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Jarboe “Illusory”

Dois temas bons em sete parece-nos manifestamente insuficiente, principalmente vindo de quem vem.

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Editora: Consouling Sounds
Data de lançamento: 17.04.2020
Género: experimental
Nota: 2.5/5

Dois temas bons em sete parece-nos manifestamente insuficiente, principalmente vindo de quem vem.

Pouco há a dizer ou a repetir sobre a relevância de Jarboe na cena musical alternativa que não saibamos: foi uma das colunas cervicais dos importantíssimos Swans, colaborou de forma ímpar com Neurosis, fez parte de mais de 80 discos ao longo da sua carreira, etc.. Assim, interessa-nos dissecar cada novo disco da nova-iorquina para sabermos em que ponto cardeal nos devemos situar a cada novo trabalho, porque Jarboe é isso mesmo, uma incógnita em bruto de quem nada devemos esperar.

Comecemos por alertar que “Illusory” é um disco maioritariamente desinteressante. É verdade que começa muito bem com o tema homónimo, um dos únicos dois que reconhecemos como pertença de Jarboe La Salle Devereaux. Trata-se de uma música bastante orgânica e simples nos seus diversos aspectos: piano aparentemente fora de tom, a voz inconfundível da autora e a repetição sonora quase monotónica que já faz parte do ADN da norte-americana, mas tudo muito simples. Simplicidade essa que, ainda que agradável e de audição relativamente fácil, peca pela curta duração. Fossem todos os temas metade deste e “Illusory” seria um caso sério de qualidade e inspiração. Lamentavelmente, não são.

“Illusory” é uma obra a roçar a esquizofrenia e o savantismo em simultâneo – esquizofrénica para os mais incautos e possivelmente savante para os mais habituados a estas lides, bem como para muitos pseudo-intelectuais para quem tudo faz sentido, mesmo que não faça. As cinco músicas seguintes poderiam ser uma mega-colaboração de luxo entre baluartes como Deutsch Nepal, Nurse With Wound, :zoviet*france: ou Bad Sector. Para quem estes nomes disserem algo, essas pessoas perceberão de imediato que “Illusory” poderia tratar-se de algo magistral e até definidor de tendências, algo de contemporâneo, que resistisse à erosão do tempo.

No entanto, essas mesmas pessoas ficariam profundamente desapontadas com a ausência de originalidade e alma de que temas como “Cathedral” ou “Flight” não carecem. “Into The Arms Of Sleep” anima um pouco mais a paisagem sonora maioritariamente ambiente e experimental que ouvimos até agora, mas sem nunca nos fazer levitar. “Nourish” sofre da mesma maleita das faixas anteriores. Por esta altura, pareceu-nos que “Illusory” se tratava de um devaneio de Jarboe, de algo que Jarboe pôde fazer porque tudo lhe é permitido. Por motivos óbvios, claro. Tudo isto não quer dizer que o resultado seja satisfatório.

Por fim (e dizemos isto com alívio, depois de sujeitos a cinco temas aborrecidíssimos), “Man Of Hate” faz-nos voltar a crer que nem a própria Jarboe ousaria arriscar tanto e que, mesmo dando largas à sua faceta mais experimental, a artista consegue criar músicas geniais. “Man Of Hate” é isso mesmo, para não dizer o melhor tema de um registo bipolar em que os dias maus são mais frequentes do que os bons. A juntar à voz fantasmagórica e deprimente de Jarboe, ouvimos tiros, aplausos, música ambiente de elevada qualidade e somos tomados por uma sensação de desconforto físico, quase de tensão, de stress. É o tema pelo qual esperámos durante todo o disco.

Mas um disco não deve ser celebrado exclusivamente por uma ou duas músicas, e é nisso que “Illusory” falha categoricamente. Ainda que o título do álbum seja coerente com a obra apresentada, trata-se de um trabalho que mais depressa afasta público do que angaria, mesmo que a artista nem sequer considere tais pormenores. Resta dizer que “Illusory” tem poucos momentos de brilho raro e muita redundância a evitar. Dois temas bons em sete parece-nos manifestamente insuficiente, principalmente vindo de quem vem.

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