"Evil Blues" contém riffs lentos e mórbidos que parece não irem a lado nenhum (mas vão), antecipação, devaneios, fatalismo e criação... Hoofmark “Evil Blues”

Editora: Miasma of Barbarity Records
Data de lançamento: 13.02.2021
Género: black metal / blues / americana
Nota: 3.5/5

“Evil Blues” contém riffs lentos e mórbidos que parece não irem a lado nenhum (mas vão), antecipação, devaneios, fatalismo e criação de toda uma paisagem distorcida que ganha diversos tons e sensações através de reviravoltas inesperadas.

Verdade seja dita já de início: Hoofmark é uma das muitas pérolas por descobrir no underground português. Alguns já descobriram mas mantém-se ainda desconhecido – pode ser que a aliança com a Miasma of Barbarity Records mude isso.

Depois da surpresa que foi “Stoic Winds” – primeiro digitalmente e em cassete (2016), depois em CD (Ultraje, 2017) –, o projecto de Nuno Ramos aka El Vaquero Ungulado chega àquele que afirma ser realmente o primeiro álbum, intitulado “Evil Blues”.

O que houve de tão distinto em “Stoic Winds” passava pela mistura inusitada de black metal na onda de Burzum (a influência era apenas musical, estando o artista português no lado oposto de Varg no campo político) com country, blues e americana.

Agora, com “Evil Blues”, o lado não-metal de Hoofmark está mais assente no título do que propriamente no som. Ainda há americana (“Best kept old”), algum blues bastante eléctrico (“White hell”) e muitas vozes limpas – às vezes como se estivesse a ler cartas sofridas, outras a entoar poesia solitária e para ninguém –, mas as guitarras acústicas foram postas de lado. Assim, a tela sónica deste “Evil Blues” é preenchida por guitarras eléctricas estridentes, dissonantes e intrincadas. Aliás, por mais que se fale em black metal (“Anguished Demon Blues”), a abordagem geral não o é totalmente e, à falta do country e blues, encontramos noções de rock alternativo e punk inspirado em, por exemplo, The Melvins (“Drop by at night”).

“Evil Blues” é um álbum estranho – quase que o podemos inserir no fenómeno outsider music – e talvez um pouco longo demais, com 12 faixas que tanto duram dois minutos como sete, mas é especial ao manifestar tamanha amálgama de influências. É preciso paciência para o ouvir – há riffs lentos e mórbidos que parece não irem a lado nenhum (mas vão), antecipação (“The land suffices if you lend a hand”), devaneios (“No. 5, 2019”, “Mornin’”), fatalismo e criação de toda uma paisagem distorcida que ganha diversos tons e sensações através de reviravoltas inesperadas.

Hoofmark situa-se num espectro muito singular e combativo. Se não gostas, então não o tentes destruir porque há-de haver quem goste – portanto, passa “Evil Blues” a essa pessoa que poderá apreciar o álbum e o projecto. Mas se gostas, então desfruta, explora e compreende. É tudo o que pedimos.