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Jamey Jasta (Hatebreed): «Toda a minha carreira é sobre elevar o perfil da música pesada»

Jamey Jasta tem operado nas barricadas da música há quase 30 anos. Eis o que aprendeu.

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Jamey Jasta tem operado nas barricadas da música há quase 30 anos. Eis o que aprendeu.

Foto: Jeremy Saffer

Ainda antes de se tornar líder dos Hatebreed em 1994, Jamey Jasta viveu e respirou tudo que é música pesada. A sua banda foi, quase sozinha, responsável por meter o hardcore no mapa mainstream, popularizando uma vertente inicial do metalcore que nomes como Killswitch Engage exploraram ainda mais. Se tal fosse o fim das suas conquistas, seria o suficiente para consolidar o seu estatuto de lenda, mas ainda apresentou o ressurgimento do Headbangers Ball e o seu próprio podcast, geriu a sua própria editora e, no geral, é conhecido como uma das figuras mais inspiradoras do metal. Eis o que aprendeu com isso tudo.

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Descobrir música é o momento mais mágico da tua vida
«Ao crescer, os meus pais tinham sempre o gira-discos desligado. Música não era uma grande parte da vida deles, mas qualquer pessoa que cresceu nos anos 80 vai dizer que foi uma época especial. Tivemos o amanhecer da MTV, e muitas estações de rádio diferentes e estações de rádio universitárias, que eram muito porreiras porque passavam uma eclética variedade de música: punk, ska, hardcore, death metal, thrash. Embora eu fosse muito novo para ir a concertos no final dos anos 80, desenvolvi um amor profundo pelo punk e metal entre os 9 e 13 anos, que é uma altura muito importante da tua vida. Apanhei Guns N’ Roses, Cro-Mags, Metallica, Run DMC… Lembro-me de ter arranjado a cassete “I Can’t Live Without My Radio” do LL Cool J, e realmente senti aquilo. O que faria eu sem essas músicas?! Arranjei muitos discos naquela altura.»

Fico sempre feliz ao ver jovens a entrarem na música
«Tenho visto muita resistência ao longo dos anos por parte da velha-guarda sobre o que deve e o que não deve ser música pesada. Se te lembrares de quando a cena deathcore rebentou no MySpace, por exemplo, tinhas todos aqueles gajos do death metal a dizerem: ‘Que merda é esta? Por que é que se vestem assim? Por que é que o cabelo é tão curto?’ E realmente senti que tinha de lhes dizer: ‘Ouve, eles são como nós. Eles querem ouvir merda da pesada, assim como eu e tu. Preferias que fossem ouvir algum DJ?’ É bom incluir as pessoas e fazê-las sentirem-se bem-vindas. Espero sempre fazer isso com a nossa música e os meus projectos.»

Alinhamentos mistos quebram barreiras de género
«Quando me tornei promotor, a organizar concertos locais de hardcore, fiz questão de tentar quebrar algumas das barreiras e convidar mais bandas de thrash e mais bandas de metal para tocarem. Quando os concertos corriam bem e não havia porrada, ias até ao estacionamento e vias aquelas pessoas a misturarem-se e a beberem uma cerveja, um tipo com uma camisola de Nike High Tops e Youth of Today e outro com cabelo comprido e camisola de Anthrax. E tornavam-se amigos! Foi muito porreiro ver isso a acontecer.»

Esforço-me sempre para elevar o perfil do metal
«Nunca apaguei os tweets que fiz sobre Chvrches, e o que percebi é que comecei a vender muito mais merch. Portanto, acho que aquela velha cena de ‘toda a publicidade é boa’ é verdade, certo?! Mas não me arrependo desse incidente. Sei que muitos dos seus fãs vieram defendê-los, e acho que isso é totalmente compreensível. Só estava a lutar por uma das minhas bandas favoritas, os Gojira. Quero dizer, Gojira rebentaria com a maioria das bandas em palco, não apenas Chvrches! O meu ponto é que é preciso haver mais atitude à Hulk Hogan e Ultimate Warrior, sabes? [Warrior venceu Hulk Hogan, a maior estrela do wrestling dos anos 80, na Wrestlemania VI] Vamos enaltecer alguém! Quero ver as bandas com legado a darem ao metal o espaço principal, como o Hogan fez com o Warrior, porque, quer gostes de mim ou de Gojira, as nossas bandas, Lamb of God ou Five Finger Death Punch, está tudo a mover-se para o lugar de Deftones, Korn e Judas Priest! Não estamos a ter rádio, então qual é a nossa oportunidade para se ter uma hipótese? Festivais e digressões. Eu não queria meter outra banda abaixo, toda a minha carreira é sobre elevar o perfil da música pesada.»

