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Greg Puciato: «Arrastar o cadáver de Dillinger Escape Plan pelo mundo não foi saudável»

Ataques de pânico, drogas, o fim da sua antiga banda – Greg Puciato não estava num bom momento há três anos. Com o seu novo álbum solo, redescobriu-se.

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Ataques de pânico, drogas, o fim da sua antiga banda – Greg Puciato não estava num bom momento há três anos. Com o seu novo álbum solo, redescobriu-se.

Foto: Jim Louvau

«Aqui tens, aqui estou, lida com isso, não lides com isso, não quero saber.»

Greg Puciato

São 11 da noite, hora local, quando ligamos a Greg Puciato, que está em sua casa em Los Angeles, e está a chegar ao auge do seu dia. Sendo uma dedicada coruja nocturna, os anos de intensas digressões – primeiro com The Dillinger Escape Plan e posteriormente com o projecto electrónico The Black Queen e com o supergrupo de metal Killer Be Killed – definiram o seu relógio biológico em torno dos tempos em palco. Portanto, enquanto o resto da cidade dorme, Greg é mais criativo à medida que os minutos avançam até à manhã seguinte. Mas desde que a quarentena foi imposta, tendo acabado de arrancar cada gota de inspiração da sua vida para o álbum a solo de estreia “Child Soldier: Creator of God”, uma quietude incomum instalou-se em sua casa, um zen interior enquanto o mundo exterior enlouquecia.

«Ganho energia por estar sozinho», diz. «Sou filho único, consigo passar muito tempo sem fazer nada. Adoro não fazer nada, é a minha cena favorita. E quero dizer verdadeiramente nada. Não ver TV, não jogar, não realizar nada, apenas passar o tempo sem fazer nada. Portanto, para mim, a quarentena não é um grande problema.»

Greg parece estar num momento muito bom em 2020. Certamente, passou pelo pior há três ou quatro anos, quando os Dillinger chegaram ao fim. A sua última aparição num festival no Reino Unido, no Download 2017, foi um momento de catarse e celebração para o público com a banda a estar aparentemente na melhor forma das suas vidas à medida que destruíam o local – e a si mesmos. Para entrar em palco, o vocalista teve de tomar quatro Xanax para a ansiedade ficar sob controlo. Greg estava a sofrer um grande ataque de pânico, diz-nos. Na verdade, pensava que estava a ter um ataque cardíaco e que estava prestes a morrer.

«Ter o que era uma parte importante da minha identidade a terminar durante aquele mesmo período, obviamente não ajudou», diz. «O stress disto a acabar e o stress de ter que arrastar o cadáver daquilo pelo mundo durante alguns anos não foi saudável. Mas depois, a certa altura, por volta do início de 2018, [a banda] simplesmente começou a desaparecer. Simplesmente começou a dissipar-se, e pensei: ‘Acabou.’ Cheguei ao outro lado. E agora sinto-me óptimo. É muito estranho.»

Porém, as coisas tinham de piorar antes de melhorarem. Depois daqueles concertos finais de Dillinger, a depressão de Greg levou a melhor sobre si, o que foi exacerbado pela automedicação e negação. «Quando se trata de ansiedade e depressão, acho que isso são todas as coisas que não te permitiste processar», continua. «Guardei muitas coisas durante um longo tempo, que começaram a tornar-se inevitáveis, e quando começou tudo a bater, eu não estava preparado para isso. A única coisa pela qual eu poderia estar grato era por ter meios criativos para conseguir passar por isso. Mas eu andava a beber muito, a usar toneladas de drogas, cocaína, andava a curtir muito. Estava a ficar dormente e a evitar ter que lidar com aquela merda toda, e isso lixou-me durante alguns anos. Eu era uma pessoa diferente – durante três ou quatro anos nem me reconhecia, pensava que tinha morrido. Eu era apenas um desastre de pessoa. Mas a certa altura, apenas processas e acabas com isso. Produzi muito durante aquele tempo, tive muitos concertos, muita terapia, simplesmente superas isso de alguma forma.»

«Durante três ou quatro anos nem me reconhecia, pensava que tinha morrido. Eu era apenas um desastre de pessoa.»

