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Hyborian “Volume II”

Aliados à essência sludge, os Hyborian entregam-nos um som pesado, com nuances progressivas aqui e ali, e temperado com uma pitada de thrash.

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 20.03.2020
Género: prog/sludge/stoner metal
Nota: 3.5/5

Aliados à essência sludge, os Hyborian entregam-nos um som pesado, com nuances progressivas aqui e ali, e temperado com uma pitada de thrash.

Kansas City, 2015, três amigos de longa data viram, por coincidência, os seus respectivos projectos musicais terminarem quase ao mesmo tempo. Embora partilhassem o meio musical há quase duas décadas, apenas neste momento começaram a tocar juntos. A empatia musical foi grande e rapidamente assumiram-se como banda, imergindo totalmente neste novo projecto. Sob uma sonoridade que cruza o sludge metal com o progressivo, o seu primeiro álbum, “Volume I”, teve uma boa recepção, que lhes valeu a assinatura do contrato com a Season of Mist e uma projecção internacional.

Ao bom modo do metal progressivo, a espinha dorsal desta banda é o conceito. Foi este elemento que a fez destacar-se das demais, pois foi de tal modo aprofundado que o vocalista escreveu a narrativa sci-fi “The Traveller – A Hyborian Tale”, da qual surgiu Hyborian, nome da banda e da personagem principal, assim como a história para três álbuns. O primeiro teria histórias do começo dos tempos e da humanidade, este “Volume II” ocorre nos últimos dias da existência do universo, e o terceiro disco será sobre a era industrial moderna. Com estas noções, fica mais evidente a escolha do design para o logótipo da banda (num estilo pouco comum para o sludge) e as histórias inerentes às capas dos álbuns. Com a arte criada para “Volume II” sentimos, de imediato, o misticismo conceptual e a agonia do fim dos tempos. Uma capa que não poderia ser mais metal!

Como vemos pela complexidade das histórias subjacentes aos seus álbuns, a banda é meticulosa nas suas criações e o trabalho de estúdio seguiu o padrão. Numa perspectiva geral, a forma como estão distribuídas as oito faixas, a forte coerência entre elas e a duração total de “Volume II”, são irrepreensíveis. O álbum terá sido gravado de forma orgânica, tendo sido evitado o recurso às ferramentas de edição e mistura digitais, mas tirando o máximo partido da qualidade do material de que dispunham no estúdio, aliado ao melhor desempenho possível dos músicos. Como resultado, foram conferidos ao álbum autenticidade e total equilíbrio entre instrumentos, num exímio trabalho de produção.

O trabalho de guitarras apresenta dinamismo entre as diferentes secções, mas feito com uma abordagem que garante a fluidez e a coesão entre diferentes partes. Contudo, são os riffs pesados e super-cativantes que nos tomam de assalto – o headbanging é inevitável – e ganham destaque em paralelo com a voz e as letras. A abordagem vocal em “Volume II” é bastante diferente do seu antecessor. A voz de Martin Bush é inconfundível, mas em vez de serem usadas as técnicas per se para obtenção da expressividade, agora a voz é apresentada em várias camadas, proporcionando a intensidade, o volume e textura desejados em cada segmento. Embora a riqueza do registo vocal tenha ficado algo confinado, é uma opção que contribuirá para um bom desempenho em digressão.

Aliados à essência sludge, os Hyborian entregam-nos um som pesado, com nuances progressivas aqui e ali, e temperado com uma pitada de thrash. Comparativamente ao primeiro álbum, mais slow-pace e mais emocional, vemos aumentada a velocidade dos ritmos e a carga energética. A música e mensagens são directas, acessíveis e cativantes. Exemplos disso são os singles já lançados ou as faixas “Stormbound” e “The Entity”. Portanto, a etiqueta ‘progressivo’, associada à música dos Hyborian, não passa por polirritmos nem por estruturas altamente complexas, mas antes pela carga conceptual e por alguns ambientes que pontualmente criam, em melodias um pouco mais intrincadas, alguns ritmos sincopados, e nos momentos onde o trabalho na bateria se torna mais diversificado (embora continue em segundo plano). Conforme se vão repetindo as audições do álbum, essa vertente vai sendo desvendada, especialmente em faixas como “Sanctuary”, “Portal” e “In The Hall of The Travellers”, deixando em suspense se será essa a directriz para o terceiro volume.

A secção rítmica, composta pelo baixo e bateria, segue um modelo tradicional, funcionando como ossos e músculos sob uma pele mesclada pelas letras, voz e guitarras. Algumas passagens mereciam uma transição na bateria mais criativa, e o baixo usado exclusivamente para acentuar os graves é uma opção demasiado comum. Embora estejamos a falar de músicos experientes, e a raiz da sua música seja o sludge, fica a expectativa de que o seu próximo trabalho demonstre melhor as capacidades de cada membro, maior originalidade e relevância no ‘estado da arte’. Assim, poderão garantir que a repetição das músicas permaneça interessante durante mais tempo. Por outro lado, a banda dá-nos prova de como uma boa música ou um bom riff não se define pela quantidade de notas que os compõem, nem por tecnicismos, e que, por vezes, é preciso revisitar os básicos – algo que muitos, hoje, na procura da distinção, parecem esquecer.

Naturalmente, não poderá analisar-se este álbum sem fazer referência às letras, cujos versos nos falam sobre o fim do universo, da humanidade a presenciá-lo, e de como cada fim significa também um começo. Coincidentemente, o fim simultâneo das bandas, a que pertencia cada um dos elementos, foi o que originou Hyborian e as músicas que nos presenteiam. Talvez seja por isso que num álbum de tema tão desolador, mantém-se como tónica uma certa esperança. Se sentimos que a música é parte integrante da nossa realidade, que esta seja uma influência para todos os que oiçam “Volume II”.

O contexto que vivemos nas últimas semanas e as perspectivas incertas sobre os próximos tempos fazem com que um álbum como este tenha um impacto muito diferente do que teria há três ou quatro meses. Num momento em que vemos cancelados inúmeros concertos, essencial fonte de rendimento para as bandas, escrever uma crítica acaba por ser uma tremenda responsabilidade. Quer apreciadores, quer músicos de metal, são extremamente dedicados e, por isso, a quantidade de álbuns de qualidade é grande. Mas torna-se mais importante do que nunca fazer distinguir o bom, do muito bom e do excepcional.

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