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Tiago Lopes (Her Name Was Fire): «O que seria do rock sem perigo, sensualidade, energia, extravagância, luxúria e sem subir o nível do volume até ao 11?»

Nas vésperas de lançarem o segundo álbum “Decadent Movement”, Tiago Lopes foi o porta-voz de Her Name Was Fire, banda portuguesa que reúne stoner, sleaze, alternativo e algum metal à mesma mesa. Nesta entrevista fala-se de evolução, de uma forma de estar sóbria e lógica e da recuperação do perigo e sensualidade no rock.

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Nas vésperas de lançarem o segundo álbum “Decadent Movement”, Tiago Lopes foi o porta-voz de Her Name Was Fire, banda portuguesa que reúne stoner, sleaze, alternativo e algum metal à mesma mesa. Nesta entrevista fala-se de evolução, de uma forma de estar sóbria e lógica e da recuperação do perigo e sensualidade no rock.

«Queríamos também fazer algo musical e visualmente conceptual sem ser uma epopeia, mas que ilustrasse os diferentes lados de Her Name Was Fire.»

Tiago Lopes

Depois de terem lançado um álbum em 2017, que foi bem-recebido, o que é que quiseram melhorar e quais foram as metas que conseguiram cumprir na realização de um disco tão dinâmico como este “Decadent Movement”?
O “Road Antics” marcou o nosso início enquanto banda, eu e o João quisemos fazer um álbum mais raw e simples na sua concepção e produção, até para podermos perceber o que conseguíamos fazer apenas com a guitarra, a bateria e as nossas vozes, com uma intenção mais direccionada para o stoner rock. À medida que fomos tocando ao vivo, compondo e explorando ideias diferentes, sentimos a necessidade de evoluir e sair da nossa zona de conforto.
Algo que nós sempre quisemos desde o início foi gravar música que pudéssemos representar ao vivo sem recorrer a backing tracks ou loops, filosofia que mantemos no novo disco, mas permitimo-nos expandir os nossos horizontes e apostar num songwritting e produção mais apurados.
O “Decadent Movement” começa a surgir, pelo menos a nível de conceito, no final das gravações do primeiro disco, conceito esse que fomos aprimorando ao longo do tempo, influenciados pelas vivências pessoais de cada um até então, e dando-nos liberdade para fazer a música que instintivamente queríamos fazer (e ouvir!), sem nos limitarmos a um género específico de música (ou de rock).
Queríamos também fazer algo musical e visualmente conceptual sem ser uma epopeia, mas que ilustrasse os diferentes lados de Her Name Was Fire que se foram manifestando nas jam sessions que fazemos regularmente. Quisemos também apostar nas vozes e num som mais moderno, e sinto que fomos bem sucedidos nessa busca, que não se esgota com o “Decadent Movement”, mas para já…

Algumas músicas, como a última “Cabin Fever”, aludem ao facto de podermos imaginar que este seria o resultado de uma jam entre Kyuss e Alice In Chains. Her Name Was Fire tem até um som bastante internacional se tivermos em conta o que se tem feito por cá. Quão satisfeitos estão com a vossa evolução?
Vou levar isso como um elogio – obrigado!
Nunca quisemos que Her Name Was Fire fosse um conceito estanque, estamos sempre a desafiar as nossas capacidades como músicos, a aprender o máximo possível sobre tudo o que envolve música, e acho que essa inquietude e fascínio aliados a um espírito autocrítico nos faz evoluir naturalmente. Somos ávidos consumidores de música, filmes, séries, e tudo acaba por nos influenciar, motivar, inspirar e definir a nossa personalidade, tornando-se parte de nós e do nosso imaginário, que depois depositamos na nossa música.
Temos a ambição de ser uma banda dita ‘internacional’ e temos crescido nesse sentido passo a passo, de forma orgânica e à medida do que podemos, mas em primeiro lugar queremos fazer a música que nos apetecer e esperar que as pessoas vibrem na mesma frequência. Isso faz-nos sentir realizados e muito satisfeitos com a nossa evolução, sabendo que poderia ser mais rápida se tivéssemos uma estrutura por trás de nós que nos permitisse dedicar a Her Name Was Fire a tempo inteiro, mas tudo a seu tempo, espero!