Greg Puciato

Os seus eventuais passos finais rumo à recuperação em 2018 coincidiram com o segundo disco de Black Queen, “Infinite Games”, que se tornou pedra fundamental para o álbum a solo deste ano. Greg admite que lançar algo tão completamente diferente de Dillinger, sem saber como as pessoas reagiriam, foi assustador, mas isso deu-lhe confiança para mostrar todos os lados diferentes da sua personalidade em “Child Soldier”, um álbum no sentido verdadeiro, pretendido para se ouvir na íntegra. Lançado pela Federal Prisoner, editora que criou com um amigo, o artista visual Jesse Draxler, o álbum tem Greg a tocar todos os instrumentos, excepto a bateria, que concedeu a Chris Hornbrook (Poison The Well), Chris Pennie (ex-Dillinger) e Ben Koller, colega de banda em Killer Be Killed e membro de Converge. «Sou tão maníaco por controlo que pensei em tentar aprender a tocar bateria», diz. «Tive de me convencer do contrário, do tipo: ‘Pá, estás a ir longe demais. Será que em três meses serás realmente tão bom como aqueles gajos que tocaram bateria a vida toda? Pára com isso, sai daqui, não sejas idiota.’»

Adequadamente, para um projecto tão profundamente pessoal, as temáticas de liberdade e rompimento de laços aparecem ao longo do disco. Greg é evasivo quando se trata de pegar em letras individuais, não querendo revelar as verdadeiras histórias de pessoas reais na sua vida. Mas fala da falta de filtro ao escrever. «Não decido realmente sobre o que será uma música antes de a escrever, e para mim é mais como uma terapia, um diário e uma tentativa de ser aberto o suficiente para que possa deixar sair o que quer que saia de mim», diz. «Porque se fizeres isso, serás honesto, e se fores honesto, as pessoas vão identificar-se contigo quando compartilhas um bocado verdadeiro de ti com elas. Portanto, para fazeres isso, tens de largar o volante e ver para onde o carro vai.»

Parte dessa honestidade está ligada ao dar ao projecto o seu nome verdadeiro em vez de uma alcunha, algo que o seu amigo Jerry Cantrell o convenceu ser a atitude certa. Agora, diz Greg, está livre para continuar a crescer e a evoluir como artista. «É propriedade, integração, controlo, liberdade», acrescenta. «Estilística e emocionalmente podes ir onde quiseres com isto.»

Antes da intervenção de Jerry, “Child Soldier” foi definido para ser o nome da banda e não o título do álbum. Tal surgiu, diz Greg, através do processo de recuperação dos seus próprios problemas e do encontro da força no outro lado. «“Child Soldier” surgiu por ter que resolver as coisas», conta. «Pessoas criativas são emocionalmente sensíveis, trabalham através de algo. Absorves as coisas de maneira diferente. Tens de aprender a viver num mundo insensível como uma pessoa sensível, e essa é a parte “Child Soldier”. E o elemento “Creator of God” diz que tens de passar por isso, portanto consegues criar o teu universo. És deus e criaste-te a ti mesmo, e estamos a criar a nossa existência em tempo real. É uma grande alucinação colectiva, imaginamos as nossas existências para a realidade. Superas a luta e consegues ser o que quiseres, não há limites para isso.»

Este é, então, um álbum progressivo no sentido mais literal. A música evoluiu, tornou-se ainda mais complexa e imprevisível, à medida que o seu criador adquiriu uma compreensão mais profunda de quem é. Aqui, fragilidade não é fraqueza, é algo a ser celebrado – a descoberta de forças para aceitar a verdadeira natureza. Honestidade, ao que parece, não é apenas a melhor política – é essencial para uma vida mais feliz.

«Fiz 40 anos, e, para mim, este ano é sobre integração e ser dono de cada parte de mim», diz Greg, pronto para partir para outra noite tranquila e silenciosa em LA. «E sinto que este álbum é um símbolo disso. É um reflexo de algo que está a acontecer na minha vida pessoal, em que me sinto completamente bem e à-vontade com quem sou. Aqui tens, aqui estou, lida com isso, não lides com isso, não quero saber. Demorei muito para chegar a esse ponto.»

Consultar artigo original em inglês.

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