Ivo Conceição (Quinteto Explosivo) recorda a experiência vivida na Eurovisão de 2011 com Homens da Luta. Ivo Conceição (Quinteto Explosivo) sobre a Eurovisão’2011: «Foi surreal»
Ivo Conceição no Festival da Canção 2011 com uma t-shirt de Darkthrone

Baluarte da cultura musical e televisiva de Portugal, é irónico dizer que o Festival da Canção já não tem o mesmo peso e importância de outrora quando foi num passado recente, em 2017, que o nosso país obteve a melhor classificação de sempre quando Salvador Sobral venceu a Eurovisão.

Entre prestações que não saíram do zero até recordes batidos (Sobral angariou 758 pontos), pelo meio Portugal apresentou à Europa o seu escândalo quando em 2011 os Homens da Luta foram representar a nação a Düsseldorf, Alemanha.

Projecto de música interventiva, com muito humor voraz e imagética do PREC, encabeçado por Neto (aka Jel, de seu verdadeiro nome Nuno Duarte) e Falâncio (Vasco Duarte), o duo deu nas vistas não só no programa de sketches “Vai Tudo Abaixo” (SIC Radical) como também em manifestações, como as da Geração à Rasca. Mais: foram mesmo considerados uma organização terrorista ao lado de outras realmente a sério como a ETA, tendo sido detidos várias vezes.

Dez anos depois, falámos com Ivo Conceição, conhecido pelos seus papéis em Comme Restus, Kalashnikov, Quinteto Explosivo e Luminosa, que trabalhou com os Homens da Luta desde os programas da SIC Radical, passando pela vitória em solo nacional até à Alemanha e ao seu final no programa “Sábado à Luta” na SIC generalista.

«Foi surreal, o culminar de vários anos de trabalho com uma equipa fantástica, a qual guardo no coração», responde Conceição quando questionado sobre se aquela ida à Eurovisão foi o maior fuck-off da sua vida. «Dois anos antes estávamos com Kalashnikov a abrir para Rage Against The Machine no Alive, um ano antes estávamos nos EUA com o “Vai Tudo Abaixo 4 – Especial América”… Várias vidas numa só, muito grato. Ganhar o Festival da Canção em 2011 com todo o contexto social e político da altura, com uma canção de protesto, foi um sonho. Difícil de descrever, e ainda hoje me puxa as lágrimas.»

A conversa continua. «É a puta da loucura», diz a rir-se quando apontamos o suposto glamour e intelectualismo de um evento gigante que transparece ser tudo certinho e bem comportado. «Por um lado existe um profissionalismo e uma escala só comparada aos EUA. Tens mais de 300 milhões de pessoas a ver-te em directo – consegues imaginar a logística para isto tudo? Foi um doutoramento com a ida a Düsseldorf – toda a tecnologia, meios, organização e fluência de profissionais é assustador, no bom sentido. Ainda me lembro de ter entrado na arena pela primeira vez e ter ao meu dispor vários escritórios só para mim, assim como ver mais de 40.000 lasers e todo aquele palco, backstage, produção – é um mundo à parte. E sim, é 24/7 de festa entre todos os países, artistas e comissões envolvidas. A celebração é a parte dominante para além do concurso, claro.»

Já se utilizou aqui a palavra escândalo (mesmo que em itálico) para definir a vitória dos Homens da Luta dentro de fronteiras. Ganharam, é verdade, e com votos do público, mas algumas reacções foram bastante amargas. Ivo Conceição recorda: «Claro que fomos o alien do Festival da Canção. Para terem ideia, durante as horas do programa fomos assobiados pelos fãs dos restantes artistas, fomos motivo de riso, entre outras coisas. Quem ri por último…» Tendo tido o apoio de «muitas dezenas, ou centenas, de milhares de pessoas que votaram em Homens da Luta», a RTP, que organiza o concurso, não se desmarcou das suas obrigações perante o vencedor, por mais que este fosse bizarro. «A RTP não é nenhum bicho-papão, apoiou-nos sempre em tudo», confirma.

Claro que Homens da Luta não é metal, e o que realmente nos conduziu a esta troca de impressões tem mais a ver com o facto de os membros do projecto terem ligações a sonoridades mais pesadas – Vasco Duarte, por exemplo, tem no currículo bandas como Lâmina.

No cada vez mais longínquo ano de 2006, os finlandeses Lordi venceram a Eurovisão com o seu hard rock vestido de zombies e demónios. Eládio Clímaco viu tal feito como um vexame, caso tenhamos a memória fresca. Será que a banda de “Hard Rock Hallelujah” mudou assim tanto o paradigma do concurso? Conceição tem dúvidas e diz que «os Lordi são o espelho de uma mentalidade e normalidade nórdicas onde todos os estilos de arte têm o mesmo espaço e são reconhecidos como tal». Continua: «Na Escandinávia exporta-se até mais heavy metal do que pop, apesar de teres bandas como A-Ah. Foi a evolução natural do festival – mudam-se os tempos… Há muitas pessoas como eu a trabalhar em todas as áreas, com os gostos mais distintos possíveis. Eu tanto ouço Prince como Cannibal Corpse ou Dead Can Dance. Conheço muitos artistas pop que também gostam muito de rock e metal, e o inverso. A maioria dos artistas que encontrei em Düsseldorf eram excelentes músicos nas mais diversas áreas, unidos por uma alegria enorme e muito gratos por estarem onde estavam. Tal como eu.»

Há alguns dias, a cantora Carolina Deslandes referiu que o Festival da Canção paga bem aos artistas, mas não foi por aí que Ivo Conceição ficou mais ou menos rico. «Em Portugal não se fazem fortunas com a música, infelizmente – não em 2011 ou em 2021», reflecte. «Não me queixo porque trabalhei muito e tive a sorte do meu lado muitas vezes. Em 2011, para além de Homens da Luta e de tudo o que envolvia (TV, rádio, discos, internet, conteúdos), eu também trabalhava na Sony Music Portugal, que tive de abandonar por causa do volume de concertos de Homens da Luta. Claro que ganhar o Festival da Canção fez disparar as datas da banda, num período até bastante complicado para o país em que o Primeiro Ministro [José Sócrates] cai e recebemos a troika…»

Dez anos depois, será que voltava a meter-se numa coisa destas? «Claro que sim. Apesar da minha imagem projectada e/ou mais conhecida/reconhecida no meio do rock, trabalhei com vários artistas como Aurea, The Gift, Paulo Gonzo, Amália Hoje, Movimento.»

Para o fim, fica ainda uma confissão: «A ideia inicial era concorrermos com Kalashnikov, mas não aceitavam músicas em inglês – foi um acaso muito feliz. A nossa atitude sempre foi e sempre será punk adaptada ao Optimus Alive, à Assembleia da República ou a outro contexto qualquer. Muito grato.»

“Vamos Todos Morrer” é o título do próximo álbum de Quinteto Explosivo e deverá ser lançado em Junho de 2021. Lê a mais recente entrevista aqui.