Olhando para o título do disco, podemos perceber que há uma crítica à sociedade actual, mas tudo se pode tornar mais interessante se houver uma ligação à capa, com aquela Medusa feita em pedaços. Qual é a importância estética relacionada ao conceito do título e das letras?
Vemos o “Decadent Movement” como uma de duas realidades paralelas – uma espécie de ying / yang, alfa / ómega – em que exploramos a dualidade de tudo através de uma viagem ao submundo, representado pela figura de Hades, aqui ilustrado pelo João em forma de Medusa.
Hades (o diabo, na mitologia grega) simboliza aqui a libertação do ser humano através do confronto com os nossos medos, virtudes, sentimentos de raiva, amor, medo, esperança, vitórias e derrotas, vida e morte, mas simboliza também o devil’s blues, a origem do rock.
Já o título partilha dessa dualidade – tanto é um movimento físico como um manifesto ideológico e artístico, que acaba por definir os temas.
Chegámos a falar entre nós que este disco nos parece uma ‘banda-sonora para o pré-apocalipse’, durante o qual somos confrontados com a nossa humanidade ou falta dela, até passarmos para outro plano da realidade – o que não deixa de ser curioso, tendo em conta o lugar em que de repente o mundo se tornou, à sombra de uma ameaça a nível global sem precedentes, e de tempos negros que se avizinham.

«A plastificação das coisas não trouxe tudo de mau, também nos trouxe alguma música boa e tecnologia, ferramentas acessíveis para renovarmos a música.»

Tiago Lopes

O rock pode ter-se vindo a tornar mais plástico nos últimos 20 anos, mas o underground ainda resiste. Há quem diga que o rock devia recuperar algum do seu perigo, mas há também quem ache que isso devia ser equilibrado com a recuperação de alguma sensualidade. Achamos que o novo álbum de Her Name Was Fire possui uma certa dose de sensualidade. Concordas com estas observações?
Sem dúvida! Por alguma razão existe a expressão “sexo, drogas e rock’n’roll”! O que seria do rock sem perigo, sensualidade, energia, extravagância, luxúria e sem subir o nível do volume até ao 11? [N. da R.: referência a Spinal Tap] Sem dúvida que queremos recuperar esse vibe old school e essa forma mais verdadeira de fazer as coisas, mas com uma visão mais moderna.
A plastificação das coisas não trouxe tudo de mau, também nos trouxe alguma música boa e tecnologia, ferramentas acessíveis para renovarmos a música, qual projecto de IKEA. No entanto, essa plastificação distanciou um bocado as pessoas da essência do rock, que é o “poder deitar tudo cá para fora”, o “seres tu próprio” num lugar onde todos os rebeldes de espírito se podem encontrar livremente.

Ainda que a produção seja muito boa e ainda que tenham muita melodia nas vossas músicas (principalmente ao nível vocal), quão importante é manterem uma sonoridade sleazy especialmente inerente às guitarras? Sentes que é esse som meio sujo que vos separa do resto no panorama rock?
O nosso background musical foi passado muito no rock, metal e derivados, por isso a ‘sujidade’ do nosso som acaba por ser fruto dessas nossas influências. Desde o início que idealizámos deliberadamente um som ‘grande’, sujo, e ‘fat’, e definimos assim a nossa base musical, mas por outro lado, somos uns suckers por boas melodias e boas canções, portanto era uma combinação quase inevitável, que acontece também naturalmente por utilizarmos dois amplificadores de guitarra e um de baixo, carregados de distorção e efeitos.
Não sei se é importante ou se isso nos separa do resto do panorama rock, mas se assim for, melhor!

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