim. Logo que sacámos esta música, isso permitiu-me escrever outras para o álbum. É menos sobre a metáfora do fogo subentendida no título e mais sobre o facto de que para escaparmos do fogo temos de encontrar água. Encontras a caverna mais profunda e negra… Apenas queres ficar ali para sempre. Enche lentamente e, eventualmente, afogas-te.»

«Este quarto álbum, especialmente após a transição entre os dois anteriores, é muito libertador.»

No alinhamento encontramos também “House of Cadmus”, mais um esforço colaborativo entre os três membros de Khemmis. «Achei que o riff de abertura tinha um balanço porreiro… mas malvado», recorda o baterista Zach Coleman. «Fui atraído à atmosfera desse primeiro riff, e achei que tinha de ser uma música negra do princípio ao fim. O Ben e eu discutimos a ideia de se incluírem algures no álbum uns sons ao estilo de New Orleans, e acho que foi aqui que conseguimos meter alguns e que se ligam a outros aspectos da música.»

«Sei que queria que a linha da guitarra lead na segunda parte da música se ligasse a duas partes muito diferentes», prossegue Hutcherson, «mas a ideia era realmente abstracta até estarmos juntos na mesma sala. Só quando tocámos uma ponte muito funeral/doom metal e lenta é que descobrimos o que queríamos que essa linha fosse: memorável e emotiva. Foi um momento musical muito honesto».

O processo de composição e gravação de “House of Cadmus” foi tão emocionante que até o produtor Dave Otero encontrou a sua ligação profundamente pessoal e intensa à canção. «Inspirei-me no imaginário do Dave para a viragem final das letras», revela Pendergast. «É a ideia de uma pessoa que abandona algumas partes importantes de si enquanto navega para longe e deixa aquilo que ama na costa. O som desta música é como a luz de um farol que corta o nevoeiro numa noite negra marítima.»

Enquanto a temática lírica de “Deceiver” – que inclui mágoa, dor e ânsia por esperança – é indubitavelmente familiar aos fãs de longa data, as novas seis composições apresentam uma ampla colecção de influências musicais, que vão do doom e heavy metal mais clássico ao death metal sueco, tudo com um toque de contemporaneidade. «Este quarto álbum, especialmente após a transição entre os dois anteriores, é muito libertador», comenta Coleman. E Pendergast conclui: «Há aqui muita coisa que nunca fizemos antes. Nalgumas áreas fica sombriamente psicadélico. Acho que encontrámos uma maneira porreira de mudar as coisas usando-se transições que penso que são muito naturais. Há uma simetria subtil entre as músicas, que é uma das coisas que faz com que a audição completa do álbum seja uma experiência holística satisfatória. Começa quase do nada, torna-se muito negro e depois rastejas lentamente para fora do círculo mais baixo do inferno.»

“Deceiver” foi lançado a 19 de Novembro de 2021 pela Nuclear Blast.

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