As grandes editoras simplesmente não sabem o que fazer com o hardcore… Óptimo!
«Assisti à resistência das editoras e da indústria perante o hardcore. Lembro-me do glam e do grunge, e até mesmo da explosão do ska, lembro-me de pequenas bandas de ska serem captadas por uma grande editora porque queriam os próximos Bosstones, mas isso nunca aconteceu com o hardcore. Hardcore numa grande editora era um bocado como uma ilha, e depois, com a New Wave of American Heavy Metal, muitas dessas bandas começaram a respeitar-nos. Acho que foi uma coisa boa para nós, porque não me sentia confortável a fazer sessões fotográficas ou a aparecer na TV ao início, portanto o hardcore ser um género mais underground significava que podíamos manter as nossas cabeças baixas e fazer as nossas próprias coisas sem sermos ligados ao hype.»

Os fãs é que decidem o que é popular no metal, não as editoras
«Conseguir um contrato com uma grande editora era preparação ao encontro da sorte. Quando tantas editoras que achas que têm pessoas inteligentes estão a pôr-te de lado há tanto tempo… à medida que o teu perfil aumenta, começas simplesmente a pensar: ‘Por que é que não gostarias de te alinhar a isto? Se só queres saber de widgets, todas estas pessoas querem o produto físico!’ Percebes que estão errados. Eu tinha uma editora e uma loja de discos, portanto vi todas as tendências a irem e a virem. Lembro-me de quando os Papa Roach nem tinha assinado nada e os miúdos vinham todos os dias pedir o álbum, apenas por causa da troca de cassetes e dos estágios iniciais da Napster. Puro boca-a-boca. Mas percebes que esses gajos de A&R não estão nas lojas de discos, não estão no concerto, portanto não sabem! Lembro-me de ver o Clown e o Paul, dos Slipknot, na primeira fila dos nossos concertos a cantarem cada palavra perante 30 pessoas no Iowa, portanto eu sabia que tínhamos algo, mas é preciso muita resistência para convencer essas pessoas. Essas pessoas não são espertas.»

Nada superará uma colecção de discos
«Quando as pessoas dizem: ‘Não faz sentido comprar um vinil porque podes obter três meses de serviço streaming e nove milhões de músicas pelo mesmo preço!’ Digo sempre: ‘Ou estás a receber 8.999.990 músicas que não queres?’ Portanto, depende de como olhas para isto. A minha colecção de música é um dos meus bens de maior orgulho e está ali para sempre – não fazes um pagamento do serviço streaming e puf!, acabou. Tens de ir ao bolso outra vez para teres a tua colecção de volta.»

Se estás numa banda, tens de ter o teu negócio organizado
«Se o agente vai à reunião e o gajo da editora está a revirar os olhos e a bater com os dedos, então essa pessoa é um risco. Se não tiveres a representação certa ou se não te representares a ti próprio ou se não conheceres o teu negócio, então isso pode prejudicar-te. Vi bandas que os miúdos gostavam muito, mas simplesmente deixaram que um empresário seguisse em frente, e a editora não defende o que eles estão a fazer e desaparecem. Por que é que queres essas pessoas como representantes daquilo em que trabalhaste tanto? É preciso discernimento e estratégia, e tens de tratar a tua banda como um trabalho, assim como a tua arte.»

O ressurgimento do Headbangers Ball foi um momento incrível para mim
«Apresentar o Headbangers Ball foi uma experiência incrível. Tentei lidar com tudo como uma aprendizagem – saber mais sobre edição e filmagem e apenas a arte de fazer televisão. Viajamos por todo o mundo, conhecemos algumas pessoas incríveis, e apenas tentamos levar o metal às pessoas. Novamente, era tudo sobre a paixão de elevar o metal. Estou muito orgulhoso de o ter feito.»

Baseei-me no Scott Ian
«Olhei para o Scott Ian à procura de inspiração. Digam o que quiserem sobre Anthrax, da era John Bush, mas eles ainda esgotavam salas, e o Scott ainda aparecia na TV, ainda aparecia nas revistas e ainda era uma presença. Ele era ambicioso, empreendedor, uma personalidade a sério, e eu queria ser como ele. Eu via as pessoas, pessoas com inveja, a dizerem: ‘Oh, os Anthrax já não fazem parte do Big 4, portanto tem de ser apresentador na VH1!’ A pensar que eram pessoas sem sucesso, então por que é que eu me importaria com o que tinham para dizer? Vi o Scott e percebi que isto era uma maratona, não um sprint.»

Consultar artigo original em inglês.

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