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Hellhammer: os párias torturados do black metal que criaram um monstro

Em 1984, três suíços desajustados formaram uma banda que era mais crua e suja do que qualquer coisa surgida anteriormente. Esta é a história de Hellhammer e do doloroso nascimento do black metal.

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Em 1984, três suíços desajustados formaram uma banda que era mais crua e suja do que qualquer coisa surgida anteriormente. Esta é a história de Hellhammer e do doloroso nascimento do black metal.

Foto: Martin Kyburz

O início dos anos 1980 marcou um enorme salto em frente para o metal. No Reino Unido, a cena popular da NWOBHM estava a enraizar-se nos bares e discotecas de todo o país, lançando futuras estrelas mundiais como Iron Maiden. Bandas e fãs estavam famintos por músicas que fossem mais rijas, mais pesadas e mais cruas do que qualquer coisa que tivesse surgido antes.

As coisas eram muito diferentes na Suíça, onde mal havia uma cena. Um jovem suíço amante de metal, Thomas Gabriel Fischer, olhava ansiosamente para tudo o que estava a acontecer no Reino Unido e perguntava-se o que raio estava a acontecer de errado – e o que se podia fazer quanto a isso.

«Enquanto a cena metal internacional estava a ser completamente rejuvenescida com a New Wave Of British Heavy Metal, na Suíça acontecia exactamente o oposto – se é que podias falar de uma cena», explica Fischer. «Os músicos daqui giravam em círculos e a maior banda suíça da época era Krokus.»

Banda essencial de metal do início dos anos 1980, o sucesso internacional de Krokus gerou uma série de imitadores no seu país. Mas Tom não estava interessado em copiar outra pessoa e decidiu resolver o assunto por conta própria. Juntamente com um par de co-conspiradores, o vocalista e aficionado do punk Urs Sprenger e o baterista Pete Stratton, em 1982 formou uma banda que revolucionaria inadvertidamente o metal: Hellhammer.

«Éramos coleccionadores de singles e demos da NWOBHM e adorávamos o underground, adorávamos a new wave, adorávamos o punk, e, para nós, a cena local parecia extremamente chata», diz Fischer, que se baptizou Tom G Warrior (Sprenger mudou o seu nome para Steve Warrior). «Era como uma cena de endogamia e não havia ar fresco.»

Numa altura em que as cenas metal e punk ainda estavam divididas, o trio fundiu a energia bruta de Discharge e a NWOBHM satânica de Venom com uma quantidade considerável de angústia e adrenalina adolescente.

«Quase todos nós tínhamos condições muito difíceis nas nossas vidas particulares», explica Tom, «e acho que, em primeiro lugar, tentámos lidar com isso e tentámos expressá-lo com a nossa música».

Essa música era o ruído mais lo-fi, cru e cheio de punk que se pode imaginar. As duas primeiras demos de Hellhammer, “Death Fiend” e “Triumph Of Death”, ambas lançadas em 1983, fizeram com que o som áspero de Venom soasse refinado. Este foi o primeiro verdadeiro vislumbre de black metal. E a cena metal suíça odiava-os.

Tom: «Sentimo-nos um bando de párias. Sentimos que éramos os únicos a seguir um padrão diferente, à procura de um horizonte diferente. Fomos evitados por todos. Bandas como Slayer, Metallica, Exodus ainda não existiam ou estavam apenas na fase das demos. A cena metal era muito ampla, mas não havia nenhuma cena extrema.»

Enquanto bandas menores podiam ter desmoronado, isto apenas fortaleceu a determinação de Hellhammer. Não precisavam de mais ninguém.

«Quanto mais éramos párias, mais nos sentíamos um grupo único de pessoas», diz Tom. «E mais nos sentíamos: ‘Ok, vamos criar o nosso próprio mundo e que se lixe.’ Isso tornou-nos independentes e tornou-nos mais ferozes e fanáticos. Tornou-se um círculo de acção. E no fim, isso ajudou muito. Se nos tivessem aceitado, talvez soássemos como todos os outros. Mas como fomos deixados à nossa própria sorte, criámos basicamente o nosso próprio estilo, e isso, claro, foi uma enorme vantagem sobre todos os clones de Krokus.»

