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Kari Rueslåtten “Sørgekåpe”

Saído dos bosques nas montanhas da Noruega, “Sørgekåpe” é um álbum preenchido por magníficas composições, com arranjos apurados, numa vasta teia de vibrantes e complexas subtilezas. Gélido e divinal.

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Editora: Spindelsinn Recordings
Data de lançamento: 08.05.2020
Género: neo-folk
Nota: 4.5/5

Saído dos bosques nas montanhas da Noruega, “Sørgekåpe” é um álbum preenchido por magníficas composições, com arranjos apurados, numa vasta teia de vibrantes e complexas subtilezas. Gélido e divinal.

Kari Rueslåtten é uma das protagonistas mais discretas no universo da tão apregoada cena das female-fronted metal bands, apesar da sua relevância e pioneirismo no projecto gothic/doom The 3rd And The Mortal e de significativas colaborações com Fenriz (Darkthrone) e Satyr (Satyricon) na gravação de “Nordavind”, do projecto folk metal Storm, em 1995, com Thomas Holopainen (Nightwish) em 2013 e com o colectivo The Sirens, ao lado de Anneke Van Giersbergen (The Gathering) e Liv Kristine (Theatre of Tragedy) entre 2014 e 2016.

A opção por uma formação clássica e por uma carreira a solo de orientação neo-folk fez com que encetasse por uma discografia em nome próprio com a estreia de “Spindelsinn” em 1997. “Sørgekåpe” – o oitavo álbum de originais que agora edita – é composto por nove temas marcados por uma intensa melancolia, por um ambiente sombrio e bruxuleante, e pelo exotismo da língua materna da norueguesa. O registo límpido e cristalino na voz frágil e angelical da autora sobressai por entre o instrumental maioritariamente acústico complementar à carga emocional e à toada intimista que caracterizam este álbum enraizado na música tradicional nórdica.

“Sørgekåpe”, o single de abertura que dá título ao álbum, define um tipo de borboleta que se distingue pelo negro das suas asas – espécime autóctone da Noruega identificada como Nymphalis antiopa pela comunidade científica. O tema desvenda de imediato o spleen que predomina ao longo de todo o registo nos primeiros acordes de Jostein Asnes, o guitarrista e produtor com grande protagonismo na sonoridade alcançada. À entrada da voz, a guitarra inicia um outro ciclo que ressurge à medida que a canção progride e se torna reminiscente do instrumental “Saudade”, um tema incluído no álbum “The Seventh Dream of Teenage Heaven”, de Love And Rockets. A acompanhar a vocalização delicada da norueguesa encontramos aqui e ali os acordes de guitarra dispostos em camadas e pontuados por detalhes de percussão, uma entrada discreta do piano de Kari e o ressoar grave do baixo de Gjermund Silset que ocupa o espaço deixado livre entre todos os instrumentos.

“Svever” assinala uma mudança de tempo para um contexto mais dinâmico e animado por uma folk semi-acústica que baila impetuosa e festiva no tema em que a bateria de Stian Lundberg mais se faz notar. A avaliar pelo fascínio dos nórdicos pelo género americana, já é altura de encaixar temas como este num género a que poderíamos chamar de nordicana. Até meio do álbum ouvimos “Månen lyser ned” e “Når mørket faller”, dois momentos pop de um lirismo assombrado em que a autora explora a sua amplitude vocal, através de interpretações profundas e eloquentes, sem exageros que possam ofuscar a prestação dos restantes instrumentos. “Når mørket faller” oferece-nos uns emocionantes apontamentos de violoncelo, recupera o acorde de guitarra do referido tema dos Love And Rockets e encerra numa tonalidade mais ao género americana.

“Blind” dá continuidade à cadência dolente com que Kari Rueslåtten se apresenta ao piano. O registo acústico e eléctrico da guitarra, em alternância ou em sobreposição, evolui até que um breve solo de violoncelo anuncia o final atmosférico criado no sintetizador. “Alt brenner nå” dá entrada na segunda parte do álbum com um registo mais up-tempo que assume algumas influências da música tradicional da Noruega e da música celta. “Savn” é como um canto de sereia, uma fábula encantada que recorre apenas à guitarra acústica e à voz para uma composição melódica e enfeitiçada muito por culpa do efeito das notas longas dos teclados. “Øye for øye” rompe com o resto do álbum num tema que não chega aos dois minutos e reclama ‘olho por olho’, recriando algumas das atmosferas soturnas da fase mais recente de Tom Waits iniciada em “Mule Variations”. “Storefjell” é deliciosamente estranho e negro. Sente-se a respiração na dicção quase sussurrada e cristalina que Kari dá à maioria destes temas, enquanto os sintetizadores se ocupam na criação dum cenário de mistério onde se pressente tragédia e em que a percussão anuncia trovoada. “Sørgekåpe” encerra assim sobre uma perversa melodia criada pelos teclados de Frode Flemsæter.

Saído dos bosques nas montanhas da Noruega, “Sørgekåpe” é um álbum preenchido por magníficas composições, com arranjos apurados, numa vasta teia de vibrantes e complexas subtilezas. Gélido e divinal.

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