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Judas Priest: a história de “Sad Wings of Destiny”

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Em 1976, os Judas Priest lançavam o seu revolucionário álbum “Sad Wings of Destiny”. A Metal Hammer conta a história do disco.

Os Judas Priest são os pais do metal moderno. Enquanto os Black Sabbath, virtualmente, criaram o género e Iron Maiden, Metallica, Slayer e Pantera aprimoraram e desenvolveram o estilo, foram os Priest que deram ao metal forma e foco em meados dos anos 1970. Deles era o trampolim musical a partir do qual outros iriam catapultar-se para lendas.

Os Priest começaram em 1969, quando o guitarrista KK Downing e o baixista Ian Hill decidiram transformar a sua amizade de infância em música. Um ano depois, o vocalista Al Atkins entrou em cena. Juntou-se à dupla depois da sua banda anterior se ter separado. Crucialmente, Al convenceu a dupla a usar o nome do seu antigo grupo: Judas Priest (em homenagem à canção de Bob Dylan, “The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest”). Com Glenn Tipton, de The Flying Hat Band, na guitarra e Alan Moore na bateria, a jovem banda fez uma digressão pela área local, apoiando nomes como Thin Lizzy e Budgie.

Em 1974, Al e Alan saíram devido a problemas financeiros. Um Rob Halford apareceu para cantar, enquanto John Hinch foi recrutado para a bateria (um dos muitos que ocuparam o banco ao longo dos anos – na primeira década, a banda teve grandes problemas neste departamento). John e Rob já tinham trabalhado numa banda chamada Hiroshima.

No mesmo ano, os Priest assinaram com a editora Gull e gravaram o álbum de estreia “Rocka Rolla” com o produtor Rodger Bain. Não foi um início auspicioso. O lançamento recebeu uma resposta morna, por isso, quando a banda começou a trabalhar no próximo, o mundo não estava exactamente à espera de um momento portentoso. Mas foi exactamente isso que aconteceu. Aquilo que inventaria o conceito de heavy metal como o conhecemos…

«À medida que o tempo passa, o mundo do heavy metal olha para trás, para “Sad Wings of Destiny”, como sendo um clássico», diz Rob sobre o álbum que se tornou fulcral na sua carreira. «Aconteceu há muitos anos. Na banda aceitamos esse tipo de resposta com gratidão.»

Duas mudanças significativas aconteceram em Priest enquanto se preparavam para o vital segundo álbum. Em primeiro lugar, foi decidido não se trabalhar novamente com Rodger Bain.

«Não quero ser desagradável com o Rodger, porque ele é um bom produtor e fez muitos álbuns de qualidade», recorda Tipton. «Mas lembro-me de ir para casa e ouvir o “Rocka Rolla” e ficar arrasado com o quão decepcionante soava. As músicas eram boas e muitas resistiram ao teste do tempo, mas não foram bem gravadas.» «De facto queríamos crescer como banda», acrescenta Rob, «portanto o lógico era mudar de produtor».

Depois surgiu a combinação entre Jeffrey Calvert e Max West, um par não exactamente conhecido pela sua credibilidade no rock. Jeffrey tinha trabalhado no Morgan Studios em Londres, que tinha ligações com a editora Gull, e o nome verdadeiro de Max era Geraint Hughes Wyn. Surpreendentemente, tiveram o seu próprio single número 1 no Verão de 1975 sob o nome Typically Tropical (com a música em questão a ser “Barbados”) e mais tarde escreveriam o êxito da disco de Sarah Brightman, “I Lost My Heart to A Starship Trooper”. Em suma, não é realmente o tipo de produtores que se esperaria para se trabalhar com os jovens Priest.

«A Gull sugeriu que trabalhássemos com eles», explica Rob. «Como banda, sentimos que agora tínhamos o conhecimento para obter o que era necessário com o novo álbum. Além disso, o Jeff e o Max compreendiam que estaríamos muito envolvidos neste álbum, o que não foi totalmente o caso da primeira vez.»

Um jovem engenheiro chamado Chris Tsangarides teve a sua grande hipótese no projecto antes de começar a trabalhar com alguns dos maiores nomes do rock durante os anos 1980 e mais além – produziria “Painkiller” em 1990. «Aparentemente, o Chris ouviu-me a fazer o solo de “Victim of Changes” e gostou tanto que implorou para trabalhar no álbum», ri KK.

Tem havido a sugestão de que Rodger impôs a sua própria vontade na estreia da banda, chegando a deixar de fora “Tyrant”, “Genocide” e “The Ripper”, todos temas que fariam parte dos concertos antes de “Rocka Rolla”. No entanto, Rob refuta essa visão da história. «Não me lembro de nenhuma dessas músicas serem tocadas ao vivo antes da estreia», insiste. «Na verdade, a única faixa de “Sad Wings of Destiny” que andávamos a tocar antes desse álbum ser gravado era a “Victim of Changes”. Todas as outras foram escritas depois.»

A segunda grande mudança surgiu com a saída de John Hinch (ressurgiria alguns anos depois, para agenciar a banda de culto da New Wave of British Heavy Metal, Jameson Raid) e o regresso de Alan Moore.

«O Alan voltou pelo mesmo motivo que decidimos que uma mudança de produtor era necessária», crê Rob. «Qualquer banda nova tem de olhar constantemente para todos os níveis de musicalidade e consistência caso estejas determinado a progredir e chegar ao próximo nível.»

Como mencionado anteriormente, a banda seria atormentada pela falta de estabilidade com bateristas durante anos, apenas encontrando longevidade com a chegada do ex-Trapeze, Dave Holland, para o “British Steel” em 1980. Mas, em 1975, o regresso de Alan parecia adequado.