Frustrado com a cena metal provinciana na Suíça, o trio começou a olhar mais longe.

«Na altura, não havia Internet ou algo parecido, e havia talvez uma ou duas revistas de heavy metal», diz Tom. «Então pegámos na nossa colecção de discos, revirámos os discos e anotámos todos os endereços das editoras das nossas bandas favoritas, e depois enviámos as nossas demos. E todas essas empresas eram, claro, de outros países – da América à Alemanha e ao Reino Unido.»

Houve rejeições – muitas. Mas uma editora acabou por dar uma hipótese a estes novatos. A Noise Records de Berlim foi fundada como uma ramificação de uma editora punk, e não recuaram com o que os Hellhammer estavam a fazer – longe disso.

«Eles disseram: ‘Bem, parecem radicais e estamos à procura da banda de metal mais radical do mundo e vocês parecem-se com isso, por isso vamos tentar.’», recorda Tom.

Havia uma condição. A banda teve que gravar duas novas faixas para uma compilação, para provar que valia a pena tentar. Mostrando-se à altura do desafio, fizeram a demo “Satanic Rites” na tentativa de convencer a Noise de que valiam a pena. Correu bem.

«Eles disseram: ‘Bem, a demo soa realmente muito bem, portanto não vamos apenas fazer a compilação, mas também um EP.’», conta Tom.

O EP seria lançado em 1984 como “Apocalyptic Raids”, quando Steve Warrior tinha sido substituído pelo baixista Martin Eric Ain, de 15 anos. Foi recebido pela imprensa e pelos fãs com a mesma reacção que tinha acontecido com as primeiras demos: uma mistura de perplexidade, horror e escárnio.

Já não importava. Três meses após o lançamento de “Apocalyptic Raids”, Warrior e Ain tinham acabado com Hellhammer, sentindo que tinham superado o seu ruído primitivo. A dupla reuniu forças em Celtic Frost, um veículo para sua visão musical.

Os Frost seriam rapidamente venerados como uma das grandes bandas visionárias dos anos 1980, deixando Hellhammer nas sombras. Até Fischer parecia envergonhado com isso – em entrevistas da época, falou sobre a sua antiga banda como se fosse o sobrinho deficiente trancado no sótão.

Mas quando a cena black metal da Escandinávia começou a enraizar-se, o nome profano de Hellhammer foi gradualmente arrastado para o centro das atenções. Descontentes de corpse-paint, como Emperor e Mayhem, citam a banda suíça como influência. Três membros de Mayhem até usaram o nome das faixas da demo “Satanic Rites”: o guitarrista Euronymous e os dois primeiros vocalistas Maniac e Messiah, enquanto o baterista Jan Axel Blomberg monopolizou e baptizou-se Hellhammer.

https://www.youtube.com/watch?v=6MfT-L-vkJQ

O próprio Tom desconhecia a valorização que a sua antiga banda mantinha. «Nessa altura, eu morava na América e não sabia muito do que acontecia na Europa», diz. «E quando voltei, em 1994, fiquei completamente arrebatado com pessoas a contactar-me do nada a falarem de Hellhammer. Era completamente o oposto da situação que existia antes. Demorei um bocado para olhar a música como fã – apenas de uma maneira abstracta. E então, é claro que fiquei muito feliz pelas pessoas terem aceitado aquilo tudo. E eu também consegui aceitar. Mas foi um grande processo por várias razões.»

Hoje em dia, Tom já fez as pazes com o seu passado ao ponto de formar uma nova banda, Triumph Of Death, para tocar músicas de Hellhammer.

«Não foi algo que considerei durante um bom tempo, embora, claro, essas músicas fossem extremamente importantes para o caminho da minha vida. Mas quando aceitei isso tudo, eu tinha uma carreira com duas outras bandas. Percebo muito bem o quão importante são algumas dessas músicas. E quando toco algumas dessas músicas de Hellhammer em palco, para mim, é óbvio que a rota para a música actual de Triptykon está ali. Existem certos elementos nessas músicas que, ainda hoje, reconheço totalmente nas minhas composições. Portanto, para mim, é realmente uma ponte que abrange toda a minha vida e já não é apenas algo do passado ou algo abstracto.»

Consultar artigo original em inglês.

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