O mundo de acordo com Brian “Head” Welch, dos Korn e Love and Death. Brian “Head” Welch: «Korn inspirou algumas grandes bandas e algumas más»

O mundo de acordo com Brian “Head” Welch, dos Korn e Love and Death.

Brian “Head” Welch teve uma das jornadas mais interessantes do que qualquer músico metal de que há memória. Como membro dos Korn, ajudou a criar o som do nu-metal, ancorando de forma soberba o seu ataque pesado e riffs à tag-team com o colega guitarrista James “Munky” Shaffer, antes da espiral do vício o levar para fora de Korn e em direcção a território selvagem. Encontrou salvação nas suas crenças religiosas, no despertar espiritual e, em última análise, numa reforma emocional com os seus companheiros de banda. Ressuscitando Love and Death, o seu projecto a solo pós-Korn, que se tornou numa banda totalmente funcional, descobrimos o que aprendeu com tudo isto.

-/-

Não consigo explicar o som de Korn
«Simplesmente pegámos naquela música toda – metal, punk, industrial, hip hop – e combinámos tudo no primeiro álbum. De alguma forma, acertámos em cheio num momento em que as pessoas estavam à procura de algo novo e o clima estava bom. O Jonathan [vocalista] sentia muita dor na sua vida e só precisava de mandar cá para fora – é tudo em que realmente nos concentrávamos. Não sabíamos o que aconteceria. Ao início, as pessoas não gostaram, éramos uma esquisitice, mas começámos a crescer nelas – deixámos uma marca na história da música pesada e temos orgulho nisso. Se na altura achava que me iam perguntar sobre isso hoje em dia? Caraças, não!»

Estamos lisonjeados com o que aconteceu desde então
«Olho para quem veio depois de nós, e as bandas pegaram mesmo no nosso som e fizeram coisas incríveis com isso – olha para Slipknot e Linkin Park! Adoro essas duas bandas, e eles levaram o que fizemos para direcções completamente novas. Portanto, inspirámos algumas bandas que são muito maiores do que nós e algumas bandas más também. Tens de pensar que isso é uma conquista!»

Korn foi uma das últimas bandas super-estrelas do metal
«Acho que era diferente no nosso tempo. Havia bandas com nomes que simplesmente reconheces: Metallica, Linkin Park, Deftones, System Of A Down… Ter Korn como um desses nomes é uma loucura. Fomos o último grupo a realmente estar na MTV, onde as pessoas esperariam para ver o vídeo, toda a gente esperava que lançássemos um CD, portanto acho que significava muito para as pessoas. Queres mais daquilo que não podes ter – as pessoas ainda são fãs, mas a gratificação instantânea de hoje roubou a verdadeira natureza hardcore disso. Sinto-me sortudo por ter vivido a última parte da velha maneira de se fazerem as coisas antes de tudo mudar.»

O metal está a aceitar mais a religião
«Agora está melhor, mas quando fiz saber que esse era o meu caminho, foi uma esquisitice, com certeza. Bandas pesadas, como Metallica ou quem quer que seja, qualquer grande banda pesada que queiras indicar, nenhuma delas tinha uma história como esta. As pessoas pensaram que era uma farsa. No entanto, foi parcialmente culpa minha. Tirei as tranças e fiquei com aquele cabelo encaracolado, mas não desfiz a barba. Lembro-me de uns miúdos que entraram numa gelataria onde eu estava e disseram: ‘Ei, olhem, é Jesus!’ E riram-se de mim. Achei que era engraçado! Olhei-me ao espelho e pensei: ‘Vou deixar crescer e ter a aparência de Jesus.’ Eu estava a falar sério sobre a minha fé, mas partilhei muitas fotos minhas em que me parecia com Jesus! Fui baptizado em Israel. Num minuto és o Head de Korn, no seguinte és tipo Jesus. Mas agora é diferente, há muitos mais como nós… Os gajos de Megadeth, por exemplo. Já não é tão incomum.»

Sonhava em regressar a Korn
«Os anos depois de deixar Korn? Quando estava acordado, estava bem, porque estava muito viciado na minha nova vida e na minha nova aventura. Quando tinha períodos de inatividade em Korn, era quando o vício e a depressão me atacavam. Portanto, quando saí, houve um período em que estava a adorar a vida. Concentrei-me na minha filha e fiquei longe da MTV e da imprensa. Não queria saber o que eles andavam a fazer. Mas quando ia dormir, em 80% das minhas noites sonhava em voltar ao palco com aqueles gajos. Acordava e tinha um sentimento emocional sobre isso. Tinha saudades deles. Na vida real não tinha, mas no meu subconsciente tinha – durante cerca de sete anos sonhei com aqueles gajos!»