Títulos como os supracitados “Victim of Changes”, “Tyrant”, “Genocide” e “The Ripper” tornaram-se clássicos que se destacam há mais de 30 anos.

«Acho que a combinação da minha composição com o KK e o Rob começou realmente a florescer aqui», diz Glenn. «Passámos a conhecer-nos muito melhor depois da experiência no “Rocka Rolla”, e a nossa confiança cresceu. Para mim, este foi o verdadeiro começo dos Priest, como todos nos conhecem.»

Apesar da crença de Glenn de que isto marcou o verdadeiro nascimento da parceria de composição entre Halford / Tipton / Downing, na verdade, apenas três músicas em “Sad Wings…” (“Genocide”, “Island of Domination” e “Deceiver”) levaram com este famoso crédito. Embora “Victim of Changes” tenha sido predominantemente escrita pelos três, com contribuições de Al Atkins, rumores dizem que este épico era uma combinação de duas outras músicas, nomeadamente “Whiskey Woman” (que datava dos primeiros dias de Priest, pré-Rob Halford) e “Red Light Lady”, que Rob tinha trazido com ele da banda anterior, Hiroshima. O frontman, porém, recorda as coisas de maneira diferente. «Sempre a intitulámos “Victim of Changes”, nunca teve outro título. Suponho que essa confusão possa ter acontecido porque “Whisky Woman” é a frase de abertura.»

A banda foi para o famoso Rockfield Studios, no País de Gales, para gravar o que foi definitivamente um álbum crucial. Tendo trabalhado com um orçamento altamente restritivo para “Rocka Rolla”, agora as coisas pareciam abrir-se um pouco.

«Escolhemos ir para o Rockfield porque era um estúdio muito conhecido e muito usado na época», diz Rob. «Era também um local residencial, o que nos permitiu ficar juntos e concentrar-nos totalmente no que estávamos a fazer.»

KK, porém, não recorda aqueles tempos como sendo financeiramente viáveis para a banda. Na verdade, tem uma sensação de amargura em relação ao modo como as coisas estavam a acontecer. «Estávamos falidos, tão simples quanto isso», diz. «Enquanto gravávamos o álbum, o dinheiro acabava. Passámos do Rockfield para o Morgan Studios em Londres, mas a nossa conta tinha acabado. Nem conseguíamos comprar comida e bebida – as coisas ficaram tão más assim. Aqui estávamos nós, num dos estúdios mais famosos – com nomes como Black Sabbath e UFO também a gravarem – mas a vivermos na pobreza.»

Ao todo, os Judas Priest passaram quatro meses a trabalhar em “Sad Wings of Destiny”, até Julho de 1975. Tiveram a sorte ocasional, mas na maioria das vezes investiram tudo o que tinham para fazer o álbum tão bom quanto poderia ser.

«Foi um grande esforço e pagámos o preço», admite Rob. «Mas nenhum dos nossos álbuns foi fácil de fazer. Todos falam sobre sangue, suor e lágrimas… Mas é assim que deve ser para qualquer banda. Dás a menos e obterás um mau resultado final.»

O álbum foi lançado a 23 de Março de 1976 e deu à banda o seu primeiro sucesso nas tabelas do Reino Unido, alcançando um modesto número 48 (embora não tenha chegado às tabelas na América, o disco já vendeu mais de meio milhão de cópias nesse país). Mas foi um passo em frente em relação ao fracasso de “Rocka Rolla” e foi cimentado por uma pesada agenda de concertos. Tudo isso significava que a banda estava realmente pronta para um grande sucesso. Mas tal não aconteceria com a Gull Records. Havia uma crescente inquietação com a atitude da editora, e atingiu o ápice quando o dinheiro acabou, deixando os Priest quase sem capacidade para viverem. Agora, ressalva Rob, as coisas estavam prestes a ser resolvidas.

«Certo dia fomos ao escritório da Gull e dissemos: ‘Olhem, queremos ser uma grande banda de heavy metal e mostrar ao mundo que isto pode ser feito. Ajudaria muito se pudéssemos conseguir, tipo, 25 libras cada por semana, para que possamos colocar o nosso coração e alma a compor.’ O que ganhámos com a digressão foi para pagar as contas. Recusaram, então fomos embora.»

«Mesmo que estivéssemos a dar muitos concertos, chegámos a um ponto em que, a menos que a Gull nos desse algum apoio financeiro, teríamos de sair da estrada. Foi ridículo», enfatiza KK. «Na verdade, as coisas estavam tão más que tivemos de arranjar empregos de meio tempo. Eu andava a aparafusar parafusos em tectos. A Gull não parecia importar-se com o que fizemos nas digressões. Loucura! Então, eventualmente, tivemos de sair e assinar com a CBS [agora Columbia]

«Os Priest passaram por muitos altos e baixos durante a nossa vida», acrescenta o vocalista. «Resistimos às tempestades, desde rótulos a atitudes e opiniões externas. Sempre defendemos: somos uma banda de heavy metal, e se não gostas de nós ou não nos apoias… vai-te f*der!»

“Sad Wings of Destiny” seria o último álbum da banda com a Gull, sendo reeditado em várias ocasiões ao longo das décadas. Continua a ser um lançamento marcante, sem dúvida o álbum que deu o pontapé-de-saída em todo o estilo metal. Na verdade, pode-se argumentar fortemente que este é o modelo para tudo o que aconteceu desde então.

«Consegues ouvir e sentir o crescimento desde “Rocka Rolla”», conclui Rob. «A maioria das bandas atinge o seu ritmo num segundo lançamento. Aprendes muito com a primeira experiência. Hoje, todos em Judas Priest, consideramos o álbum como uma peça de pura magia metal e continuamos muito orgulhosos do que fizemos.»

Consultar artigo original em inglês.

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