O meu primeiro concerto no regresso a Korn foi bizarro
«Os últimos anos em Korn pareciam que eu estava num nevoeiro, mas quando saí tentei esquecer esses anos durante muito tempo. Por isso, quando saltei para o palco [para tocar a “Blind” no Carolina Rebellion Festival em Maio de 2012] houve uma ligação instantânea, mas ainda assim parecia tão estranho. Nos últimos dois anos em Korn, eu estava completamente passado – ora bêbado, ora, com certeza, cheio de metanfetaminas –, portanto, dessa memória enevoada a estar completamente limpo, foi uma loucura. Do tipo: ‘Uau! Isto é surreal!’ Foi muito entusiasmante. Achei que fosse apenas o encerramento do livro, todos nos perdoámos e tive mais uma hipótese para tocar com eles. Foi incrível.»

Priorizar o que é importante
«Muito do “Loud Krazy Love” [filme de 2018 que documenta o tempo em que Head esteve fora da banda e o seu relacionamento com a filha] sou eu a arrepender-me das coisas, mas, quando realmente penso nisso, os meus pais ainda estão juntos – o meu pai bebia e às vezes ficava furioso, mas tentava ser um bom pai. Ele estava preso nos seus caminhos porque o pai dele também bebia. Portanto, acho que fiz o melhor com o que me foi dado. Com o estrelato do rock, tentei desfrutar disso, mas acho que desfrutei demais. Demorei muito tempo a perceber que positividade, família, fé… são as coisas de que precisas na vida. Foi quando comecei o processo de reconstrução e cura, que demora anos.»

Ver a tua vida em filme é muito emocional
«Quando vimos a versão completa pela primeira vez, vi com a minha filha e simplesmente chorámos. Ela tinha 16 anos na altura, fazia terapia – a coitadinha tinha dois pais que eram viciados, por isso, quando ela viu aquilo, viu a vida toda, desde o nascimento até aos dias de hoje. A magnitude arrebatou-a – queríamos tudo ali, mas era tão recente. Esse documentário é a coisa mais real que podes ver, apenas nos abrimos e partilhámos.»

Existe no momento
«Se passaste a maior parte da tua vida a rebentar com tudo, vais demorar algum tempo a sarar. Mas estou bastante livre, pá – aquela velha pessoa foi-se. Estou próximo de pessoas que bebem, fazem-no ao pé de mim na estrada a toda a hora, e está tudo bem. Estou apenas a tentar viver o momento, sem deixar que esses arrependimentos me afectem e que existam no presente. Às vezes fico deprimido, mas precisas de te concentrar no que está a acontecer agora. O passado já foi, tens de ser a pessoa que desejas ser agora.»

Mantém o sentido de divertimento
«Sabes, o humor ajuda-nos muito nesta banda. Estamos sempre na brincadeira e a gozar uns com os outros ou o que seja. Literalmente, agora é a mesma coisa como era nos primeiros tempos, só não vomitamos uns em cima dos outros! Mas o que se diz, as caretas idiotas, todas aquelas piadas internas que sempre existiram – porque somos irmãos! O que vês hoje em dia é apenas uma versão mais velha do que Korn sempre foi, o que sempre nos uniu. Ainda somos as mesmas pessoas, ainda gostamos de estar na brincadeira.»

Love and Death é uma banda totalmente desenvolvida
«Quando regressei a Korn, fiz alguns concertos com Love and Death e depois parei a banda durante um tempo. Eu e o guitarrista Jasen [Rauch, de Breaking Benjamin] trabalhámos nas músicas durante cerca de cinco anos, e, quando comecei, parecia um projecto a solo muito pessoal, mas agora, que os rapazes chegaram e escreveram o álbum comigo, sinto que tem a sua própria marca. Temos o nosso próprio estilo – fazemos coisas que não podemos fazer em Korn ou que os rapazes não podem fazer em Breaking Benjamin.»

Nunca é tarde para aprender coisas novas
«Escrever e colaborar com outros músicos é uma coisa muito divertida, porque pode ser uma história que estamos todos a criar em conjunto mas que pode continuar a ser algo muito pessoal para mim. Isso é arte, certo? Tem um sentimento abstracto para quem ouve, mas significa tudo para mim. Tive muita ajuda. Às vezes sou péssimo a escrever letras, toda a gente é do tipo ‘nah’ e desencorajam-me, mas depois consigo receber algo deles e transformo ou reescrevo e toda a gente me diz que é óptimo! Estou a aprender a ser um frontman, mas estou a receber um apoio maravilhoso.»

Consultar artigo original em inglês.